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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A PÁDUA
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II Palácio do Governo da Região Véneta
Ilustres Senhores 1. Agradeço vivamente ao Presidente da Junta Regional as gentis palavras com que me acolheu, e dirijo a todos vós, representantes dos vários sectores da vida social e cultural desta ilustre cidade, a minha mais cordial e deferente saudação. Há mais de sete séculos este grande edifício cívico no qual nos encontramos é, com a Catedral, com a Basílica do Santo e com a vizinha Universidade, um dos pólos simbólicos, um importante ponto de referência não só para aquele que vem a Pádua, mas também para quem goste de aprofundar o significado da cidade e do seu território, das vicissitudes passadas e das condições presentes, em vista de possíveis e desejáveis desenvolvimentos futuros. Com uma denominação consagrada pelo uso secular, vós chamais "da Região" a esta Sala, na qual os vossos pais, representantes das várias categorias, corporações e camadas sociais, "arrazoavam", ou seja examinavam e discutiam os negócios e as causas do público interesse e utilidade, e os magistrados administravam a justiça, à luz da razão. Nome tão belo e responsabilizante não pode deixar de sugerir, por analogia, algumas reflexões. A minha memória, em particular, recorda outra expressão, que de há séculos está esculpida num portal da Universidade de Cracóvia, tão querida ao meu coração: "Plus ratio quam vis": vale mais a razão do que a força. Em Pádua, como em Cracóvia, como em qualquer lugar onde viva uma sociedade que se inspire na mensagem cristã, o uso da razão, na vida quotidiana e nos momentos de maior responsabilidade política e social, foi considerado e deve sê-lo, agora e sempre, como índice indispensável e qualificante de sabedoria, de humanidade e de civilização. 2.Estarmos aqui reunidos neste lugar, que apresenta, também na importante decoração pictórica, os sinais da integração entre sociedade civil e comunidade eclesial, não só nos leva a considerar com respeito e veneração as grandes estações do passado, singularmente densas de vicissitudes e muitas vezes ricas de duráveis valores em toda a terra que divide com Veneza nome e prestígio, mas constitui oportuna ocasião para nos perguntarmos, diante de tão eloquentes testemunhos históricos e artísticos, culturais e sociais, religiosos e civis, de que modo ainda hoje homens e mulheres, jovens e anciãos, estudantes e trabalhadores podem viver concordemente na única comunidade humana, que traz em si mesma, distinguíveís mas não separáveis, as prerrogativas, os valores e os aspectos, do religioso e do civil, do individual e do social, do material e do espiritual. Para nos determos ainda um instante naqueles tempos, voltamos o olhar para os muros deste admirável espaço arquitectónico e vemos como aquela sociedade cristã da Idade Média, embora tantas vezes dilacerada por ferozes desavenças, soube exprimir a própria visão do mundo na unidade da fé em que eram assumidos, permanecendo embora distintos, os valores, as exigências e as crenças que se referem ao visível e ao invisível, ao temporal e ao eterno, à vida do corpo e à do espírito. 3.O alcance daquela síntese não foi fácil, nem breve foi o trabalho que o precedeu. Pouco antes de Dante lhe construir, com a Divina Comédia, a mais alta suma poética, Giotto realizou maravilhosa sinfonia cristológica e mariana, na vossa Capela dos Scrovegni, e o século de Francisco, de António e de Tomás de Aquino tinha-se pouco antes concluído. Mas quantas lutas, que divisão de ânimos, que disputas acesas, que penosos erros, que prolongadas tribulações de pessoas e de povos perturbaram, também naqueles séculos, a Igreja e a sociedade civil! Nestas mutações históricas tem-se uma confirmação de cada homem, e a sociedade religiosa e civil a que pertence, poderem e deverem desempenhar funções insubstituíveis e por vezes improrrogáveis. Não é minha intenção, a este propósito, indicar de modo específico os campos em que hoje se pode, e talvez se deva, pedir à comunidade civil e religiosa, leiga e eclesiástica, de Pádua e da inteira região veneziana, que opere e progrida em vista de um real e duradouro progresso individual e social, material e moral; considero todavia que não se podem ignorar alguns temas e problemas que se apresentam à luz de factos e situações, que estão bem presentes a todos. 4.O primeiro é constituído pela necessidade de salvaguardar a dimensão transcendente na edificação da civitas hominis (sociedade do homem). Esta tensão para o durável e o eterno, de que foram mestres os vossos Santos, compreende, por um lado, a fundamentalidade de Deus e, por outro, a centralidade do homem, remido pela vida e pela paixão de Cristo, morto e ressuscitado. Esta tensão para o transcendente pode-se traduzir numa recomendação viva e sincera: não permitais que o materialismo e o utilitarismo, que se apresentam como busca cada vez mais laboriosa dos bens materiais, conduzam a perder o sentido do eterno, a perder de vista os valores dominantes de Deus e aquela visão religiosa e cristã da vida, que distingiu as gentes venezianas e as impeliu a procurarem exprimir, também na actividade social e politica, as exigências da mensagem cristã. 5.Um segundo problema, muito sentido, é o de realizar uma nova síntese cultural, um encontro possivelmente harmónico entre a nova ciência e os direitos da consciência, entre as actividades produtivas e as exigências do espírito, entre uma gestão inteligentemente pragmática dos vários organismos e uma sincera ética do serviço, entre as gerações que se apagam e as que sobem ao horizonte da vida: e, por último, entre o dever de ser fiel ao Evangelho na Igreja e o empenho de fazer-se promotor e cooperador de um equilibrado bem-estar na sociedade civil. Pádua e a região de Veneza poderiam encontrar-se numa situação particularmente favorável para conseguir um caminho concorde nesta direcção. Também nisto, nos ensina o passado que uma síntese eficaz — entre tendências, exigências e valores de diversa natureza — é possível só operando-se em recíproco entendimento, com mútuo respeito, e tendo presente a perspectiva social própria do cristianismo. 6.Um terceiro e último ponto desta reflexão desejaria reservar para o triste fenómeno da violência. Pádua e o seu território, nos últimos anos, afligiram-se com uma série de factos preocupantes. Por isso eu atrevo-me a pedir propósitos de paz e não de destruição a todos os que julguem ter motivos para protestar contra as pessoas e os ordenamentos sociais; mas peço ao mesmo tempo que na sociedade civil, no mundo do trabalho e da produção, da escola e dos serviços, cada um actue de modo tal que não pré-constitua motivos, situações e solicitações, que cheguem a justificar, se não a promover, formas exasperadas de conflito, ou que possam, mesmo sendo como pretexto, despertar reacções contrárias ao uso da razão e do bem comum. Não há, de facto, situação conflitual, sobre que as livres vontades das pessoas não possam e não devam intervir, para prevenir erros, para ajustar os meios reais aos fins possíveis, para curar as feridas e para reconciliar os ânimos (cf. Gaudium et Spes, 25). Como conclusão deste encontro, formulo de todo o coração votos pela defesa e pelo incremento da paz social, da concórdia civil, da vida espiritual e das actividades laborativas de Pádua e das generosas gentes venezianas, assegurando orações por que as várias camadas sociais operem solidariamente à procura e na salvaguarda do verdadeiro bem comum, e para que a fé coerentemente praticada continue a constituir a nota distintiva vossa e do povo que representais, ao mesmo tempo que de boa vontade invoco a bênção do Senhor.
© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana
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