The Holy See
back up
Search
riga

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 AOS BISPOS DA HOLANDA POR OCASIÃO
DA VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Sábado, 22 de Janeiro de 2013

 

Caros Irmãos em Cristo

Sinto-me muito feliz de vos acolher por ocasião da vossa visita "ad limina". Vê-se e quero sublinhá-lo — que vós estais entre os primeiros Bispos a realizar semelhante visita neste ano de 1983, que será marcado por dois acontecimentos da Igreja universal, a saber, o Ano Santo e o Sínodo dos Bispos. Estes dois eventos são aliás convergentes: o primeiro quer evocar e fazer viver mais profundamente o Mistério da Redenção; o segundo tem por objectivo examinar mais a fundo, no plano da reflexão e da vida concreta, "a reconciliação e a penitência na missão da Igreja". A Redenção, a reconciliação, a penitência e a conversão de igual modo são questões vitais tanto para a Igreja inteira como para esta porção do Povo de Deus que vive nos Países Baixos.

A vossa visita "ad limina", realiza-se todos os cinco anos. Mas o realiza-se de cinco em cinco anos. Mas o principal acontecimento que caracterizou a vida da Igreja nos Países Baixos foi certamente o Sínodo particular dos Bispos, realizado há três anos. Ele continua a ser o ponto de referência para um renovamento da vida eclesial no vosso país. Sem dúvida conservastes a comovente e solene lembrança da celebração do encerramento na capela Sistina, sob o olhar de Cristo pintado por Miguel Ângelo, e a memória do instante em que vós comprometestes no íntimo dos vossos corações, ao subscreverdes todos vós as conclusões que constituem um verdadeiro programa de vida e de acção pastorais, quando me encontrava no meio de vós para vos confirmar. Recordais também que nos propusemos como objectivo desse Sínodo particular "uma clara manifestação da comunhão eclesial". Ora, esta comunhão supõe uma contínua conversão a Cristo, e da parte de todos. É por isso que durante as reuniões sinodais recordastes as palavras do Concílio Vaticano II: "A Igreja, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercite continuamente a penitência e a renovação" (Lumen gentium,8). Estas palavras, sempre actuais, são-no mais do que nunca deste Ano Santo.

Durante esse Sínodo, vivemos verdadeiramente uma profunda experiência de comunhão. E, como consequência, renovamos este espírito, por ocasião das vossas visitas ocasionais e reuniões periódicas do Conselho do Sínodo particular especialmente durante a vossa presente visita "ad limina" proporcionas-me, a mim e aos meus colaboradores, participar das vossas alegrias e dos vossos sofrimentos, das vossas esperanças e dificuldades no trabalho empreendido em vista da comunhão e do renovamento, que exigem necessariamente uma disponibilidade total à reconciliação e à penitência, bem como a coragem de aceitar o mistério da cruz para se chegar à ressurreição.

Nos vossos encontros com os meus colaboradores, aprofundastes certos assuntos importantes. Neste, momento, desejaria reflectir convosco sobre alguns aspectos da renovação da vida eclesial na linha do pensamento do Sínodo, da comunhão com a Igreja universal e da comunhão com a Sé de Pedro. Esse Sínodo é de facto o caminho a ser seguido pela Igreja nos Países Baixos, pois ele é a aplicação autêntica do Concílio Vaticano II, e portanto o caminho da verdadeira renovação.

1. Vós sois Bispos, a saber, os pastores dos discípulos de Cristo, que vivem e trabalham nas dioceses holandesas, em união com as outras comunidades católicas disseminadas pelo mundo. É deste modo que a Igreja agia nos tempos apostólicos. Os Actos dos Apóstolos ajudam-nos a bem identificar os discípulos de Jesus, graças às características das quais a primeira absolutamente é que "eles eram assíduos ao ensino dos Apóstolos" (Act. 2, 42).

A comunhão na fé significa para os Apóstolos terem a missão de anunciar a Palavra e de ensinar, e para os discípulos deverem ser fiéis a este ensinamento. Hoje, esta comunhão é igualmente fundamental, e ela implica para todos a fidelidade ao ensinamento de Cristo e dos Apóstolos, e para vós, pastores, a missão de "pregar a Cristo, crucificado" (1 Cor.1, 23). Ela requer que o Cristo seja apresentado de modo integral como "verdadeiro Deus de Deus verdadeiro... e que, por nós homens, se fez homem"; que Ele seja apresentado também com todas as suas exigências, às vezes radicais, mas sempre visando o bem do homem. Isto comporta para vós, pastores, a obrigação de ajudar os vossos fiéis a bem discernirem onde se encontram os alimentos da sã doutrina, de organizar e guiar o andamento da catequese, especialmente para os jovens. Isto por outro lado é o que tínheis previsto durante o Sínodo (cf. Conclusões 43-44-45) e a isto consagrais uma acurada atenção. E de diversas maneiras, vós confirmais ainda o vosso desejo "de exercer pessoalmente o papel de doutores da fé" (Conclusão 45), pois cada Bispo tem consciência de ser responsável do que é ensinado em nome da Igreja, devido à missão de ensinar que ela mesma confiou a alguns.

A comunhão na fé garante os vínculos de uma Igreja particular com as outras e com a Igreja de Roma, tal como ela garante uma verdadeira abertura católica, que permite evitar toda a separação.

2. Os que acreditavam eram igualmente fiéis à fracção do pão e às orações (Act. 2, 42).

A vida de fé manifesta-se sobretudo pela participação na vida litúrgica é sacramental, bem como por uma vida de oração constante. Por isso, toda a instituição de igreja deve ter a peito dar muito vigor a esta vida, para evitar o perigo de se tornar uma estrutura burocrática. Os homens têm sede do Deus Vivo e verdadeiro, do contacto pessoal e comunitário com Ele que é Verdade e Vida.

É-me grato pensar que, também no vosso país, a busca pessoal de Deus está a conhecer uma nova expansão. Fazeis bem em estar presentes nestas aspirações dos espíritos e dos corações, para as compreender, estimular e guiar.

Quanto às expressões: litúrgicas, sacramentais e comunitárias, recorrestes aos documentos conciliares durante o Sínodo particular, e, com razão, pusestes em relevo o facto que os sacramentos estão confiados à Igreja que, tendo em conta os mistérios divinos, estabelece a administração deles; pela mesma razão, fizestes ressaltar que à liturgia é um bem comum a toda a Igreja, e que por consequência, ela deve ser celebrada de maneira ordenada e "em plena conformidade com os livros oficiais, renovados segundo o . espírito do Vaticano II, servindo-se das amplas, possibilidades de adaptação previstas nestes mesmos livros" (Conclusão 40).

Neste momento vós seguis com muita atenção a publicação dos livros litúrgicos em língua holandesa, como já o fizestes para o missal romano, que é um outro meio de comunhão na fé com as Igrejas particulares do mundo inteiro. Não se deve admirar que a Igreja estabeleça seja a celebração orientada por um tal meio. Isto constitui uma garantia da fé católica autêntica e o portador de riquezas espirituais próprias do "Mistério da fé". A Eucaristia é de facto "fonte e ápice de toda a evangelização"(Presbyterorum ordinis, 5), e é ao redor dela, celebrada pelo Bispo ou por todo o sacerdote canonicamente habilitado, que se constrói a Igreja (cf. Lumen gentium,17 e 26).

3. Este reflexão sobre a Eucaristia conduz-nos muito naturalmente a uma consideração sobre o sacerdócio. A distinção teológica entre o sacerdócio ministerial ou sacramental e o sacerdócio comum a todos os fiéis encontra uma aplicação imediata a propósito da celebração da Eucaristia. O ensinamento absolutamente continuado da Igreja sobre o mistério da Eucaristia, e de novo reevocado pelo Concílio Vaticano II na Constituição dogmática sobre a Igreja, é claro: "Aquele que recebeu o sacramento ministerial tem o poder sagrado... para realizar o sacrifício eucarístico, fazendo as vezes de Cristo, e oferecê-lo a Deus em nome de todo o povo" (n. 10). De nenhum modo há Igreja sem Eucaristia, e não há Eucaristia sem sacerdote. Como poderia existir uma igreja sem o sacerdócio ordenado?

Durante as assembleias do Sínodo de Janeiro de 1980, tal como ao longo dos três anos que se seguiram, os sacerdotes estavam e continuam a estar com razão, no centro das vossas preocupações, à saber, o seu ministério, a sua vida espiritual, o aumento das vocações sacerdotais è a formação dos futuros sacerdotes. "Há sinais evidentes da vossa solicitude neste sector, por exemplo a carta sobre o sacerdócio ministerial, intitulada "Servidor na comunidade de Deus" que o Senhor Cardeal Johannes Willebrands publicou como Presidente da vossa Conferência; a carta pastoral da Quaresma, que o Cardeal tornou igualmente pública em 1982, sobre o problema das "vocações sacerdotais". E há outros esforços concretos que estais a empreender para suscitar e preparar futuros sacerdotes.

O sacerdócio ministerial é de facto um dom do Espírito Santo à Igreja e à humanidade. Quando, na carta mencionada sobre o sacerdócio ministerial, é afirmado que sem a ordenação sacramental pelo Bispo não há verdadeiro ministério sacerdotal, repete-se muito bem a autêntica doutrina católica. "É isto (o dom do Espírito) que nós recebemos mediante os apóstolos. Não temos aqui alternativa".

4. Se o Senhor quis na Igreja o ministério sacerdotal com as características de que falámos, Ele mesmo concederá à comunidade dos seus fiéis os sacerdotes necessários para ensinarem a fé e para administrarem os sacramentos, especialmente para celebrarem a Eucaristia e para serem os ministros do seu perdão. Durante o Sínodo particular, vós exprimistes a esperança de encontrar sacerdotes, em número suficiente, e a vossa confiança no Senhor da messe. Mas é preciso rezar muito, conforme, as palavras mesmas de Cristo; "Pedi, portanto, ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a Sua messe" (Lc. 10, 2; Mt. 9, 38). A propósito disto, permiti-me dirigir-vos um ardente apelo, a vós, caríssimos Irmãos, mas também aos vossos sacerdotes e aos vossos fiéis, para que nas comunidades cristãs e nas famílias. A oração, que há-de obter do Senhor esta multiplicação de jovens desejosos de se consagrarem totalmente ao serviço do Senhor, se torne mais frequente e mais fervorosa. Além disso, é necessário que nada seja negligenciado para criar e favorecer as condições psicológicas, espirituais e ambientais, em que os germes de vocações — que Cristo não deixará de despertar na sua Igreja — possam desenvolver-se de maneira adequada e chegar à sua maturidade. A fidelidade a Cristo compromete-nos a todos. Por outro lado; vós expressastes "a vontade de ser secundados por um clero celibatário e de recrutar aspirantes a uma tal vocação" (Conclusão 25 e cf. 21).

Além disso, Igrejas locais que conheceram igualmente uma crise de vocações estão actualmente a superá-la. A Igreja inteira e o Papa compartilham a vossa esperança e apoiam pela oração os esforços que empreendeis neste sector absolutamente capital e, convosco, estão também convencidos de que a formação dos candidatos ao sacerdócio deve ser não só intelectual, mas também espiritual e pastoral. Tudo isto é precisado nos documentos do Concílio Vaticano II, inclusivamente a certeza de que uma tal formação não pode ser assegurada a não ser em verdadeiros seminários (cf. Conclusão 26).

5. Durante o Sínodo particular vós tínheis consciência muito viva de que os leigos têm um papel importante a desempenhar nas diversas tarefas da pastoral da Igreja. Não é necessário reevocar as perspectivas abertas pelo Vaticano II, sobretudo no decreto sobre o apostolado dos leigos. Devemos apreciar muito os esforços dos leigos para tornar a igreja presente no mundo cada vez mais secularizado, e a sua participação activa na vida da igreja. Ao falar precisamente da Igreja, o apóstolo Paulo serve-se da comparação do corpo humano, no qual todos os membros têm uma função e cada um a sua em particular (cf.1 Cor. 12, 12-27) . Neste corpo vivo que é a Igreja, os Bispos têm a função de manter a unidade e a comunhão vital do organismo inteiro vigiando para que a acção de cada membro corresponda à sua vocação específica. O bem geral exige que as funções próprias dos leigos não sejam desempenhadas pelos clérigos e que o papel ministerial do sacerdote não seja jamais exercido pelos leigos.

Permiti-me, caríssimos Irmãos, concluir este encontro com um apelo ao qual me sinto impelido ao avaliar os esforços já realizados e ao pensar também nas energias novas que os Bispos nomeados há um ano não deixarão de dar. De todo o meu coração, exorto-vos a conservar a coragem da fé e da acção, a fim de prosseguirdes no caminho da renovação delineada na sala do Sínodo que, em certos momentos, parecia o Cenáculo do Pentecostes.

O caminho não é fácil, mas a Igreja do vosso país está ainda rica de forças vivas. A vossa terra deu, mesmo nos nossos tempos, luminosos exemplos de empenho por Cristo. Baste-nos recordar as figuras do beato Padre Donders e do admirável carmelita, Padre Tito Brandsna. As capacidades de corajoso empenho das vossas dioceses, mantidas e bem guiadas por pastores como vós, suplantarão pouco a pouco os obstáculos e serão capazes de provocar um verdadeiro impulso espiritual. Resumindo, repito-vos o que já muitas vezes, proclamei: "Abri as portas ao Redentor!". Com a minha afectuosa Bênção.

 

© Copyright 1983 - Libreria Editrice Vaticana

 

top