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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO
SENHOR LEONEL
SEBASTIÃO VIEIRA PRIMEIRO EMBAIXADOR DA
GUINÉ-BISSAU JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS
CARTAS CREDENCIAIS*
Sábado, 19 de Dezembro de 1987
Senhor Embaixador,
É para mim motivo de satisfação receber aqui Vossa Excelência
e aceitar as Cartas que o acreditam como Primeiro Embaixador Extraordinário e
Plenipotenciário da República da Guiné-Bissau junto da Santa Sé. Ao agradecer-lhe,
Senhor Embaixador, a afirmação dos sentimentos expressos, bem como a deferente
saudação que me transmitiu do Senhor General João Bernardo Vieira, Chefe de
Estado, dou-lhe as minhas boas-vindas, ao mesmo tempo em que lhe asseguro a
minha benevolência para a alta missão que lhe foi confiada.
Este Acto reveste-se
de duas significações especiais: marca o encontro entre o Romano Pontífice e o
Governo e o Povo guineense, representados na pessoa de Vossa Excelência; e marca
também, com a instauração das relações diplomáticas, a decisão comum de manter
um diálogo que possa favorecer um conhecimento mútuo, delinear formas e traçar
rumos no prosseguimento de amistosas relações, inseridas num contexto de
respeito e liberdade.
Nas relações, uma das condições indispensáveis é o diálogo,
que nos convida “ à busca de tudo aquilo que tem sido e continua sendo comum a
todos os homens, mesmo no meio de tensões, oposições e conflitos. fazer do outro
um próximo. aceitar a sua colaboração, é partilhar com ele a responsabilidade
frente à verdade e à justiça. propor e estudar todas as formas possíveis de
conciliação honesta, sabendo unir à justa defesa dos interesses e da honra da
própria parte uma não menos justa compreensão e respeito para com as razões da
outra parte, bem como as exigências do bem geral, comum a ambas ” (Ioannis Pauli
PP. II, Nuntius ob diem ad pacem fovendam dicatum pro a.D. 1983, 6 die 8
dec. 1982: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, V, 3 (1982) 1546 s.). Assim é
possível obter a colaboração de todos e se pode fazer apelo à solidariedade
universal, sobretudo quando se tem de enfrentar situações difíceis, entre as
quais merecem destaque os graves problemas que se referem às condições básicas
para a sobrevivência, para a alfabetização e educação, que afectam as classes
mais pobres.
Vossa Excelência aludiu a problemas do nosso tempo e à esperança
que o Governo do seu País deposita na Igreja, no que diz respeito à causa da paz
e da dignidade da pessoa humana. Na verdade, estes pontos fazem parte essencial
da missão que a Igreja recebeu do seu divino Fundador; e, fiel a este mandato
irrenunciável, Ela peregrina no tempo iluminando os acontecimentos humanos com a
mensagem ouvida outrora: “ Paz na terra aos homens de boa vontade ” (Luc.
2, 14). Nestes últimos tempos têm sido mais insistente a sua voz e mais numerosos os seus gestos
na salvaguarda e na promoção do bem imenso que é a paz, e daquilo que lhe é não
só conexo mas pressuposto basilar a dignidade da pessoa humana, incluída a
dimensão da liberdade religiosa. Estes bens inestimáveis, continuamente
ameaçados, exigem como marco, para serem firmes o duradouros, o respeito dos
direitos invioláveis da pessoa humana, entre os quais não se pode deixar de pôr
em relevo os valores éticos; exigem também a promoção da justiça entre as
pessoas e os povos; e comportam igualmente “ os direitos das Nações a conservar
e a defender a sua independência, a sua identidade cultural, a possibilidade de
se organizar socialmente, de gerir os seus negócios e de conduzir o seu destino
livremente, sem estar à mercê, directa ou indirectamente, das potências
estrangeiras ” (Ioannis Pauli PP. II, Allocutio ad nationum Legatos, novo anno
ineunte coram admissos, 7, die 10 ian. 1987: Insegnamenti di Giovanni Paolo II,
X, 1 (1987) 77).
Numa época como a nossa, ensombrada por tantas dificuldades, mas
também aberta para acolher os apelos mais nobres e altos, a Igreja deseja servir
a todas as pessoas, sem distinção de raça, classe ou cultura; e, sem pretender
posições de privilégio, deseja mais que seja reconhecido o espaço de liberdade
religiosa onde possam actuar os seus fiéis e colaborar para o bem comum; deseja
ainda, em espírito de mútua colaboração e harmonia com quem dirige os destinos
de cada Nação, favorecer a grande causa do homem, especialmente do mais pobre e
necessitado. Para poder realizar esta vocação de serviço, a Igreja encarna-se na
realidade de cada povo, na sua história e cultura, participa do seu esforço de
desenvolvimento, vive solidariamente as dores humanas e toma parte nas suas
dificuldades assumindo e promovendo as suas legítimas aspirações.
Senhor
Embaixador,
Ao evocar gestos do meu venerado Predecessor, o Papa Paulo VI, quis
Vossa Excelência relevar a sua significação para os ideais da sua jovem Nação,
recentemente chegada à independência; e, ao enunciar dificuldades encontradas
para o seu desenvolvimento, salientava, entre outros, o valor da cooperação.
Isto propicia-me grato ensejo para afirmar a boa vontade da Igreja em colaborar
para o progresso social e espiritual do seu País. Para tanto confia ela que os
fiéis católicos da Guiné-Bissau possam ocupar o lugar e desempenhar a tarefa que
lhes cabe, como cidadãos e cristãos, na promoção do bem comum e no progresso da
Nação.
Asseguro-lhe que poderá contar com disponibilidade, compreensão e a
possível assistência e colaboração da parte da Santa Sé, para um desempenho da
sua missão que desejo feliz. E, pedindo que apresente as melhores saudações ao
Senhor Chefe de Estado, imploro para a pessoa de Vossa Excelência e para o Povo
da Guiné-Bissau e suas Autoridades os favores e bênçãos de Deus Omnipotente.
*AAS 80 (1988), p.1016-1018.
Insegnamenti di Giovanni Paolo II, vol. X, 3 pp. 1458-1461.
L'Attività della Santa Sede 1987 pp. 1050-1052.
L’Osservatore Romano 20.12.1987 p.6.
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