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VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
DURANTE A VIGÍLIA DE ORAÇÃO
NO SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Domingo, 12 de Maio de 1991

 

Senhor Bispo de Leiria-Fátima, Dom Alberto,
Senhores Cardeais, Arcebispos e Bispos,
Amados irmãos e irmãs, peregrinos de Nossa Senhora de Fátima
!

Sentimo-nos bem aqui neste Solar de Maria... Esta multidão inumerável de peregrinos com as velas da fé acesas e o terço nas mãos confirma-me que cheguei a Fátima, ao Santuário da Mãe de Deus e dos homens. Senhor Dom Alberto, ao pastorear esta diocese abençoada, cabe-lhe fazer as honras da casa. Muito obrigado pela sua cordial saudação de Boas Vindas. Venho ajoelhar-me mais uma vez aos pés de Nossa Senhora de Fátima, agradecer-lhe o Seu desvelo sobre os caminhos dos homens e das Nações e as maravilhas e bênçãos do Todo-Poderoso realizadas n’Ela, a Omnipotência suplicante. Viva sempre em vossos corações Jesus Cristo qual facho luminoso a indicar o caminho da Terra Prometida!

1. “Salve, ó Mãe Santa: Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos sem fim! (Sollemnitas Matris Dei: “Ant. ad Introitum”)".

Naquele memorável dia 25 de Março de 1984, Vós, ó Mãe Santa, dignastes-vos fazer-nos a graça da Vossa Visita a nossa Casa, a Basílica de São Pedro, para quase visivelmente depormos no Vosso Coração Imaculado o nosso Acto de consagração do mundo, da grande família humana, de todos os povos.

Hoje, com esta multidão de irmãos, vim junto do Vosso Trono aclamar-Vos: Salve, ó Mãe Santa! Salve, ó Esperança segura que nunca decepciona! Totus tuus, ó Mãe! Obrigado, Celeste Pastora, por terdes guiado com carinho maternal os povos para a liberdade! A Vós, Maria, totalmente dependente de Deus e orientada para Ele, ao lado do Seu e Vosso Filho, saudamos como “o ícone mais perfeito da liberdade e da libertação da humanidade e do universo” (Congr. pro Doctrina Fidei Libertatis Conscientia, 97)!

2. Estimados irmãos e irmãs,

A caminho do Além, impelidos pela força inexorável do tempo, temos necessidade de verificar o rumo, o sentido de Deus, para que os nossos passos de peregrino não esmoreçam nem errem a estrada, e os nossos ombros não carreguem outro fardo que não seja o de Jesus Cristo. Impõe-se uma pausa, um momento de recolhimento, de transformação pessoal, de renovação interior. Fátima, na sua mensagem e na sua bênção, é conversão a Deus. Aqui se sente e testemunha a Redenção do homem, pela intercessão e com o auxílio d’Aquela que com o Seu pé virginal sempre esmagou e esmagará a cabeça da serpente antiga.

Aqui se pode encontrar o ponto de referência para o testemunho de muitos homens e mulheres que, em circunstâncias difíceis e até frequentemente na perseguição e na dor, permaneceram fiéis a Deus, com os olhos e o coração postos na Virgem Maria, que é “a primeira entre os humildes e pobres do Senhor que confiadamente esperam a salvação de Deus” (Lumen Gentium, 55). Nossa Senhora foi, com efeito, para multidões de crentes, assim tão duramente provados no infortúnio, o penhor por excelência da sua fidelidade e a certeza da salvação, visto que, “por Eva, foi fechada aos homens a porta do céu, mas a todos foi de novo aberta por Maria” (Laudes Dominae Nostrae: “Ant. ad Benedictus”).

Na verdade, “o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, a Virgem Maria desatou-o com a sua fé” (S. Irenaei Adversus Haereses, III, 22, 4). Fé, sim, na Palavra de Deus, fé incondicional, pronta e jubilosa, que a cena da Anunciação exprime com particular eloquência: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). E o Verbo encarnou e habitou entre nós! A Virgem Maria deu à luz um Filho, que as Escrituras Sagradas saudaram como o Emanuel, que significa Deus connosco (Cfr. Is. 7, 14; Matth. 1, 21-23).

3. Ó Mãe do Emanuel, “mostrai-nos Jesus bendito Fruto do Vosso ventre!”.

Toda a vida de Maria, de cujo seio se desprendeu e brilhou “a Luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo”(Io. 1, 9) se desenrola em comunhão intima com a de Jesus. “Levando, na terra, uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de cuidados domésticos e de trabalhos, Ela a todo o momento se mantinha unida a Seu Filho” (Apostolicam Actuositatem, 4), permanecendo na intimidade com o mistério do Redentor. Ao longo deste caminho de colaboração na obra redentora, a sua própria maternidade “veio a conhecer uma transformação singular, sendo cada vez mais cumulada de "caridade ardente" para com todos aqueles a quem se destinava a missão de Cristo”(Redemptoris Mater, 39) e para os quais e no Qual, se vê consagrada Mãe, aos pés da cruz: “Eis o teu filho”! Deste modo, tendo Ela gerado Cristo, Cabeça do Corpo Místico, deveria também gerar os membros do mesmo Corpo. Por isso “Maria abraça, com a sua nova maternidade no Espírito, todos e cada um dos homens na Igreja; e abraça também todos e cada um mediante a Igreja” (Redemptoris Mater, 47) . A Igreja, por sua vez, não cessa de lhos consagrar.

Exorto-vos, irmãos amados, a perseverar na devoção a Maria. Quanto mais vivemos e progredimos na atitude de entrega, tanto mais Maria nos aproxima das “insondáveis riquezas de Cristo”(Eph. 3, 8) e, deste modo, nos possibilita reconhecermos cada vez mais, em toda a sua plenitude, a nossa dignidade e o sentido definitivo da nossa vocação, porque “só Cristo revela plenamente o homem a si próprio” (Gaudium et spes, 22). Na maternidade espiritual de Maria, nós somos adoptados como filhos no Filho, o primogénito de muitos irmãos. Transcendemo-nos e libertamo-nos para formarmos uma família, autêntica comunidade humana, orientada para o seu destino último - o próprio Deus que “será tudo em todos” (1 Cor. 15, 28).

Maria, ajudai os vossos filhos nestes anos de Advento do Terceiro Milénio, a encontrarem, em Cristo, o caminho de regresso à Casa do Pai comum!

4. “Salve, ó Mãe Santa: Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos sem fim”!

Nesta noite de Vigília, com as velas da fé acesas, a Igreja levanta para Vós uma ardente prece em favor dos homens, para que, com humilde disponibilidade e corajosa confiança, eles possam guiar-se pelos caminhos da salvação. Oà Mãe amada, auxiliai-nos neste deserto, vazio de Deus, onde parecem perdidas a nossa geração e a geração dos seus filhos, para que finalmente reencontrem e repousem nas Nascentes divinas das suas vidas.

No respeito das suas raízes cristãs e no desejo profundo de Jesus Cristo que se levanta no coração dos homens, queremos agora encontrar os caminhos que os povos do inteiro continente europeu devem percorrer. Abençoai, pois, Mãe de Igreja e Senhora de Fátima, a próxima Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Europa.

O facto de Nossa Senhora ter escolhido este país para manifestar a Sua protecção materna pela humanidade é uma garantia de que Portugal manterá o que de mais precioso tem: a fé. A fé, luz suprema da humanidade! Que ela se reacenda cada vez mais forte e penetre as profundidades de alma deste povo querido e os diversos âmbitos sócio-culturais do seu viver! Que todos - adultos e anciãos, jovens e crianças -, à imitação do Vosso Coração Imaculado, se empenhem a perseverar num coração puro e firme, ao serviço do Evangelho!

Acolhei, ó Mãe de Deus e Mãe de todos os filhos de Eva, esta Vigília de Oração em vossa honra e para glória da Santíssima Trindade, Luz sem ocaso que os nossos passos demandam ansiosos e tantas vezes incertos. Virgem de Fátima, caminhai connosco! Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte! Amém!  

 

© Copyright 1991 - Libreria Editrice Vaticana

 

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