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VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 AOS BISPOS DA CONFERÊNCIA
EPISCOPAL PORTUGUESA

Fátima, 12 de Maio de 1991

 

Amados e veneráveis Irmãos Bispos de Portugal,

1. Na vossa presença, de coração, quero dar graças a Jesus Cristo, o Bom Pastor (Io. 10, 11), pelo vosso desvelo contínuo a favor das comunidades que servis com caridade apostólica. Agradeço ao Senhor Cardeal-Patriarca a palavra que acaba de me dirigir, toda ela repassada de caridade, unidade colegial e serviço de consagração total ao Reino de Deus. Para cada um de vós, amados irmãos, e para a Igreja Local que apascentais, vai a minha grata e fraterna saudação: ao seu presbitério, aos religiosos e aos fiéis leigos saúdo de todo o coração, e abençoo no Senhor.

Confio e rogo a Deus que este encontro nos faça transbordar de zelo pastoral e de esperança no Senhor Jesus, a Quem foi dado todo o poder no céu a na terra (Matth. 28, 18), a fim de congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos (Io. 11, 52), e criar n’Ele próprio um só Homem Novo (Eph. 2, 15).

Marcos assinaláveis deste caminho de recapitulação, operada por Cristo e em Cristo, foram os vossos Congressos Diocesanos e Nacional de Leigos; o Sínodo dos Bispos igualmente sobre os leigos, com a Exortação Apostólica “Christifideles Laici” que consagrou as suas conclusões; e, no rasto destas felizes experiências eclesiais, recolhendo e projectando para o futuro todo o dinamismo apostólico que geraram, a vossa Carta Pastoral sobre Os Cristãos Leigos, na comunhão e missão da Igreja, em Portugal, a qual constitui verdadeiro acto de fé e resultado precioso da escuta do Espírito Santo que tendes feito conjuntamente. Nela delineastes a Igreja que sois e quereis ser, declarando a dado passo: “A nossa opção pastoral fundamental (é) edificar comunidades vivas de fé, de amor, de dinamismo missionário” (Conf. Episcopalis Portugalliae Epistula pastoralis “Os Cristãos Leigos, na comunhão e missão da Igreja, em Portugal”, n. 6).

2. Tais comunidades serão o fruto maduro da linha pastoral que vos propusestes seguir, na sequência da minha Visita de 1982, e que vos exorto intensamente a prosseguir: “Evangelizar e renovar a fé do povo cristão, na fidelidade às orientações do Concílio e às exigências do nosso tempo” (Conf. Episcopalis Portugalliae Carta pastoral sobre a Renovação da Igreja em Portugal, n. 7), para que a Igreja inteira entre com renovado vigor no Terceiro Milénio da era cristã. A recente Encíclica “Redemptoris Missio” desenha o rosto dessa Igreja que o Espírito Santo, com a sua sombra fecunda e poderosa, está hoje, cada vez mais intensamente, a suscitar emnossas comunidades eclesiais e que pode caracterizar-se assim:

- Igreja abençoada e transbordante da graça e do mistério da comunhão trinitária;

- Igreja que atravessa os séculos, não como relíquia histórica, mas como Pessoa viva que encarna e toma corpo n’Ela, assegurando-lhe eterna juventude;

- Igreja humanamente limitada, pobre e composta de pecadores, mas empenhada com todas as suas forças em abandonar-se à acção do Espírito Santo que a renova e santifica no Sacramento da Reconciliação, lhe fala e a alimenta na celebração da Eucaristia;

- Igreja que anseia e se propõe crescer em cada um de seus filhos, fazendo da unidade, comunhão e solidariedade do único Corpo de Cristo, que consagra, comunga e anuncia, a sua norma de vida interna e o rosto visível com que aparece ao mundo;

- Igreja da diversificação de ministérios e carismas, dons do único Criador e Pai, distribuídos pelo único Espírito segundo Lhe apraz, à medida dos tempos para a edificação do único Corpo de Cristo, pelo que o discernimento e o encargo para a missão devem provir dos Pastores da grei;

- Igreja que não é deste mundo, pois jurou amor e fidelidade a Jesus Cristo que a resgatou para Si, mas que está neste mundo como alma e consciência dos povos, a fim de os impelir ao respeito da transcendente dignidade da pessoa humana e dos direitos de Deus;

- Igreja consciente de ser portadora duma Boa Nova, absolutamente necessária: a Boa Nova de Jesus Cristo Salvador; e outra coisa não pede senão as condições adequadas para a apregoar sobre os telhados da cidade dos homens;

- Igreja que vive a sua liberdade no serviço dos irmãos, tanto mais livre quanto mais serve e tanto mais servindo quanto mais livre lhe permitem que seja; - Igreja “perita em humanidade”, insistindo em fazer ouvir a voz dos homens, sempre que os seus direitos são desprezados ou feridos, particularmente os daqueles que não têm voz;

- Igreja que privilegia o homem sobre as coisas, subordinando e disponibilizando estas à sobrevivência, consolidação e crescimento dele, até à plena estatura de Cristo;

- Igreja, enfim, que diariamente sai ao encontro do seu Esposo, nos pobres, marginalizados, tristes e desencaminhados (Cfr. Matth. 25, 40), certa de que o Espírito Santo convencerá o mundo desta primeira vinda, e de que, assim, pode aguardar em jubilosa esperança a última Vinda de Cristo Salvador, que, como o relâmpago, brilhará de Oriente a Ocidente, para toda a criatura.

3. Esta Igreja, que será a do Terceiro Milénio, nascerá da reevangelização que vos propondes realizar. Mas, para que a nova etapa da acção eclesial seja entre vós verdadeiramente eficaz, deveis, antes de mais, formar autênticas comunidades cristãs, à semelhança da Primitiva Comunidade Apostólica (Cfr. Act 2,42-47; 4,32-36). Rogo-vos, por isso, que promovais uma profunda renovação de todas as comunidades, e principalmente das comunidades paroquiais, como é, aliás, vosso propósito. “É urgente, sem dúvida, refazer em toda a parte o tecido cristão da sociedade humana. Mas, a condição é a de se refazer o tecido cristão das próprias comunidades eclesiais que vivem nesses países e nessas nações” (Christifideles Laici, 34).

Com paciência, com pedagogia paternal, mediante um itinerário catequético permanente, com uma solicitude imensa para ouvir os gemidos do tempo, apascentai essas multidões de baptizados que vivem desligados da prática religiosa ou até sem qualquer iniciação e catequese cristã: ajudai-os a amadurecer na sua consciência de membros da Igreja, de a verem como sua família, sua casa e lugar privilegiado do seu encontro com Deus, de se integrarem na sua própria comunidade cristã. Mova-vos a compaixão pela sua sorte, já que estas multidões de fé debilitada pela ignorância e “marginalização” eclesial são mais vulneráveis ao embate do secularismo e do proselitismo das seitas, que actuam especialmente sobre os baptizados insuficientemente evangelizados, ou afastados da prática sacramental, mas conservando preocupações religiosas.

De facto, a tradição e experiência milenária da Igreja nos mostra que é a fé, celebrada e participada na liturgia e na caridade, que nutre e fortifica a comunidade dos discípulos do Senhor. Deste modo, o serviço da Palavra, a Eucaristia e a Penitência devem voltar a ser o centro dinâmico da vida comunitária da Igreja, que aí encontra a sua missão própria à semelhança de Cristo, Bom Pastor. Nenhuma outra acção pastoral, por urgente ou importante que pareça, poderá deslocar a liturgia do seu lugar central: teremos de “permanecer assíduos à oração e ao ministério da Palavra” (Act 6, 4). Não deixeis de insistir com os vossos sacerdotes para quefomentem, com grande empenho, a prática do Sacramento da Reconciliação - pela pregação e pela disponibilidade para confessar - como opção pastoral de importância máxima para toda a vida da Igreja.

4. Vós, amados irmãos, coadjuvados pelos vossos presbíteros - os colaboradores primeiros no exercício do ministério pastoral -, deveis guiar e conduzir as comunidades a vós confiadas para as novas e empenhativas metas apostólicas a que o tempo presente chama os crentes. Um vasto campo de acção e um ilimitado trabalho missionário abre-se, de facto, diante dos nossos olhos, especialmente depois das rápidas transformações sociais na Europa e no mundo das quais todos fomos testemunhas.

Assim o convite de Cristo, Bom Pastor, a apascentar o Seu rebanho torna-se cada vez mais urgente nesta sociedade marcada por angústias e esperanças, por perturbações e dificuldades. A Europa, antiga e nova terrade evangelização, anela, às vezes sem o saber, por um suplemento de espiritualidade; clama por Cristo, único Redentor do Homem.

5. Fátima, lugar de profundos apelos sobrenaturais, não tem porventura um papel a desenvolver nesta nova e necessária evangelização? E vós, Bispos de Portugal, não sois porventura chamados a oferecer um contributo peculiar para tal obra missionária?

Em 1917 aqui em Fátima, Nossa Senhora convidava com materna insistência a humanidade inteira à conversão e à oração. À distância de 75 anos, muitos elementos sofreram alteração no panorama europeu e mundial, e numerosos acontecimentos se verificaram ao longo deste século, especialmente nos últimos anos. Fátima, absorta na silenciosa escuta de Deus que a caracteriza, continuou a ser um constante ponto de referência e de apelo à vivência do Evangelho. A este santuário e à Virgem de Fátima sempre dirigiram o seu olhar os meus predecessores e eu próprio. Como não recordar o solene acto de consagração do mundo a Maria realizado durante o Ano Santo da Redenção na Praça de São Pedro diante da imagem da Senhora, levada de Fátima precisamente para essa ocasião?

Da Cova da Iria parece desprender-se uma luz cheia de esperança que diz respeito aos factos que caracterizam o fim deste segundo milénio. Uma luz dirigida, em primeiro lugar, a vós, Pastores da Igreja em Portugal, país no extremo ocidental da Europa e aberto sobre o vasto Oceano Atlântico. Aquela impele-vos a actuar com coragem a favor da nova evangelização do continente europeu, tentado por um vasto movimento ateísta teórico e prático que parece querer construir uma nova civilização materialista. Será, pois, necessário despertar e alimentar em todas as vossas comunidades uma viva consciência missionária para que, consciente dos dons recebidos, todo o membro do Povo de Deus seja levado a uma resposta total a Jesus Cristo, à imitação de Maria, Padroeira da vossa Nação.

6. Preparareis, assim, as vossas Igrejas Particulares para viverem do melhor modo a próxima Assembleia especial para a Europa do Sínodo dos Bispos que terá lugar em Roma de 28 de Novembro a 14 de Dezembro deste ano.

A ninguém passa despercebido, veneráveis Irmãos, que se trata de uma iniciativa eclesial verdadeiramente histórica tanto no sentido da história humana, como na perspectiva do “Kairos” divino que já agora se inscreve na nossa vida terrena. Com efeito, a Assembleia europeia do Sínodo dos Bispos desenrola-se após os acontecimentos que assinalaram o ano 1989 e os primeiros meses de 1990. Eles produziram uma verdadeira viragem histórica, neste difícil XX século. Abre-se agora uma inédita perspectiva no caminho das Nações, com a queda da divisão entre os dois blocos sociais, apoiados sobre principios ideológicos e sócio-económicos opostos.

Tanto o oriente como o ocidente europeu permeados pela linfa vital do cristianismo, têm necessidade um do outro para recíproco enriquecimento espiritual e para que o anúncio de Cristo se verifique em toda a parte do Continente. Elas só podem caminhar para a unidade, recordando a Oração do Senhor: “Que eles sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Tu Me enviaste e os amaste, como Me amaste a Mim” (Io. 17, 23). Neste contexto, os trabalhos da próxima reunião Sinodal assinalarão uma etapa importante para o desenvolvimento da evangelização na Europa.

O vosso contributo para tão urgente tarefa missionária será profícuo na medida em que, conscientes da vossa já milenária tradição católica, lembrados dos dons recebidos do Senhor no decurso dos séculos, redescobrirdes com novo ardor o entusiasmo da fé proclamada com a vida e mantiverdes desperta na vossa comunidade a chama da fidelidade à mensagem da salvação divina. Tudo isto ser-vos-á facilitado se, ajudando os fiéis a fazerem o mesmo, traduzirdes na vossa existência a mensagem de Fátima que faz eco ao apelo evangélico: “O tempo completou-se e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai na Boa Nova” (Marc. 1, 15).

Vigiar e rezar, oração e penitência. Eis, em síntese, a mensagem que a Virgem não cessa de nos repetir a partir de Fátima. A oração e a penitência, como recorda o Apóstolo Paulo, são as armas do cristão na luta espiritual “contra os Principados e Potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal que habitam nas regiões celestes” (Eph. 6, 12).

7. Veneráveis Irmãos, que a vossa solicitude possa atrair os vossos sacerdotes, religiosos, religiosas, membros das instituições e dos movimentos de apostolado laical. Temos de reproduzir em nós próprios a imagem do Bom Pastor, que vai adiante das suas ovelhas, conduzindo-as por caminhos seguros, levando-as às fontes da àgua viva, cuidando de todos com amor de Pai! A experiência nos ensinou vezes sem conta que nada pode substituir o testemunho de vida do Pastor; e hoje talvez mais do que nunca, visto que os homens são particularmente sensíveis à autenticidade e à coerência.

Ao terminar o nosso encontro, sirva-nos de encorajamento este episódio da vida de Jesus com os apóstolos. Ele está connosco; enche-nos de confiança e gratidão: “Sou Eu, não temais!”. São palavras que o Senhor continua dizendo agora; e que não cessa de repetir quando as nossas forças fraquejam. Ele está connosco na barca e, ao pedir-nos o esforço de remar, dá-nos a segurança de que a barca não se afundará, porque Ele está presente com todo o Seu poder. N’Ele e só n’Ele havemos de colocar a nossa fé e a nossa esperança, a exemplo da Virgem, Mãe de Deus e Mãe dos homens, a quem encomendo os vossos trabalhos e os vossos fiéis, para que, através do vosso ministério, o Paráclito conduza a Igreja e a congregue nessa comunhão que deriva da própria unidade da Santíssima Trindade.  

 

© Copyright 1991 - Libreria Editrice Vaticana

 

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