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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO NOVO EMBAIXADOR DO BRASIL JUNTO DA
SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS ECLESIAIS*
Sábado, 11 de Novembro de 1995
Senhor Embaixador
1. É com muita satisfação que lhe dou as boas-vindas, no momento em que tenho o
prazer de acolher Vossa Excelência aqui no Vaticano, no ato da apresentação das
Cartas Credenciais como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da
República Federativa do Brasil junto da Santa Sé. Desejo assegurar-lhe que
sempre terá aqui as portas e o coração abertos para o ajudar no cumprimento da
sua alta missão de cuidar e fomentar as frutuosas relações existentes entre a
Santa Sé e o seu País. Far-se-á todo o possível para que a sua missão seja
fecunda e a sua estada, na Cidade Eterna, feliz.
Inicialmente, desejo agradecer vivamente as amáveis palavras que me dirigiu. De
modo especial, agradeço os pensamentos deferentes e augúrios do Senhor
Presidente da República, de que Vossa Excelência é portador. Peço-lhe a fineza
de retribuir a saudação, de minha parte, com os melhores votos de todo o bem.
2. Referiu-se o Senhor Embaixador, no seu discurso, às importantes
transformações havidas após o plano de estabilização econômica do Presidente
Fernando Henrique Cardoso, e aos desafios e esperanças que geraram passado,
praticamente, um ano de mandato presidencial. Estou certo que dentro da ampla
panorâmica, feita por Vossa Excelência, das exigências para que o País encete
pela estrada de um progresso amplo e difuso por todas as camadas sociais, com a
boa vontade e o consenso alcançado pelas lideranças de todos os segmentos da
sociedade brasileira, se possa chegar, em clima de paz e de harmonia, àquela
consolidação dos valores integrais do homem no respeito da sua dignidade,
especialmente da vida do nascituro, desde a sua concepção até o seu termo
natural, na promoção das bases fundamentais da família – célula da sociedade –
na distribuição justa e racional da riqueza, na preservação das condições do
meio ambiente em vista de um bem-estar crescente, orientado já para o Brasil do
ano 2000.
3. Quanto Vossa Excelência afirma sobre a Igreja Católica, ou seja, que
desempenhou importante papel inspirador no processo de formação do Brasil como
Nação e que sua doutrina e seus ensinamentos moldaram o essencial do Homem
brasileiro, vem corroborar a minha profunda convicção de que a alma brasileira
continuará a manter-se fiel a seu rico patrimônio religioso, para edificar, de
forma respeitosa e com ânsias de bem, a vida nacional servindo com espírito
cristão ao País.
Digna de menção, sem dúvida, é a paciente e corajosa ação dirigida a elevar o
nível cultural e moral da vossa gente, através de uma tradição mais do que
centenária de instituições religiosas de ensino, e de uma formação cristã do
povo nas dioceses e nas paróquias disseminadas no vasto território nacional. Ao
mesmo tempo, não é possível olvidar a firme determinação do episcopado
brasileiro, na defesa dos pobres e dos humildes – os mais desprotegidos da
sociedade – que têm o direito a aspirar por uma vida melhor e mais digna. Esta,
que tem sido sempre uma constante na vida e na consciência da Igreja no Brasil,
recebe agora um novo impulso por parte de diversas entidades não governamentais,
que colaboram, não sem inúmeras dificuldades, a uma verdadeira mobilização de
solidariedade cristã, visando aliviar o peso dos sofrimentos de uma vasta camada
da sociedade. Por este motivo, dou graças a Deus pela notícia que Vossa
Excelência quis participar-me do programa “Comunidade solidária”.
4. Olhando para o panorama do Continente latino-americano e o novo plano de
integração econômica e social que se propõe efetivar, não resta dúvida quanto ao
papel de relevo que o Brasil assume, e assumirá sempre mais, no momento em que
estiver definitivamente implementado o Mercado Comum do Cone Sul. Neste sentido,
seu papel no concerto das nações do Hemisfério Sul poderá ser de importância
preponderante, na medida em que saberá exercer sabiamente o propósito de
promover “os comportamentos e as concretas iniciativas de solidariedade que são
capazes de elevar os relacionamentos entre as nações” naquele mesmo espírito,
que recentemente tive ocasião de explicar na Sede da Organização das Nações
Unidas. Desta forma, para além da integração econômica, fazse necessário
enfrentar os desafios que dela se derivam: o intercâmbio social, migratório,
cultural e assistencial, que apelam a uma generosa disponibilidade para
colaborar, com engenho criativo, no auxílio das populações, especialmente as
mais carentes. Aqui vão, portanto, meus sinceros auspícios de que sejam criadas
condições de uma fraternidade supranacional e de um entendimento mútuo,
preconizador da paz em todo o Continente.
Senhor Embaixador: a Igreja Católica, como saberá, não tem outro objetivo senão
o espiritual-religioso; não busca qualquer outro interesse a não ser o da
edificação do Reino de Cristo: “reino de verdade e de vida, reino de santidade e
de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. Os anseios que animam a vida da
comunidade católica procuraram estar sempre baseados nos princípios inspiradores
de sua identidade, de suas virtudes tradicionais e das próprias instituições.
Neste sentido, a Igreja que está no Brasil reafirmará sempre, dentro da sua
missão própria e em todas as iniciativas, o empenho em servir a causa do “homem
todo e de todos os homens”. Desta forma, prosseguirá no esforço em promover a
consciência de que os valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da defesa
dos mais necessitados devem inspirar a vida privada e pública. A fé e a adesão a
Jesus Cristo impõem aos fiéis católicos, também no Brasil, tornarem-se
instrumentos de reconciliação e de fraternidade, na verdade, na justiça e no
amor.
Antes de concluir este encontro, reitero o pedido de transmitir ao Senhor
Presidente da República os meus melhores votos. E quero dizer a Vossa Excelência
que pode contar com a estima, boa acolhida e apoio desta Sé Apostólica, no
desempenho de suas altas funções, que lhe desejo feliz e fecundo de frutos e
alegrias.
Permiti-me, enfim, dirigir meus pensamentos para todos os Brasileiros e para
quantos conduzem os seus destinos. A todos desejo muitas felicidades, em
crescente progresso e prosperidade. Faço votos de que o Brasil possa contribuir,
neste limiar do terceiro milênio, ao clima de estreitamento das relações
cordiais e de sincera cooperação no Continente latino-americano, o Continente da
Esperança. Estou certo de que Vossa Excelência se fará intérprete destes meus
sentimentos e esperanças. E, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, imploro
para a sua pessoa, para seu mandato e para seus familiares, bem como para todos
os amados filhos da nobre Nação brasileira, abundantes bênçãos de Deus
Todo-Poderoso.
*Insegnamenti di Giovanni Paolo II, vol. XVIII, 2 p.1066-1069.
L’Osservatore Romano 12.11.1995 p.4.
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