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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS BISPOS DA CONFERÊNCIA DOS BISPOS DO BRASIL
DOS REGIONAIS NORDESTE 1 E 4
EM VISITA « AD LIMINA APOSTOLORUM »

Terça-feira, 5 de Setembro de 1995

 

Prezados Irmãos no Episcopado,

1. Aguardei com viva esperança este encontro convosco, Bispos dos Regionais Nordeste 1 e 4, por ocasião da vossa visita ad Limina, e vos saúdo com palavras de São Paulo: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”! (2 Cor 13, 13) Ao vos dar as boas-vindas, incluo o clero, os religiosos, as religiosas e os fiéis leigos das Províncias Eclesiásticas de Fortaleza e de Teresina. Agradeço de coração as delicadas palavras do Senhor Cardeal Arcebispo D. Aloísio Lorscheider que, em vossa representação, traçou com competência o quadro sereno e cheio de esperanças da vida das vossas Dioceses.

O nosso encontro manifesta a profunda comunhão espiritual e visível que existe entre as vossas Igrejas particulares e a Igreja universal, uma comunhão que deriva do fato de termos sido “enxertados” em Cristo (cf. Rm 11, 17 ss.). Nós devemos dirigir-nos constantemente para Aquele que é o Supremo Pastor (cf. 1 Pd 5, 4), a fim de tomarmos conhecimento da “insondável riqueza”(Ef 3, 8), com que Ele nos investiu para a edificação da Esposa Imaculada (cf. Ap 19, 7). É a ela que Ele se une mediante uma aliança inquebrantável, e é dela que Ele cuida e nutre (cf. Ef 5, 29) (cf. Constituição dogmática Lumen Gentium, 6). A nossa segurança e esperança reside n’Ele e no poder salvífico do seu Evangelho (cf. Rm 1, 16).

Ao dardes prosseguimento às visitas ad Limina dos vossos irmãos do Episcopado brasileiro, a vossa presença aqui traz ao vivo a lembrança não só da vastidão das vossas Dioceses, mas também os inúmeros desafios para o anúncio do Evangelho, que foram ressaltados pelas “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil”, na reunião deste ano da vossa Conferência Episcopal. Precisamente, nos encontros anteriores com os representantes das Províncias Eclesiásticas do Paraná e de São Paulo, tive a oportunidade de refletir acerca de alguns aspectos do seu cuidado pastoral pela Igreja, e encorajei-os a serem sentinelas vigilantes da verdade, pastores que proclamam a verdade de Cristo e da Igreja, promotores da renovação espiritual que se faz sentir necessária em todos os âmbitos das vossas Igrejas particulares (cf. Visita ad Limina dos Bispos do Brasil, Regional-Sul 2, 17 de fevereiro de 1995 e Visita ad Limina dos Bispos do Brasil, Regional-Sul 1, 21 de março de 1995) . Hoje, o nosso pensamento dirige-se para alguns dos outros aspectos do vosso ministério.

2. “Que todos sejam um... como Nós somos um”(Jo 17, 21-22).

Com estas palavras do Apóstolo e Evangelista S. João, desejo reunir-me convosco com o fim principal de encorajar a fé dos nossos irmãos das Comunidades Diocesanas, de que sois pastores, para que se tornem sempre mais realidade aquelas solenes palavras “que todos sejam um, assim como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste”(Jo 17, 21). .

Em diversas ocasiões a Providência permitiu-me insistir naquela conclusão básica do Concílio Vaticano II, segundo a qual é “decisão da Igreja assumir a tarefa ecumênica em prol da unidade dos cristãos e de a propor convicta e vigorosamente”(cf. Decreto sobre o ecumenismo Unitatis Redintegratio, 1), Tem sido, por sinal, marco indelével do meu Pontificado que, como recordarão, quis deixar patente na minha última viagem ao Brasil (cf. Encontro Ecumênico em Florianópolis, 18 de outubro de 1991).

Já tive ocasião de comentar, mesmo recentemente, que “não se trata de modificar o depósito da fé, de mudar o significado dos dogmas, de banir deles palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de uma época, de eliminar certos artigos do Credo com o falso pretexto de que hoje já não se compreendem. A unidade querida por Deus só se pode realizar na adesão comum ao conteúdo integral da fé revelada” (Carta encíclica Ut unum sint, 18). Falando aos representantes do mundo da cultura em Salvador na Bahia, eu lembrava que “a inculturação do Evangelho não é uma adaptação mais ou menos oportuna aos valores da cultura ambiente, mas uma verdadeira encarnação nesta cultura para purificá-la e redimi-la”(Discurso aos Representantes do Mundo da Cultura em Salvador, Bahia, 20 de outubro de 1991).

O mesmo vale no campo ecumênico. Com efeito, no campo da inculturação como do ecumenismo, nota-se uma certa facilidade com que a busca do entendimento, do acolhimento ou da simpatia com outros grupos ou confissões religiosas tem levado a sérias mutilações na expressão clara do mistério da fé católica, na oração litúrgica, ou a concessões indevidas quanto às exigências objetivas da moral católica. Ecumenismo não é irenismo (cf. Unitatis Redintegratio, 4,11). Não se trata de buscar a unidade a qualquer preço. O diálogo ecumênico deve ser alimentado pela oração – definida pelo Concílio Vaticano II –, como a alma de todo movimento ecumênico. Este diálogo, que somente tem sentido se for uma busca sincera da verdade, poderá nos pedir que deixemos de lado elementos secundários que poderiam constituir um obstáculo de ordem psicológica para nossos irmãos de distintas denominações religiosas. Mas nunca será verdadeiro, autêntico, se implicar na mais mínima mutilação duma verdade da fé, no abandono da legítima expressão da piedade tradicional do povo cristão ou no enfraquecimento das exigências de séculos da disciplina eclesiástica ou das veneráveis tradições litúrgicas do Oriente, da Igreja Romana e outras Igrejas do Ocidente. De resto, “hoje sabemos que a unidade pode ser realizada pelo amor de Deus, somente se as Igrejas o quiserem juntas, no pleno respeito das várias tradições e da necessária autonomia”(Carta Apostólica Orientalem lumen, 20).

Em contrapartida, para um exercício fecundo de um autêntico ecumenismo, faz-se necessária uma adequada formação ecumênica e estruturas pastorais – como as comissões ecumênicas – que colaborem para a promoção da plena unidade. O “Diretório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o ecumenismo”, publicado em 1993, dá indicações precisas aplicáveis às distintas situações.

3. Na área latino-americana esta necessidade do diálogo ecumênico tem-se tornado urgente, ao deparar-nos com o grave problema das seitas que se expandem, como uma mancha de óleo, ameaçando fazer ruir a estrutura de fé de tantas nações.

Como é lógico, não me refiro neste momento àquelas outras Igrejas e Comunidades cristãs detentoras de uma base objetiva, mesmo que imperfeita, de comunhão com a Igreja Católica; estas, como declarou o Concílio Vaticano II, possuem “elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica”(Constituição dogmática Lumen Gentium, 8). Mais ainda: precisamente porque “a "fraternidade universal" dos cristãos tornou-se uma firme convicção ecumênica” (Ut unum sint, 42), devemos viver, estimular e confirmar nossa fé em busca da unidade de todos os cristãos.

Certamente a expansão das seitas “constitui uma ameaça para a Igreja Católica e para todas as Comunidades eclesiais com quem ela mantém diálogo”(Redemptoris Missio, 50).

Com toda razão o Episcopado latino-americano, reunido em Santo Domingo, apresentou em cores vivas o desafio pastoral que hoje são as seitas em toda a América Latina. O Documento Final descreveu com clareza e precisão estas seitas e movimentos, mostrou suas características e modos de atuar, deixou claro os interesses políticos e econômicos envolvidos na sua expansão em todo o Continente e apontou os desafios pastorais e os caminhos possíveis para a vossa atuação neste campo (cf. Conclusões da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, nn. 139-152).

Não é agora minha intenção repetir o que todos conheceis tão bem. É notória a intenção, por vezes virulenta, destas seitas de minar as bases da fé do povo, de modo especial no que diz respeito ao culto do Mistério Eucarístico e da Santíssima Virgem, à estrutura hierárquica da Igreja e ao primado de Pedro, que perdura no pastoreio universal do Bispo de Roma, e às expressões da piedade popular. Está claro, também, que o êxito de seu trabalho pode ser explicado pela carência de conhecimentos religiosos do povo, devida, em boa parte, à perda da vivência religiosa que cultivava nas pequenas cidades do interior, mas que enfraqueceu quando migrou para a periferia das grandes cidades, num processo quase sempre doloroso de desenraizamento cultural.

4. Não se trata de uma atitude pessimista face à situação reinante: a Igreja Católica, a Esposa Imaculada de Cristo, leva em si a garantia da perenidade que o próprio Senhor lhe assegurou (cf. Mt 28, 19); porém, mesmo sabendo possuir, por vontade expressa de Deus, a “plenitude dos meios de salvação”, ou seja, “todos os instrumentos da graça, os seus membros não vivem com todo aquele fervor (Unitatis Redintegratio, 3-4).  que seria conveniente”. Estou certo de que esta afirmação conciliar não lhes soará como um simples eufemismo à hora de se encararem com a realidade quotidiana do vosso povo, tão afeto para a transcendência e para os valores cristãos da piedade e da fraternidade. Mais que pela fria estatística levada pelo movimento pendular de um vai-e-vem de dados, muitas vezes contraditórios entre si, sobre o número dos fiéis praticantes, deveríamos apropriar-nos daquela questão feita na Relação Final do Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985: “A difusão das seitas não nos interroga se tem sido manifestado suficientemente o senso do sagrado?”(Sínodo Extraordinário dos Bispos, 1985, Relatório Final II, A. 1).

Preocupa-vos, e não sem razão, o panorama de carência doutrinária e de ignorância religiosa que deixa o vosso povo à mercê das influências perniciosas de um ambiente onde reina o permissivismo moral, que o torna extremamente vulnerável à sedução das seitas e dos novos grupos religiosos, especialmente quando estes adotam normas exigentes de marcada rigidez disciplinar. O mesmo clima de relativismo moral, que com extrema facilidade é divulgado através dos meios de comunicação social, põe “o homem contemporâneo sob a ameaça de um eclipse da consciência” de graves proporções (Angelus Domini, 14 de março de 1982), haja visto o clima rarefeito que o divórcio, as uniões ilícitas e outras deformações, acarretam na vida familiar (cf. Gaudium et Spes, n. 17). Por isso, volto a insistir que “urge recuperar e repropor o verdadeiro rosto da fé cristã, que não é simplesmente um conjunto de proposições a serem acolhidas e ratificadas com a mente. Trata-se, antes, de um conhecimento existencial de Cristo, uma memória viva dos seus mandamentos, uma verdade a ser vivida” (Veritatis Splendor, 88). Nesta tarefa, vos cabe um empenho insubstituível: a grande responsabilidade que vos incumbe de serdes “Mestres na fé”. O ensinamento e a mesma divulgação do Catecismo da Igreja Católica, mais não pretende senão conservar cuidadosamente a unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica.

5. Porém, algumas camadas sociais são mais vulneráveis. Por um lado, existe a tendência a fazer crer em soluções fáceis aos problemas existenciais, bastando um pensamento positivo para apaziguar os conflitos gerados pela dor e pela morte, esquecendo-se que o sofrimento humano não pode ser separado do pecado original, nem do “pano de fundo pecaminoso das ações pessoais e dos processos sociais na história do homem”(Salvifici Doloris, 15). Por outro, há os que esperam uma resposta imediata e simples às suas necessidades inclusive materiais. A busca da saúde a qualquer preço, sem uma garantia de validade dos métodos, é um incentivo à adesão a algumas denominações pseudo-religiosas.

Preocupa, neste sentido, o fácil aliciamento de novos adeptos, que mesmo submetidos à pressão psicológica de sustentar sua seita com obrigações financeiras que vão além das próprias possibilidades, aceitam-nas passivamente com a condição de conseguir um alívio para os seus males, recebendo promessas tão descabidas quanto temerárias, de cura, ou mesmo de salvação, contrárias aos planos de Deus. As seitas causam sérios prejuízos religiosos aos seus seguidores.

Não se trata somente de abandonar as suas crenças. Passado o entusiasmo das curas fictícias, verifica-se que nem sempre retornam à fé e abraçam o indiferentismo. Mais ainda, o indiferentismo religioso gera a incoerência nos princípios, a ponto de fazer acreditar, falsamente, que é possível manter o nexo íntimo e vivo com a Igreja, com o seu mistério, a sua vida e missão, conservando intacta a própria fé – nela incluída a piedade litúrgica e sacramental, o dogma e a moral cristã – e frequentar outros cultos e denominações religiosas. Deste modo, pretende-se receber os sacramentos mesmo participando e até contribuindo financeiramente à sustentação de “igrejas”, cultos ou instituições filantrópicas, que pregam, por exemplo, a reencarnação.

Mas donde provém, em última análise, esta cisão interior do homem? Dito de outro modo, o que falta na evangelização para assegurar a fidelidade do Povo de Deus, a caminho da Pátria definitiva?

6. Estou certo que concordareis comigo quanto à existência de algumas lacunas no processo evangelizador das vossas Igrejas, de resto enfatizadas este ano em Itaici pelo Episcopado brasileiro com a chancela de urgência, ao propor dar nova vida às diversas formas de celebração litúrgica e de comunicação da Palavra, incentivando a conservação da qualidade pastoral das celebrações dos sacramentos (cf. Diretrizes gerais, n. 257).

É precisamente na esteira destas linhas de ação que convém remarcar, por um lado, a perda da visibilidade de vossas comunidades e agentes; por outro, a existência de falhas no relacionamento humano e no acolhimento das pessoas; enfim, como não acentuar uma certa timidez e inércia no processo de evangelização do povo?

Em que poderia consistir a falta de visibilidade de vossas comunidades e ministros?

Todos sabemos que vivemos hoje num mundo onde é tão importante a comunicação pela imagem. Os sinais externos da vida cristã, sobretudo os mais tradicionais, possuem, hoje como ontem, um grande apelo para o vosso povo, gente simples cuja base cultural foi tão profundamente marcada pela fé católica nestes quatro séculos de evangelização do Brasil.

Numa das minhas Viagens Pastorais à vossa terra – dentre as quais não posso deixar de recordar o amado povo piauiense e cearense – lembro ainda que quis agradecer ao Todo-Poderoso ter enraizado tão profundamente no coração do Povo de Deus deste País, a cruz, a Eucaristia e a “Aparecida” (cf. Abertura do X Congresso Eucarístico Nacional, Fortaleza, 9 de julho de 1980).

Compreende-se então como o brasileiro gosta dos sinais exteriores da fé! Ele quer ver as Igrejas com as suas características religiosas, com as expressões autênticas da arte sacra que despertam a piedade e levam à oração, ao recolhimento e à contemplação do mistério de Deus. Ele quer ouvir com alegria bater os sinos de vossas Igrejas convocando-o para as celebrações litúrgicas ou convidando-o para as orações do dia ou da tarde em louvor da Virgem Maria! Um sino que toca - e tantos o emudeceram! – leva a muitos ouvidos um sinal de vitalidade eclesial. Ele quer sentir nas músicas de vossas Igrejas o apelo ao louvor de Deus, à ação de graças, à prece humilde e confiante e se sente desconfortável quando esses cantos em sua letra envolvem uma mensagem política ou puramente terrena, e em sua expressão musical não apresentam a característica de música religiosa, mas são marcadamente profanos no ritmo, na linha melódica e nos instrumentos musicais de acompanhamento. Vosso povo se sente feliz com a beleza e a dignidade do culto litúrgico, sem pompa e ostentação, mas digno, piedoso, que esteja realmente unido à ação litúrgica, em sintonia com quanto definiu o Concílio Vaticano II: “quer como expressão delicada de oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas”(Sacrosanctum Concilium, 112).

Procurai dar um clima de piedade e dignidade às celebrações litúrgicas, sabendo fazê-las alegres nos momentos devidos e sempre espiritualmente confortadoras. O ministério da Palavra, que está intimamente ligado à Liturgia Eucarística (cf. Sacrosanctum Concilium, 56), contenha sempre, do início ao fim, uma mensagem espiritual. É certo que há tanta gente que não possui o suficiente para acalmar a própria fome, mas, ordinariamente, o povo tem mais fome de Deus que do pão material, pois entende que “não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”(Mt 4, 4). Ver a Igreja como Igreja, e não simples promotora da reforma social. Este é um dever que promana da Fé e não prévia exigência para uma posterior pregação do Evangelho. Assim, e não distintamente, pode-se entender aquelas palavras do Concílio Vaticano II: “É tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual”(Dei Verbum, 21).

Vosso povo, caríssimos irmãos no episcopado, quer ver os padres como verdadeiros Ministros de Deus, inclusive na sua veste e no seu modo externo de proceder. Ele quer ver o homem de Deus nos ministros de sua Igreja, uma presença que lhes inspire amor, respeito, confiança. O povo tem direito e isso pode exigi-lo de seus pastores. O que os homens querem, o que esperam é que o sacerdote com o seu testemunho de vida e com sua palavra, lhes fale de Deus. O caráter conferido pelo sacramento da Ordem, permite que o sacerdote atue “em nome de Cristo cabeça” (Presbyterorum Ordinis, 2), participando da autoridade com que Cristo governa a sua Igreja; por outro lado, o ministro sagrado é chamado a exercer o “poder da Ordem para oferecer o Sacrifício, perdoar os pecados e exercer publicamente o ofício sacerdotal  (Presbyterorum Ordinis, 3) em nome de Cristo a favor dos homens”. Por isso, convém que ambas as notas do sacerdócio ministerial conservem sempre seu justo apreço, tendo em vista que “numa sociedade secularizada e de tendência materialista... sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero – homem de Deus dispensador dos Seus mistérios – seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor de um ministério público”(Diretório para o Ministério e a vida dos Presbíteros, n. 66).

7. Cabe agora considerar um outro aspecto, de não menor importância. Trata-se do relacionamento das pessoas e do modo de acolhimento no seio de vossas comunidades. A Igreja é a casa do Pai. O vínculo maior de união dos membros da Igreja é o amor, o amor de Deus que se desdobra no amor ao próximo. Foi precisamente este amor fraterno que deu uma enorme capacidade evangelizadora às comunidades primitivas da Igreja através de seu testemunho de vida em comum.

O que vale para todos os povos, tem uma importância fundamental para vosso povo. Ele é antes de tudo cordial. Ele, na sua carência afetiva, necessita sentir-se querido e acolhido. O povo é muito sensível ao ambiente em que se encontra. Ele espera ver alegria, simplicidade e calor humano. O ser católico, por maior razão, diante do surgimento das seitas, requer uma atitude de caridade: “caridade para com o interlocutor, humildade para com a verdade que se descobre e que poderia exigir revisão de afirmações e de atitudes”(Ut unum sint, 36). Não se trata de recorrer a ataques pessoais, ou assumir posições contrárias ao espírito do Evangelho. Poderia servir de experiência o que foi proposto como lema pastoral numa das vossas Dioceses: “Acolher para evangelizar”.

Importa dar atenção pessoal a quem procura a Igreja, manter-se disponíveis, como sinal de consideração, escuta e abrigo a necessitados de amparo espiritual. Sem dúvida, vosso trabalho evangelizador teria um grande crescimento, se em vossas comunidades fosse incentivado aquilo que oportunamente definis como “ministério da acolhida” das pessoas, facilitando o atendimento, e exigindo dos padres e de seus colaboradores uma atitude serena e cordial.

8. Finalmente, onde encontraríamos a falta de ardor e de iniciativa no anúncio evangélico?

A evangelização a que a Igreja está sendo chamada neste final de milênio deve ser, como tantas vezes tenho repetido, nova em seu ardor, seus métodos e sua expressão. Este ardor, como falei em Santo Domingo, “supõe uma fé sólida, uma intensa caridade pastoral e uma fidelidade robusta que, sob a ação do Espírito, gerem uma mística, um entusiasmo incontido no trabalho de anunciar o Evangelho. Na expressão do Novo Testamento, é a "parresia" que inflama o coração do apóstolo”(Abertura da IV Conferência do Episcopado Latino-Americano, 12 de outubro de 1992).

Chama a atenção o proselitismo a qualquer custo, o entusiasmo dos agentes das seitas e de alguns movimentos pseudo-espirituais. Não estaria havendo uma certa acomodação deixando de ir em busca das ovelhas que estão afastadas? Ao contrário da parábola evangélica, não é uma e outra que está tresmalhada, mas é uma parte do rebanho.

Por isso, quis salientar no 25º aniversário do Decreto Conciliar “Ad Gentes”, que o “anúncio tem a prioridade permanente na missão... Na realidade complexa da missão, o primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível, porque introduz "no mistério do amor de Deus, que, em Cristo, nos chama a uma estreita relação pessoal com Ele" e predispõe a vida para a conversão” (Redemptoris Missio, 44). Precisamente porque “o amor de Cristo nos constrange” (2 Cor 5, 14) a “missão é um problema de fé, é a medida exata da nossa fé em Cristo e no Seu amor por nós” (Redemptoris Missio, 11).

Isso mostra, caríssimos irmãos, que não basta chamar, convocar e esperar que as pessoas venham. Como diz outro lema da ação pastoral de uma das vossas Dioceses, deveis ser “uma Igreja que vai ao encontro do Povo”! Deveis ser uma Igreja que procure as pessoas, que as convide não somente no chamado geral dos meios de comunicação, mas no convite pessoal, de casa em casa, de rua em rua, num trabalho permanente, respeitoso mas presente em todos os lugares e ambientes.

Para isso é importante contar com a generosidade dos fiéis leigos. Refiro-me, de modo especial, àqueles que procuram viver de modo mais intenso a sua consagração batismal quer pessoalmente, quer nas tradicionais associações religiosas ou nos novos movimentos leigos que, sob a ação do Espírito Santo, vão surgindo na Igreja. Contai, respeitai o seu caminho espiritual mas não deixeis de convocá-los para o trabalho evangelizador.

9. A vossa tarefa é um desafio missionário: preparar a Igreja do terceiro milênio, retomando a iniciativa da nova evangelização mediante esforços redobrados. À luz do mandamento do amor, venerados irmãos no episcopado, sede apóstolos intrépidos da verdade e construtores de uma comunidade fraterna, permanecendo na escuta d’Aquele que vos consagrou (cf. Is 61, 1), a fim de testemunhardes com misericórdia a benevolência divina para convosco.

O Espírito do Redentor, que vos guiou até agora, não vos deixará sozinhos perante estes desafios. A vossa visita ad Limina felizmente salienta a vossa união com o Bispo de Roma e a vossa pertença ao Colégio Episcopal: oxalá isto vos sirva de apoio!

Queria pedir-vos que transmitísseis os meus encorajamentos afetuosos a todos os servidores do Evangelho das vossas Dioceses: aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, aos leigos que assumem responsabilidades e desempenham muitas tarefas em benefício da Comunidade, assim como a todos os fiéis.

Confio à Virgem Mãe, Nossa Senhora Aparecida, os projetos, as esperanças e as dificuldades da hora atual da Nação. Nesta perspectiva, invoco a Bênção do Senhor sobre vós, sobre os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e os leigos desta Terra da Santa Cruz que me é muito querida.

© Copyright 1995 - Libreria Editrice Vaticana

 

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