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VIAGEM APOSTÓLICA À SARAJEVO
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO ENCONTRO COM OS
MEMBROS DA PRESIDÊNCIA DA BÓSNIA-HERZEGÓVINA
Senhores Membros da Presidência da Bósnia-Herzegovina
1. Agradeço vivamente as
Vossas Excelências o amável acolhimento e as cordiais expressões que o Senhor
Presidente da República me reservou, em nome de todos. Apresento-vos, bem como
às vossas famílias, a minha deferente saudação, que torno extensiva às
Autoridades aqui presentes e a quantos, a vários títulos, ocupam lugares de
responsabilidade civil e militar na obra quotidiana de consolidação da paz e da
convivência civil na Bósnia-Herzegovina.
Nesta região, desde há séculos se têm encontrado e, não raro, confrontado, o
Oriente e o Ocidente. Desde há muito tempo se tem experimentado a possibilidade
da convivência entre culturas diversas que enriqueceram — cada uma à sua maneira
— de valores a região. Na
Bósnia-Herzegovina convivem os povos dos eslavos do Sul, unidos na linhagem e
contudo divididos pela história. Nesta cidade capital, por exemplo, elevam-se a
catedral católica, a catedral ortodoxa, a mesquita muçulmana e a sinagoga
judaica. Estes quatro edifícios
não constituem apenas o lugar em que os crentes no único Deus confessam a
própria fé; são também um sinal visível para o género de sociedade civil que os
homens desta região desejam edificar: uma sociedade de paz, cujos membros
reconhecem Deus como único Senhor e Pai de todos.
As tensões, que podem criar-se
entre os indivíduos e as etnias como herança do passado e consequência da
proximidade e da diversidade, devem encontrar nos valores da religião motivos de
moderação e restrição, melhor ainda, de entendimentos que tenham em vista uma
cooperação construtiva.
2. Tive ocasião de afirmar — e repito-o hoje aqui — que
Sarajevo, cidade-encruzilhada de tensões de culturas, religiões e povos
diversos, pode considerar-se como a cidade-símbolo do nosso século. Precisamente
aqui teve início em 1914 a primeira guerra mundial; aqui desencadeou-se com
intensidade a violência da segunda guerra mundial; enfim, aqui, na fase
conclusiva do século, a população experimentou, entre destruições e mortes,
intermináveis anos de temor e angústia.
Agora, depois de tanto sofrimento, a Bósnia-Herzegovina finalmente se comprometeu em construir a paz. Empreendimento
não fácil, como a experiência dos meses transcorridos desde o fim do
conflito tem demonstrado. Todavia, com o concurso da Comunidade internacional, a
paz é possível, melhor, a paz é necessária. Numa perspectiva histórica, Sarajevo
e toda a Bósnia-Herzegovina, se consolidarem na paz a própria estrutura
institucional, no termo deste século poderão tornar-se um exemplo de convivência
na diversidade para muitas nações que experimentam esta dificuldade, na Europa e
noutras partes do mundo.
3. O método a que é necessário ater-se rigorosamente na
solução dos problemas que surgem ao longo do caminho árduo é o do diálogo,
inspirado na escuta do próximo e no respeito recíproco. Com efeito, o método do
diálogo que, apesar das resistências, se tem afirmado cada vez mais, exige de
quantos nele participam lealdade, coragem, paciência e perseverança. O esforço
do encontro directo será recompensado de modo generoso. Lentamente, poderão
curar-se as feridas causadas pela recente terrível guerra, e criar-se espaço
para a esperança concreta de um futuro mais digno para todas as populações que
vivem juntas neste território.
O diálogo deverá desenvolver-se no respeito da
igualdade dos direitos, salvaguardada a cada um dos cidadãos mediante adequados
instrumentos legais, sem preferências nem discriminações. É necessário
empenhar-se urgentemente para que a todos seja assegurado o trabalho, fonte de
retomada e de desenvolvimento, no respeito da dignidade da pessoa; para que os prófugos e os refugiados, de qualquer parte da Bósnia- Herzegovina, possam
usufruir do direito de recuperar as casas que tiveram de abandonar na tempestade
do conflito.
É preciso garantir a igualdade de direitos às comunidades
étnico-religiosas. A Bósnia-Herzegovina é um mosaico de culturas, religiões e
etnias que, se forem reconhecidas e tuteladas na sua diversidade,
podem contribuir com os respectivos dons para enriquecer o único património da
sociedade civil.
4. Construir uma paz verdadeira e duradoura é uma grande tarefa
confiada ao compromisso de todos. Certamente, muito depende das pessoas que têm
responsabilidades públicas. Contudo, os destinos da paz, embora sejam em grande
parte confiados às fórmulas institucionais, que devem ser eficazmente elaboradas
no diálogo sincero e no respeito da justiça, dependem em medida não menos
decisiva de uma renovada solidariedade das mentes e dos corações. É esta
disposição interior que se deve cultivar tanto dentro dos confins da Bósnia-Herzegovina como nas relações com os Estados limítrofes e com as Comunidades das
Nações. Todavia, uma atitude deste género não pode afirmar-se senão com base no
perdão. Para ser estável, contra o pano de fundo de tanto sangue e ódio, o
edifício da paz deverá fundamentar- se na coragem do perdão. É necessário saber
pedir perdão e perdoar!
Senhores Presidentes, ao confiar a Vossas Excelências
estas considerações, desejo consigná-las também às outras Autoridades de todos
os níveis e âmbitos, a fim de que se consolide a esperança de um fortalecimento
constante da paz arduamente conquistada, e se realize um futuro cada vez mais
sereno e profícuo para cada habitante desta amada Bósnia-Herzegovina. Apesar das
dificuldades, dos obstáculos e das resistências, a esperança jamais venha
a esmorecer! Deus não abandona os pacificadores.
A Ele, omnipotente Senhor do
universo, peço que dê a todos a Sua consolação, fortaleça nos corações generosos
propósitos de diálogo sincero, de genuína compreensão e de compromisso comum em
favor da reconstrução e da paz.
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