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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
 AO CONGRESSO EUROPEU SOBRE AS VOCAÇÕES

29 de Abril de 1997

 

Caríssimos participantes
no Congresso Europeu sobre as Vocações
!

1. É-me grato dirigir-vos a minha saudação de bons votos no início dos trabalhos sobre o tema empenhativo: «Novas Vocações para uma nova Europa». O Congresso, precedido por uma preparação cuidadosa, que envolveu muitas pessoas dedicadas à pastoral das vocações, constitui um grande sinal de esperança para as Igrejas do continente europeu e conflui providencialmente para aquele grande rio de experiências de fé, que recordam à Europa as suas raízes cristãs e às Igrejas a missão de anunciar Jesus Cristo às gerações do terceiro milénio.

A próvida iniciativa tem em vista chamar a atenção para a pastoral vocacional, reconhecendo nela um problema vital para o futuro da fé cristã no continente e, como reflexo, para o progresso espiritual dos próprios povos europeus. Não se trata de um aspecto sectorial ou marginal da experiência eclesial, mas sim do próprio modo de viver a fé em Jesus Cristo, único Projecto capaz de satisfazer as aspirações mais profundas do coração humano.

2. A vida tem uma estrutura essencialmente vocacional. O projecto que lhe diz respeito, com efeito, aprofunda as raízes no centro do mistério de Deus: «Foi assim que n’Ele — em Cristo — Deus nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e imaculados diante dos Seus olhos» (Ef. 1, 4).

A inteira existência humana, portanto, é resposta a Deus, que faz sentir o Seu amor sobretudo nalguns momentos: o chamamento à vida; o ingresso na comunhão de graça da Sua Igreja; o convite a dar na Comunidade eclesial o próprio testemunho de Cristo, segundo um projecto inteiramente pessoal e irrepetível; a convocação à comunhão definitiva com Ele na hora da morte.

Não há dúvida, portanto, de que o empenho da Comunidade eclesial na pastoral vocacional é um dos mais graves e urgentes. Com efeito, cada baptizado deve ser ajudado a descobrir o chamamento que, no projecto de Deus, lhe é dirigido e a tornar-se-lhe disponível. Será assim mais fácil, a quem é destinatário duma vocação particular ao serviço do Reino, reconhecer o seu valor e aceitá-la com generosidade. Não se trata, com efeito, de educar as pessoas para fazerem alguma coisa, mas antes para darem uma orientação radical à própria existência e a fazerem opções que  decidem  para  sempre  do  próprio futuro.

3. Nessa perspectiva, esse Congresso sobre as vocações ao Sacerdócio e à Vida consagrada na Europa constitui um acto de fé na acção eficaz e constante de Deus; um acto de esperança no futuro da Igreja na Europa; um gesto de amor para com o povo de Deus do «antigo continente», necessitado de pessoas plenamente dedicadas ao anúncio do Evangelho e ao serviço dos irmãos. Vós tendes em vista estabelecer as estratégias oportunas, para ajudar aqueles, que o  Senhor  escolhe  para  este  empenho total,  a  descobrirem  a  própria  vocação e a pronunciarem o seu «sim» sem reservas.

A vossa atenção dirige-se sobretudo aos jovens, para que saibam acolher o convite do Mestre a segui-l’O. Ele olhaos com olhar penetrante, de que fala o Evangelho de Marcos (cf. Mc. 10, 21): um olhar evocativo do mistério de luz e de amor, que envolve e acompanha cada ser humano desde o primeiro instante da sua existência.

São bem conhecidas as dificuldades que hoje tornam difícil a adesão à proposta de Cristo. Entre estas: o consumismo, a visão hedonista da vida, a cultura da evasão, o subjectivismo exasperado, o temor diante dos compromissos definitivos, uma difundida carência de visão projectista.

Como o jovem rico, de que narra o Evangelho (cf. Mc. 10, 22), não poucos rapazes percebem fortes resistências interiores e exteriores diante do apelo de Cristo e, não raro, retiram-se tristes, cedendo aos condicionamentos que os detêm. A tristeza que se abate no rosto do jovem rico é o risco recorrente de quem não sabe decidir-se para o sim ao chamamento; e a tristeza é só o aspecto daquele vazio de valores, que está no mais íntimo do coração e não raro induz, aquele que dele é vítima, a encaminhar-se pelas veredas de alienação, de violência e de niilismo.

O Congresso, todavia, não pode deter-se a examinar as embora evidentes problemáticas, que marcam o mundo juvenil. Ele tem sobretudo a tarefa de indicar às Comunidades cristãs os recursos, as expectativas, os valores presentes nas novas gerações, oferecendo ao mesmo tempo sugestões concretas para a elaboração, com base nessas premissas, de um sério projecto de vida inspirado no Evangelho. Quem ama os jovens não os pode privar desta nova e exaltante possibilidade de vida, à qual Cristo chama a pessoa em vista duma realização mais plena das próprias pontencialidades, como premissa para uma alegria íntima e duradoura. É preciso, portanto, envidar todos os esforços, para que os jovens cheguem a pôr Cristo no centro da sua busca e a seguir docilmente o seu eventual apelo.

4. Ao vosso Congresso grande luz pode vir das palavras do Apóstolo, que delineiam o estatuto teológico de cada Comunidade eclesial: «Há, pois, diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; e há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos» (1 Cor. 12, 4-6). É nesta perspectiva que as Igrejas particulares devem empenhar-se em sustentar o desenvolvimento dos dons e dos carismas, que o Senhor não cessa de suscitar no Seu povo. Gerar no Espírito novas vocações é possível quando a Comunidade cristã é viva e fiel ao seu Senhor. Esta vitalidade profunda pressupõe um forte clima de fé, a oração capilar e assídua, a atenção à qualidade da vida espiritual, o testemunho de comunhão e de estima em relação aos múltiplos dons do Espírito, a paixão missionária ao serviço do Reino de Deus.

Deve-se, portanto, reafirmar que a pastoral vocacional não se pode exaurir em iniciativas ocasionais e extraordinárias, que se justapõem ao caminho normal da Comunidade eclesial. Deve antes constituir uma das preocupações constantes na pastoral da Igreja local. A respeito disso, o próprio ano litúrgico constitui uma escola permanente de fé, graças à qual cada baptizado é convidado a entrar no vivo do mistério de Deus, para se deixar plasmar à Sua imagem e semelhança.

5. Sabe-se como é urgente, hoje, a atenção pastoral à mediação educativa. Antes, uma Igreja particular só pode olhar com confiança para o próprio futuro, se for capaz de efectivar esta atenção pedagógica, provendo de modo constante ao cuidado dos formadores e, primeiros dentre todos, dos presbíteros. O Congresso, portanto, representa um convite a todos os chamados — sacerdotes, consagrados e consagradas — a serem testemunhas alegres no serviço do Reino, bem sabendo que a sua vida é presença sempre significativa ao lado dos jovens: ela encoraja ou desanima, suscita o desejo de Deus, ou então constitui um obstáculo a segui-l’O. A primeira proposta vocacional é oferecida por um testemunho coerente de Cristo ressuscitado.

O Congresso, além disso, quer favorecer o crescimento duma autêntica consciência educativa nos próprios formadores, chamados a uma grave e exaltante responsabilidade ao lado dos jovens: a de os acompanhar na sua busca, suscitando-os a respostas vocacionais generosas, para renovar neste período da Igreja o milagre da santidade, verdadeiro segredo da almejada renovação eclesial.

6. Caríssimos Irmãos e Irmãs! Está diante de vós uma tarefa certamente não fácil, mas a oração incessante, que está a acompanhar este encontro das Igrejas que estão na Europa, alimenta a esperança na promessa de Deus e nas respostas radicais ao Seu chamamento: elas são possíveis também nos nossos dias. É a oração o segredo capaz de garantir o renascer da confiança no interior das Comunidades cristãs. É a oração o apoio constante de quantos são chamados a servir a causa do Evangelho e a promover a pastoral das vocações nestes anos difíceis, mas não desprovidos de claros sinais de uma nova primavera espiritual. A profecia do radicalismo evangélico é um dom, que o Senhor, enfim, não deixará faltar à Sua Igreja no limiar do terceiro milénio.

Maria, modelo de toda a vocação e exemplo transparente de resposta sem reservas ao chamamento de Deus, vos acompanhe no vosso empenho pastoral ao serviço de «novas vocações para uma nova Europa».

Com estes votos, concedo a todos vós uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 29 de Abril de 1997.

 

 

 

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