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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO BISPO DE BÉRGAMO POR OCASIÃO
DO XVII CENTENÁRIO DO MARTÍRIO
DE SANTO ALEXANDRE

 

 

1. Com alegria tomei conhecimento que essa Comunidade diocesana se prepara para recordar o XVII centenário do Martírio de Santo Alexandre. Desejo unir-me espiritualmente às celebrações do «Ano alexandrino», com as quais a Diocese de Bérgamo faz solene memória do seu celeste Padroeiro e dá graças pelos dons com que o Senhor a enriqueceu, desde o início da sua história.

Os testemunhos históricos de Santo Alexandre que nos chegaram, limitam-se quase exclusivamente a confirmar o seu martírio. Contudo, a antiga liturgia do Santo, recordando o simbólico florescimento de rosas e de lírios das gotas do seu sangue e traduzindo com surpreendente eficácia a convicção arraigada nos Padres da Igreja, segundo a qual «o sangue dos mártires é semente de cristãos», convida a considerar a fecundidade daquele gesto de amor, que faz de Santo Alexandre uma «coluna no templo de Deus» (cf. Liturgia das Horas, Comum de um mártir). Com efeito, através do martírio deste valoroso soldado de Cristo, a força da Páscoa pôde irromper na história dessas populações para transformar os costumes, os ordenamentos, as instituições e o próprio tecido urbanístico que, tendo-se constituído ao redor das igrejas edificadas sobre a memória do mártir, levou às vezes a definir os cidadãos de Bérgamo «homines sancti Alexandri», herdeiros e émulos do mártir. Celebrar Santo Alexandre é recordar os inícios da Igreja que está em Bérgamo.

2. A herança daquele heróico testemunho evangélico, com efeito, deu origem na terra bergamasca a uma sequência ininterrupta de cristãos, conhecidos ou desconhecidos, que fizeram de Cristo o centro da própria vida: de Santa Grata que, segundo a tradição, tomou o corpo do mártir Alexandre e lhe deu sepultura digna, a Narno, Viator e João, Fermo e Rústico, Alberto e Vito, Gregório Barbarigo, Luís Maria Palazzolo, Teresa Eustóquio Verzeri, Paula Isabel Cerioli, Gertrudes Comensoli, Francisco Spinelli e Pierina Morosini. Sem falar depois do Papa João XXIII, que comoveu o mundo pela sua bondade, e de muitas outras figuras luminosas que enriqueceram a comunidade bergamasca com o tesouro dos seus exemplos de fé vivida.

As numerosas igrejas dedicadas ao Santo, as antigas fórmulas litúrgicas e a devoção popular, as instituições educativas e caritativas, o fervor de muitas paróquias e comunidades provam que o martírio de Alexandre ainda produz os seus frutos nos filhos dessa Igreja. O cristão bergamasco, como afirmava o então Núncio Apostólico D. Roncalli, «mesmo longe, além-mar, aonde o conduzir a busca de trabalho ou de sorte, ao serviço da Igreja ou da Pátria, gosta de o recordar, e como que de haurir protecção para as suas peripécias e propósitos de seriedade, de sabedoria e de disciplina, daquele aspecto vigoroso e simpático do seu Santo Alexandre, soldado e mártir, expressão de dignidade e de sacrifício, da linha decisiva que dá fisionomia ao seu povo e o honra» (D. Angelo G. Roncalli, Homilia na festa de Santo Alexandre, 25/8/1950).

Verdadeiramente a semente caída na terra produziu muito fruto (cf. Jo 12, 24) e, pelas gestas gloriosas de Alexandre, essa «Igreja floresce em toda a parte »! (Santo Agostinho, Discurso 329 para a comemoração do nascimento dos mártires, PL 38, 1454). Os filhos da diocese bergamasca semearam tão bem ao longo dos séculos, quer na terra italiana quer em muitas nações do mundo, com generoso espírito missionário.

3. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13). A Palavra do Mestre, acolhida com seriedade e coragem, levou Alexandre a doar a própria existência a Cristo e aos irmãos, até à efusão do sangue.

Unindo-se misticamente à cruz do Senhor e completando na sua carne «aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo» (Cl 1, 24), ele testemunhou a força do Ressuscitado que vence a morte, e mostrou o poder do Espírito que sustenta o Corpo místico, na luta contra as potências das trevas.

Com o seu gesto heróico, o Mártir afirma que Cristo é o sentido último da vida do homem e a verdade definitiva da história, e que só n’Ele a humanidade se torna capaz de responder plenamente ao projecto divino.

Na esteira do Concílio Ecuménico Vaticano II, que recorda como o martírio, «pelo qual o discípulo se torna semelhante ao Mestre, que livremente aceitou a morte para a salvação do mundo, e a Ele se conformou no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor» (Lumen gentium, 42), os bergamascos de hoje são convidados a dar graças pelo seu celeste Padroeiro e a assumir o seu testemunho, como referência segura para viverem a fidelidade a Cristo no nosso tempo.

4. Sob a sua iluminada guia pastoral, Venerado Irmão, os fiéis dessa amada Diocese, testemunhas e protagonistas de grandes transformações culturais e de um bem-estar económico amplamente difundido, poderão contrastar de maneira eficaz o subtil secularismo da sociedade actual, que insidia a vida moral e ameaça a sólida relação com a fé cristã, traço característico da identidade bergamasca.

Diante da possibilidade de uma religiosidade motivada por referências culturais, mais do que pela adesão pessoal a Cristo, o glorioso martírio de Santo Alexandre exorta todos a reafirmarem a centralidade da Cruz e da Ressurreição na experiência cristã e a defenderem-se do perigo de empobrecer o Evangelho, adequando-o à lógica do mundo.

No limiar do novo Milénio, como no decurso da primeira evangelização, também para os cristãos dessa terra se renova a urgência de testemunharem com coragem Jesus Cristo, único Salvador do mundo!

5. Essa urgência requer dos indivíduos e das comunidades que se deixem conduzir pelo Espírito do Senhor. Ele reavivará em cada um a consciência de ser amado pelo Pai e dará, com a força de seguir Cristo, a alegria de redescobrir n’Ele o tesouro que dá sentido à vida. Sustentará a fé nos momentos difíceis e, infundindo confiante espera no cumprimento do Reino, guiará o caminho de conversão.

Através da escuta da Palavra de Deus, da obediência aos Pastores, da celebração dos Sacramentos e, de modo especial, da «fracção do pão» eucarístico, o Espírito conduzirá os cristãos bergamascos a projectarem a convivência civil, à luz das Bem-aventuranças, para construírem a civilização do amor.

Também as comunidades cristãs, dóceis à voz do Espírito, se empenharão em proclamar com novo entusiasmo o Evangelho e em elaborar itinerários de fé, que consintam aos próximos e aos distantes, aos jovens e aos adultos encontrar pessoalmente Jesus Cristo e assumi-l’O como referência essencial da existência.

Olhando para Santo Alexandre, dom insigne do Senhor para as populações bergamascas, as diversas comunidades eclesiais, confiadas aos seus cuidados pastorais, são chamadas a valorizar os inúmeros e preciosos carismas com que foram enriquecidas, para continuarem a pô-los ao serviço do crescimento da Igreja local e da Igreja universal. Serão, além disso, solicitadas a viver com dedicação evangélica as actividades educativas e caritativas e a transformar as inúmeras tradições populares em modernas fronteiras de evangelização, dotando-as com novo impulso e motivações mais profundas.

Com estes bons votos, enquanto peço ao Senhor, por intercessão de Santo Alexandre, o dom de uma fé viva, de uma esperança firme e de uma caridade operosa para os fiéis da dilecta Diocese de Bérgamo, de coração concedo-lhe, Venerado Irmão, assim como aos Presbíteros, aos Religiosos, às Religiosas, às Famílias e ao inteiro Povo de Deus uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 7 de Novembro de 1997.

JOÃO PAULO II

 

 

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