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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SENHOR ALTAN G
ÜVEN
NOVO EMBAIXADOR DA TURQUIA
JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

6 de Dezembro de 1997

 

Senhor Embaixador

É-me grato dar-lhe as boas-vindas ao Vaticano e receber as Cartas Credenciais que o designam Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Turquia junto da Santa Sé. Estou- lhe reconhecido pelas cordiais saudações que me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Presidente Süleyman Demirel. Aproveito esta oportunidade para reconfirmar o meu profundo respeito pelo povo da Turquia, e peço- lhe que transmita a Sua Excelência a certeza das minhas orações e dos meus melhores votos pela paz e o bem-estar da nação.

Vossa Excelência referiu-se à amizade que desde há muitos anos tem caracterizado os relacionamentos entre o seu país e a Santa Sé. Compartilho a esperança de que se entreteçam formas de cooperação cada vez mais activas entre a Santa Sé e a Turquia. Quando ambas estão preocupadas em encontrar modos de refortalecer a paz mundial, existem muitas áreas abertas à compreensão recíproca e à entreajuda.

Dois princípios gerais constituem a base de todas as organizações sociais e o fundamento da paz no mundo. O primeiro é a dignidade inalienável de cada pessoa humana, independentemente da origem étnica, das características culturais ou nacionais ou ainda da crença religiosa. O segundo é a unidade fundamental da raça humana, que haure a sua origem do único Deus Criador (cf. Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz de 1989, n. 3). O trabalho da Santa Sé em favor da promoção da paz está assente sobre o compromisso em salvaguardar a dignidade de cada ser humano. A dignidade humana diz respeito não só à existência individual da pessoa, mas também a fundamentais dimensões culturais e religiosas dos seus relacionamentos com os outros. Portanto, a harmonia genuína no seio de uma nação e entre os países só se pode manter se as diferenças naturais e legítimas entre os povos forem consideradas como uma realidade enriquecedora, em vez de serem reprimidas como causa de divisão. Vossa Excelência referiu-se ao problema da discriminação contra as pessoas que são obrigadas a procurar um trabalho fora do próprio país. À luz dos princípios mencionados, trata-se sem dúvida de uma problemática que deve ser abordada num espírito de diálogo e abertura à contribuição que, na diversidade das suas experiências e costumes, os imigrantes podem oferecer à sociedade que os acolhe. A harmonia genuína constitui o resultado do paciente e difícil diálogo entre as partes interessadas, um diálogo em que cada um busca o bem do outro enquanto salvaguarda o bem que lhe é próprio.

A rica herança histórica e cultural da Turquia inspira muitos dos seus compatriotas a terem em vista uma integração mais completa na Família europeia das nações. A interdependência sempre crescente entre as nações, em termos de relações comerciais e políticas, constitui um dado de facto da actual situação mundial. Contudo, é imperativo que esta interdependência progrida, transformando- se em efectiva solidariedade internacional. A solidariedade é uma firme e perseverante determinação em empenhar-se a favor do bem comum, isto é, do bem geral de cada um e de todas as pessoas, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos (cf. Sollicitudo rei socialis, 38). Isto vale também para os países: jamais haverá paz genuína se um país prosperar enquanto o seu vizinho continuar a viver em necessidade. As nações mais abastadas e poderosas têm o dever de ajudar os países em vias de desenvolvimento, não só financeiramente, mas também nos campos da educação e da ciência, tendo em vista a sua promoção e progresso verdadeiros (cf. Populorum progressio, 48). Como uma ponte entre a Europa e a Ásia, o seu país recorda que as nações mais prósperas deste continente deveriam estar cada vez mais disponíveis a corresponder às necessidades dos povos, mesmo para além das suas fronteiras.

O desenvolvimento humano integral exige mais do que uma prosperidade material. O respeito rigoroso pelas necessidades culturais, morais e espirituais das pessoas e das comunidades, assente na dignidade da pessoa e na identidade específica de cada uma das comunidades, constitui uma condição essencial para o bem-estar de cada sociedade (cf. Sollicitudo rei socialis, 33). A este propósito, apraz-me tomar conhecimento, através das suas palavras, da contribuição que os católicos oferecem à sociedade turca e da segurança que lhes é garantida no que concerne à liberdade de praticar a própria fé. A liberdade religiosa, que inclui a liberdade do rito e da educação das futuras gerações na fé, é de importância fundamental para a harmonia cívica. Trata-se de uma condição para os grupos religiosos minoritários poderem considerar-se cidadãos do Estado a pleno título, encorajando-os a participar inteiramente no desenvolvimento da nação. Os membros da Igreja católica no seu país, embora sejam poucos, são orgulhosos da própria herança nacional e têm muito a peito o bem da sua pátria.

É importante que os vários grupos religiosos presentes em uma nação se relacionem uns com os outros, com respeito e tolerância recíprocos. O diálogo inter- religioso contribuirá sobremaneira para promover tais relações. A existência de diferentes grupos religiosos e étnicos no seio de uma determinada nação representa tanto um desafio como uma oportunidade, especialmente para os líderes políticos e os legisladores. As autoridades civis têm necessidade de estar muito conscientes das reivindicações legítimas dos vários grupos, correspondendo-lhes de maneira apropriada. O respeito pelas diversas tradições culturais e espirituais das pessoas que vivem dentro das fronteiras de um Estado permite que o próprio país em questão se apresente no seio da comunidade internacional como um exemplo da paz e da harmonia que deveriam triunfar no mundo inteiro.

Vossa Excelência falou sobre a importante ocasião do Grande Jubileu do Ano 2000. A terra da Turquia é rica de memórias das viagens missionárias do grande Apóstolo Paulo. Os primeiros sete Concílios ecuménicos tiveram lugar na região que hoje é o seu país. Nestes anos de preparação, os cristãos estão a reflectir sobre os mistérios da fé, muitos dos quais foram abordados pelos nossos antepassados na fé, durante os grandiosos Concílios realizados em Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedónia. Para os cristãos, estes constituem pontos de referência fundamentais para a nossa fé em Deus e na Encarnação. O Jubileu é um evento acima de tudo espiritual. Os cristãos que viajarem aos lugares relacionados com a sua própria fé, fá-lo-ão sobretudo como peregrinos, para quem as celebrações religiosas nos inumeráveis lugares associados ao início da vida da Igreja hão-de constituir o ponto central da sua visita. Vossa Excelência pôs em evidência a boa vontade do Governo turco em cooperar na organização das celebrações do Jubileu, e estou grato pela sua disponibilidade em receber as inúmeras pessoas que visitarão esses lugares sagrados, tão queridos a todos os cristãos.

Excelência, apresento-lhe os meus melhores votos pelo bom êxito da sua missão como Embaixador do seu país. Os vários departamentos e secções da Santa Sé estarão sempre prontos a assisti- lo no cumprimento dos seus sublimes deveres. Invoco as abundantes bênçãos divinas sobre Vossa Excelência e sobre o Governo e o Povo da Turquia.

 

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana

 

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