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DISCURSO DO SANTO PADRE AO
NOVO EMBAIXADOR DO SRI LANKA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA
APRESENTAÇÃO DA CARTAS CREDENCIAIS
18 de Dezembro de 1997
Senhor Embaixador
É com prazer que hoje lhe dou as
boas-vindas ao Vaticano e recebo as Cartas Credenciais com que Sua Excelência
o Presidente Chandrika Bandaranaike Kumaratunga o nomeia Embaixador
Extraordinário e Plenipotenciário da República Socialista Democrática do Sri
Lanka junto da Santa Sé. Estou-lhe grato pelas saudações que me transmitiu
da parte do Senhor Presidente e peço-lhe que comunique a Sua Excelência a
certeza das minhas orações pela paz e prosperidade da nação inteira. Aproveito esta ocasião para afirma mais uma vez o meu profundo respeito pelo
povo do Sri Lanka e pela rica herança espiritual e cultural do seu país.
A
presença simultânea do Budismo, Hinduísmo, Islão e Cristianismo tem
constituído uma fonte de enriquecimento para a sociedade cingalesa. A contribuição dos vários grupos religiosos no Sri Lanka é um valor inestimável
para o desenvolvimento da nação no seu sentido mais pleno. Nos seus
relacionamentos com outras nações, a Igreja católica segue o caminho do
diálogo, e por ocasião da minha visita ao seu país em 1995, Senhor
Embaixador, tive a alegria de experimentar pessoalmente a atmosfera de
harmonia religiosa que o seu povo forjou ao longo dos séculos. Ao cumprir a
sua missão espiritual, a Igreja trabalha no seio da sociedade civil para
promover a justiça, a compaixão e o respeito pelo próximo. Uma sociedade que
ignora ou negligencia a dimensão espiritual da vida torna-se demasiadamente
condicionada pelas considerações materiais, enquanto diminui o seu respeito
pelos valores superiores que derivam da dignidade da pessoa humana. Isto leva
inevitavelmente à injustiça contra os mais vulneráveis: os pobres, os
idosos e as pessoas frágeis. Por este motivo, o tradicional respeito
cingalês pela religião é uma dádiva a valorizar e tutelar. Os líderes
espirituais devem enfrentar o desafio de assegurar que a religião permaneça
uma força em benefício da compreensão e da paz. A sociedade civil deve
garantir e assegurar a liberdade religiosa necessária para a coexistência
harmoniosa dos vários grupos que formam a nação.
A Santa Sé tem
consciência de que o Governo do Sri Lanka se está a empenhar num projecto de
Reforma constitucional e aprecia a solicitude do Governo em salvaguardar a
longa tradição nacional de liberdade religiosa e de cooperação. Deve
desejar que a nova Constituição ajude de maneira concreta a resolver o
conflito étnico que tem deteriorado de forma tão grave o tecido da sociedade cingalesa, causando inúmeras
vítimas. Vossa Excelência mencionou a
complexa estratégia de paz do seu Governo, que inclui a «caravana da paz»,
destinada a familiarizar o povo com o problema. Qualquer estratégia semelhante só pode esperar no bom êxito se tornar possível um diálogo entre
todas as pessoas em conflito. É essencial que todas as partes tenham uma
atitude de abertura e, se for necessário,
desejem assumir os compromissos que são precisos para equilibrar os interesses opostos. Uma paz justa deve promover a garantia do respeito pelos
direitos legítimos de cada um, independentemente da origem étnica, da
convicção política ou do credo religioso. Hoje, inúmeras ameaças à paz mundial derivam do
contraste estridente entre a riqueza de alguns e a
pobreza de muitos. Em inumeráveis ocasiões, a Santa Sé exortou a uma distribuição mais equitativa dos recursos,
encorajando as nações mais
abastadas a ser mais sensíveis às verdadeiras necessidades das nações em
vias de desenvolvimento. As tentativas de resolver as principais dificuldades
que se apresentam ao mundo na área do desenvolvimento devem inspirar-se no
apreço do mistério transcendente da pessoa humana. Por este motivo, são
inaceitáveis os programas de assistência que impõem condições degradantes
para a dignidade e a liberdade humanas, ou destróem os valores importantes na
cultura de uma nação.
Vossa Excelência mencionou a contribuição da Igreja
católica para o progresso social do seu país. No campo da educação, é
importante ter em mente a importância crucial da formação integral dos
jovens, que são o futuro da nação. Os valores que eles aprendem hoje serão
os mesmos que hão-de forjar o tecido social do seu país amanhã. É essencial que eles se tornem conscientes da dimensão espiritual da vida humana e
sejam auxiliados a superar as tentações que a cultura materialista lhes pode
apresentar. O apreço dos valores morais e a atitude de respeito pelo próximo
são tão importantes quanto qualquer habilidade técnica que eles possam
adquirir.
Quando os Bispos católicos do Sri Lanka vieram a Roma no ano passado,
para a sua Visita ad Limina, falei sobre o facto de que «a contribuição da
Igreja para o desenvolvimento integral da sociedade do Sri Lanka consiste em propor uma visão, na qual o progresso
económico, político e social
caminhe a par e passo com o desenvolvimento religioso, cultural e moral» (Ed.
port. de L'Osservatore Romano de 7 de Setembro de 1996, n. 5, pág. 6). No
mais íntimo da pessoa existe a sede de algo que a prosperidade material não
pode satisfazer. A presença da Igreja em vários tipos de actividade social e
na área da saúde fundamenta-se em primeiro lugar e sobretudo no mandamento
do seu divino Fundador, que consiste em amarmos o nosso próximo como a nós
mesmos. Ela possui uma missão diferente daquela das Autoridades políticas mas,
no serviço da família humana, procura a cooperação activa com todos os
homens e mulheres de boa vontade, e com as instituições sociais que mantêm
uma justa hierarquia de valores e um entendimento genuíno do bem comum.
Sob a
guia dos seus Bispos, os membros da Igreja católica no Sri Lanka estão
sempre prontos a cooperar com os seus concidadãos budistas, hindus e muçulmanos no serviço do bem comum. Alguns deles sofreram muito devido ao
conflito étnico, mas a sua esperança consiste em ajudar e cooperar nas iniciativas destinadas a garantir uma paz justa e duradoura. Eles continuarão a
oferecer o seu contributo específico nas várias áreas do desenvolvimento
social, da salvaguarda da vida e do progresso moral e religioso da nação.
Senhor Embaixador, no momento em que assume as suas responsabilidades, faço
votos por que os vínculos de amizade existentes entre a Santa Sé e o Sri
Lanka sejam fortalecidos ulteriormente. Asseguro-lhe que pode contar com a assistência
dos diversos departamentos da Cúria Romana no cumprimento
da sua missão. Torno extensivos os meus sinceros bons votos a Vossa
Excelência, à sua família e aos seus colegas, e invoco sobre o Senhor
Embaixador e sobre o povo cingalês abundantes bênçãos divinas.
© Copyright 1997 - Libreria
Editrice Vaticana
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