DISCURSO DO SANTO PADRE NO FIM DA «VIA-SACRA»
"Christus factus est pro nobis oboediens usque ad mortem - mortem
autem crucis" (Fil 2,8).
1. "Por nossa causa, Cristo fez-se obediente até a morte, e
morte de cruz" (cf. Fil 2,8-9). Estas palavras de São Paulo resumem
a mensagem que a Sexta-feira Santa nos quer comunicar. Neste dia, a Igreja não
celebra a Eucaristia, como se quisesse sublinhar que, no dia em que se consumou
o Sacrifício cruento de Cristo na cruz, não é possível
torná-lo presente de modo incruento no Sacramento.
Hoje, a Liturgia Eucarística é substituída pelo
sugestivo rito da adoração da Cruz, que, há pouco,
presidi na Basílica de São Pedro. Quem nele participou, conserva
ainda vivos no coração os sentimentos despertados pela escuta dos
textos litúrgicos relativos à Paixão do Senhor.
Como não ficar impressionados com a pungente descrição,
feita por Isaías, do "homem das dores", desprezado e rejeitado
pelos homens, que carregou sobre si o peso do nosso sofrimento, e foi ferido por
Deus por causa dos nossos pecados (cf. Is 53,3 ss)?
E como permanecer insensíveis diante do "grande clamor e das lágrimas"
de Cristo, evocados pelo autor da Carta aos Hebreus (cf. Hb 5,7)?
2. Faz pouco, seguindo as estações da Via-Sacra,
contemplamos as etapas dramáticas da Paixão: Cristo que carrega a
Cruz, que cai sob o seu peso e agoniza sobre ela, que no derradeiro momento da
agonia, reza: "Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito"
(Lc 23,46), para exprimir o Seu abandono total e confiado.
Hoje, é sobre a Cruz que se concentra mais vivamente a nossa atenção.
Meditamos sobre o mistério da Cruz, que se perpetua pelos séculos
no sacrifício de tantos crentes, de tantos homens e mulheres associados
pelo martírio à morte de Jesus. Contemplamos o mistério da
agonia e da morte do Senhor, que continua, ainda em nossos dias, na dor e no
sofrimento de indivíduos e povos duramente provados pela violência
e pela guerra.
Sempre que o homem é ferido e morto, é o Cristo mesmo que fica
ofendido e crucificado. Mistério de dor, mistério de amor
infinito!
Permaneçamos em silencioso recolhimento diante deste mistério
insondável.
3. "Ecce lignum crucis...", "Eis o madeiro da
Cruz, no qual esteve suspenso Cristo, o Salvador do mundo. Vinde, adoremos!"
Esta noite, a Cruz brilha com uma força extraordinária, no
termo da Via-Sacra aqui no Coliseu . Este lugar da antiga Roma está
ligado, na memória popular, ao martírio dos primeiros cristãos.
É, por isso, lugar particularmente apropriado para reviver, ano após
ano, a paixão e a morte de Cristo. "Ecce lignum Crucis"!
Quantos irmãos e irmãs na fé se tornaram participantes da
Cruz de Cristo, no período das perseguições romanas!
O texto das meditações, que nos guiaram ao longo desta Via-Sacra,
foi preparado pelo venerado irmão Karekin I Sarkissian, Patriarca
Catholicos supremo de todos os Arménios. Agradeço-lhe cordialmente
e, mais uma vez grato pela visita que me quis fazer recentemente, saúdo-o
juntamente com todos os cristãos da Arménia. Desta minha saudação
peço que se faça portador, ao mesmo tempo que nela o incluo também,
o Arcebispo Nerses Bozabalian, que participou connosco nesta Via-Sacra,
como representante do Catholicos da Arménia. Muitos irmãos e irmãs
desta Igreja e desta nação participaram, com o sacrifício
da sua vida, na Cruz de Cristo! Hoje, em união com eles e com todos
aqueles que, nos vários ângulos da terra, em cada continente e nos
diversos países do globo, participam com o seu sofrimento e com a morte,
da Cruz de Cristo, desejamos repetir: "Ecce lignum crucis...",
"Eis o madeiro da Cruz, no qual esteve suspenso Cristo, o Salvador do
mundo. Vinde, adoremos!"
4. Quando as trevas da noite já desceram sobre nós,
significativa imagem do mistério que envolve a nossa existência,
bradamos a nossa fé em Ti, Cruz da nossa salvação!
Senhor, um feixe de luz se desprende da vossa Cruz. Na vossa morte, é
vencida a nossa morte e é-nos oferecida a esperança da ressurreição.
Abraçados à vossa Cruz; permanecemos em confiante expectativa do
vosso regresso, Senhor Jesus, nosso Redentor!
"Anunciamos, Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição.
Vinde, Senhor Jesus".
Amen!
Sexta-Feira, 28 de março de 1997
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