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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À PLENÁRIA DA CONGREGAÇÃO
PARA A DOUTRINA DA FÉ

24 de Outubro de 1997

 

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. É para mim motivo de grande alegria encontrar-vos no final da vossa Reunião Plenária. Tenho assim a oportunidade de vos manifestar sentimentos de profundo reconhecimento e de vivo apreço pelo trabalho que o vosso Dicastério realiza ao serviço do ministério de unidade, confiado de modo especial ao Romano Pontífice, e que se exprime primariamente como unidade de fé, sustentada e constituída pelo depósito sagrado, do qual o Sucessor de Pedro é o primeiro guardião e defensor (cf. Const. Apost. Pastor bonus, 11).

Agradeço ao Senhor Cardeal Joseph Ratzinger as amáveis palavras que me dirigiu, também em vosso nome, e a exposição dos temas que foram objecto de exame durante a Plenária. Esta foi dedicada, em particular, ao aprofundamento das categorias de verdade mencionadas na conclusão da Nova Fórmula da Profissão de Fé, publicada por essa Congregação em 1989, e à reflexão sobre o fundamento antropológico e cristológico da moral, à luz dos princípios confirmados na Encíclica Veritatis splendor.

Desejo, além disso, exprimir a minha satisfação pela positiva conclusão do trabalho de revisão do texto da «Agendi ratio in doctrinarum examine», que constitui um instrumento certamente válido a fim de oferecer uma estruturação cada  vez  mais  adequada  ao  modo  de proceder  no  exame  dos  escritos  contrários à fé.

2. Quereria agora deter-me brevemente nos principais argumentos discutidos nesta vossa reunião. O aprofundamento da ordem das categorias de verdade da doutrina cristã, do tipo de assentimento devido, das fórmulas para propor a sua adesão, está em continuidade com o tema que foi objecto de consideração na precedente Plenária: o valor e a autoridade dos ensinamentos do Magistério da Igreja, ao serviço da verdade da fé e como fundamento estável da investigação teológica.

Naquela ocasião, tive a oportunidade de recordar que «para uma comunidade que se funda essencialmente sobre a adesão compartilhada à Palavra de Deus e a consequente certeza na verdade, a autoridade na determinação dos conteúdos que se devem crer e professar é algo a que não se pode renunciar. É dito claramente que a autoridade inclui diferentes graus de ensinamento nos dois recentes Documentos da Congregação para a Doutrina da Fé: a Professio fidei e a Instrução Donum veritatis. Esta hierarquia de graus deveria ser considerada não um impedimento, mas um estímulo para a teologia» (L’Osserv. Rom., ed. port. de 16/12/1995, pág. 14, n. 5).

A retomada, com especial atenção, deste tema contribui para a explicação mais aprofundada dos diversos graus de adesão dos fiéis às doutrinas ensinadas pelo Magistério, para que o seu significado e alcance originários sejam sempre recebidos e conservados de maneira íntegra. Ao mesmo tempo, ajuda a fazer com que se torne cada vez mais clara a conexão das diversas verdades da doutrina católica com o fundamento da fé cristã.

Graças também à elaboração de um esclarecimento nesse sentido, na qual se empenhou nestes dias a vossa Congregação, os Bispos, que dos Apóstolos recebem como herança a tarefa de «magistério e governo pastoral», a ser exercida sempre em comunhão com o Romano Pontífice (cf. Lumen gentium, 22), poderão no futuro dispor de um ulterior instrumento, para conservarem e promoverem o depósito da fé em benefício do inteiro povo de Deus.

3. Relevo singular, além disso, foi por vós reservado às questões morais, cujo horizonte se abre ao longo do inteiro arco da existência do homem.

A respeito disso, já na minha primeira Carta Encíclica Redemptor hominis, afirmei que «a Igreja não pode abandonar o homem, cuja “sorte”, ou seja, a escolha, o chamamento, o nascimento e a morte, a salvação ou a perdição, estão de maneira tão íntima e indissolúvel unidos a Cristo» (n. 14).

Os graves problemas que, com urgência cada vez mais premente, requerem uma resposta segundo a verdade e o bem, só podem encontrar uma solução autêntica se for recuperado o fundamento antropológico e cristológico da vida moral cristã. Com efeito, o Filho de Deus encarnado é a norma universal e concreta do agir cristão: «Ele mesmo Se torna Lei viva e pessoal que convida ao seu seguimento, dá, mediante o Espírito a graça de partilhar a sua própria vida e amor, e oferece a força para O testemunhar nas opções e nas obras (cf. Jo 13, 34-35)» (Veritatis splendor, 15). Cada homem, portanto, se torna por graça partícipe da verdade e do bem n’Aquele que é a imagem do Deus invisível (cf. Cl 1, 15), e na adesão ao Seu seguimento é habilitado a agir segundo a liberdade de filho.

No serviço que o vosso Dicastério oferece ao Sucessor de Pedro e ao Magistério da Igreja, vós contribuís para fazer com que a liberdade permaneça sempre e só «na verdade», ajudando a consciência de todos os homens, e dos discípulos de Cristo em particular, a não se desviar da via que conduz ao autêntico bem do homem.

O bem da pessoa é estar na verdade e praticar a verdade na caridade. Este ligame essencial de «verdade-bem-liberdade » parece ter sido perdido em boa parte da cultura contemporânea e, portanto, reconduzir o homem a descobri-lo é hoje uma das exigências próprias da missão da Igreja, chamada a trabalhar para a salvação do mundo.

Ao empenhardes-vos em esclarecer sempre melhor o originário fundamento antropológico e cristológico da vida moral, contribuireis certamente para promover a formação da consciência de muitos dos nossos irmãos, segundo quanto afirmam as palavras do Concílio Vaticano II na Declaração Dignitatis humanae: «Os fiéis... para formarem a sua própria consciência, devem atender diligentemente à doutrina sagrada e certa da Igreja. Pois, por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana» (n. 14).

4. Hoje, é-me particularmente grato concluir este encontro convosco, recordando Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, que tive a alegria de proclamar solenemente, no domingo passado, Doutora da Igreja.

O testemunho e o exemplo desta jovem Santa, Padroeira das Missões e Doutora da Igreja, ajudam a entender como existe uma íntima unidade entre a tarefa da inteligência e da compreensão da fé e a tarefa, propriamente missionária, de anúncio do Evangelho da salvação. A fé por si mesma quer fazer-se compreensível e acessível a todos. A missão cristã tende, portanto, sempre a fazer conhecer a verdade, e o verdadeiro amor pelo próximo manifesta-se na sua forma mais completa e profunda quando quer dar ao próximo aquilo de que o homem tem mais radicalmente necessidade: o conhecimento da verdade e a comunhão com ela. E a verdade suprema é o mistério de Deus Uno e Trino, revelado em Cristo de maneira definitiva e insuperável. Quando o anélito missionário corre o perigo de se esmorecer, é sobretudo a fé cristã que pode fazer reencontrar a paixão e o amor pela verdade que se perderam.

Por outro lado, o conhecimento da verdade cristã evoca intimamente e exige interiormente o amor Àquele ao Qual deu o próprio assentimento. A teologia sapiencial de Santa Teresa do Menino Jesus mostra a via-mestra de toda a reflexão teológica e investigação doutrinal: o amor do qual «dependem a Lei e os Profetas» é amor que tende à verdade e, deste modo, se conserva como autêntico ágape com Deus e com o homem. Hoje é importante para a teologia recuperar a dimensão sapiencial, que integra o aspecto intelectual e científico com a santidade da vida e a experiência contemplativa do Mistério cristão. Deste modo, Santa Teresa de Lisieux, Doutora da Igreja, com a sua sábia reflexão alimentada nas fontes da Sagrada Escritura e da divina Tradição, plenamente fiel aos ensinamentos do Magistério, indica à teologia hodierna o caminho a percorrer para chegar ao coração da fé cristã. Ao congratular-me convosco, caríssimos Irmãos e Irmãs, pelo empenho e pelo ministério precioso que exerceis ao serviço da Sé Apostólica e em favor da Igreja inteira, invoco sobre cada um a especial protecção de Maria, Sede da Sabedoria, e de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Acompanhe-vos também a minha Bênção, que de coração concedo a todos vós, em penhor de afecto e de gratidão.

 

 

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