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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À CONFERÊNCIA EPISCOPAL REGIONAL
DO NORTE DA ÁFRICA (CERNA) EM VISITA
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AD LIMINA APOSTOLORUM
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30 de Outubro de 1997

 

Caros Irmãos no Episcopado

1. É para mim uma grande alegria acolher-vos nesta casa, a vós que sois os pastores da Igreja de Cristo na Região do Norte da África. Viestes em peregrinação aos túmulos dos Apóstolos para renovar a vossa esperança e o vosso dinamismo apostólico, a fim de viverdes o vosso ministério episcopal de maneira cada vez mais intensa no meio dos povos da vossa região. Agradeço a D. Teissier, Arcebispo de Argel e Presidente da vossa Conferência Episcopal, as palavras tão fortes que fizeram ressaltar os sofrimentos e os dramas dos vossos povos, mas também as alegrias e as luzes que ali manifestam a obra de Deus. Ao receber- vos, devo antes de tudo recordar a memória do Cardeal Duval que, durante longos anos, foi Presidente da vossa Conferência e cujo ministério episcopal tanto marcou a vida da Igreja no Norte da África. Como Sucessor de Pedro, quereria hoje encorajar-vos no vosso serviço pastoral. Transmiti também a minha saudação afectuosa aos fiéis de cada uma das vossas dioceses e, através deles, a todos os habitantes dos países do Magrebe.

2. A vossa presença em Roma dá-me o ensejo de voltar o meu olhar para cada uma das vossas comunidades. No decorrer dos últimos meses, a Igreja na Líbia teve a alegria de acolher um novo pastor, no Vicariato Apostólico de Benghazi. Sinto-me feliz por o receber e lhe desejar um fecundo ministério episcopal. Espero também que terminem quanto antes as dificuldades do povo líbio, devidas ao embargo aéreo imposto ao seu país há muitos anos.

Tenho o prazer de me recordar da visita que efectuei no ano passado a Túnis, e do acolhimento caloroso que me foi reservado pelos fiéis católicos e pelo povo tunisino. Durante essa jornada memorável nas pegadas dos Santos e Santas que marcaram a história do país, pude encontrar-me com todos vós, Bispos do Magrebe, pela primeira vez no solo da vossa região.

A comunidade católica de Marrocos continua presente na minha memória, após o feliz dia do meu encontro com ela e com a juventude marroquina em Casablanca, o qual deu um novo impulso às relações e ao diálogo entre cristãos e muçulmanos. Desejo-lhe que prossiga com ardor o seu testemunho de fraternidade evangélica no meio dos habitantes desse país.

Quereria saudar e encorajar, com particular afecto, os católicos da Argélia. Conheço os seus sofrimentos e os de todo o povo argelino. Estou-lhes reconhecido por compartilharem com coragem, no nome de Cristo, as provas dessa nação tão tragicamente tocada na sua carne e na sua alma. Dezanove religiosos e religiosas verteram o próprio sangue durante estes últimos anos, aceitando irem até ao extremo dom de si mesmos pelos seus irmãos. Entre eles, devo nomear em particular D. Pierre Claverie, Bispo de Orã, e os sete monges trapistas de «Notre-Dame de l’Atlas». Visto que continua a desencadear- se uma violência inaceitável para toda a consciência humana, peço a Deus que dê, enfim, a paz à terra da Argélia e conduza cada um pelos caminhos do respeito por toda a vida humana, em vista duma verdadeira reconciliação e da cura de inúmeras feridas, causadas ao coração de tantas pessoas. Da minha parte, tenho muitas vezes feito apelo a todos os homens de boa vontade para que colaborem para o restabelecimento da paz na Argélia. Conheço o calvário doloroso que padece essa terra e estou próximo de todos os que choram o desaparecimento de entes queridos. Mais uma vez, quereria dar a certeza de que a Santa Sé não negligenciará esforço algum a fim de contribuir para o retorno da paz à Argélia.

3. A Igreja na vossa região exprime de maneira particular o mistério da Encarnação de Deus entre os homens, especialmente o mistério de Nazaré. Com efeito, ela torna manifesta a presença discreta mas muito viva de Cristo, respeitosa tanto das pessoas como das diferentes comunidades humanas e religiosas, a fim de comunicar a todos a plenitude do amor do Pai celeste. A vocação das vossas comunidades é também uma vocação à esperança, fundada em Cristo. Como pequeno rebanho, que na vida social não possui poder nem pretensão senão do amor, vós sois conduzidos a depositar totalmente a vossa confiança em Deus, certos de que é Ele que vos guia nos caminhos do encontro com os vossos irmãos. Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, cujo centenário da «entrada na vida» celebramos este ano e que foi proclamada Doutora da Igreja universal há alguns dias, escrevia: «Desde quando compreendi que me era impossível fazer algo por mim mesma, [...] senti que a única escolha necessária era unir-me cada vez mais a Jesus e que o resto me seria concedido por acréscimo. Com efeito, jamais a minha esperança foi frustrada» (Manuscrito C, 22 v). Que o Senhor vos ajude a perseverar na fé e no amor, mesmo quando os resultados das vossas obras se fizer esperar!

Queridos Irmãos no Episcopado, tendes o pesado encargo de sustentar o povo que vos foi confiado no seu caminho rumo ao Reino e no seu testemunho no meio dos homens. Ao fazer-vos um só coração no seio da vossa Conferência Episcopal, tornais cada vez mais forte a unidade das vossas comunidades, no reconhecimento das diversidades legítimas! Sede guias atentos, sabendo escutar e encorajar cada um na sua vida cristã, para que possa crescer na fé e na caridade.

4. Na missão da Igreja, os sacerdotes ocupam um lugar particular. Como homens da comunhão na comunidade cristã, eles estão ao serviço da existência e do crescimento do povo de Deus, anunciando- lhe a Palavra de Vida e proporcionando- lhe os sacramentos da Igreja. Convido-os a dar à Eucaristia um lugar central na sua própria existência e a estimar o seu ministério, descobrindo nele, de maneira cada vez mais profunda, o acontecimento em que Cristo, vindo ao encontro da humanidade, Se oferece inteiramente pela salvação do mundo.

O sacerdote é também «chamado a encetar um relacionamento de fraternidade, de serviço, de procura comum da verdade, de promoção da justiça e da paz» (Pastores dabo vobis, 18). Na vossa Região, com muita generosidade e coragem, através duma presença atenciosa a cada um, os vossos sacerdotes testemunham no meio dos seus irmãos e irmãs, com frequência entre os mais pobres, a universalidade e a gratuidade do amor de Deus. Encorajo-os a consolidar o seu testemunho, caminhando com segurança na via da santidade. Estejam certos de que a autenticidade da vida, que vem de Deus, se exprime antes de tudo mediante a qualidade do próprio ser espiritual, fundada sobre a sua disponibilidade à obra do Espírito Santo entre eles.

5. Quereria saudar de maneira especial os religiosos e as religiosas do Magrebe, que oferecem à vida da Igreja a riqueza dos seus carismas. A Igreja está-lhes reconhecida pelo testemunho evangélico que dão no meio dos seus irmãos e irmãs.

Nas vossas situações particulares, nas quais os membros dos Institutos de vida consagrada formam muitas vezes um núcleo importante dos membros permanentes das vossas comunidades, é necessário que um diálogo confiante entre os Bispos e os responsáveis destes Institutos permita examinar em conjunto as exigências da vida pastoral, ligadas à presença dos seus membros. Desejo vivamente que os Superiores e as Superioras das Congregações manifestem com generosidade a sua solidariedade com as vossas Igrejas particulares, sobretudo suscitando vocações para o testemunho eclesial na vossa região.

As evoluções das situações humanas exigem das pessoas consagradas um grande espírito de fé, para se adaptarem às circunstâncias novas e às diferentes necessidades que se manifestam. Encorajo- as a permanecer fiéis ao próprio carisma, tendo a audácia da criatividade. É antes de tudo de autênticas testemunhas do amor de Deus que o mundo tem necessidade. A todos os consagrados repito com firmeza: «vivei plenamente a vossa dedicação a Deus, para não deixar faltar a este mundo um raio da beleza divina que ilumine o caminho da existência humana» (Vita consecrata, 109).

6. O papel dos fiéis leigos, alguns dos quais estão ligados muito intimamente aos destinos do povo dos vossos países, reveste um grande significado para exprimir a profunda realidade da Igreja. Com efeito, «já no nível do ser, ainda antes do nível do agir, os cristãos são ramos da única fecunda videira que é Cristo, são membros vivos do único Corpo do Senhor, edificado na força do Espírito» (Christifideles laici, 55). Com os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, em comunhão com os seus Bispos, os leigos formam esta Igreja-família que a Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África quis promover. Convido-os a participar de maneira cada vez mais activa na vida e no testemunho das suas comunidades, a fim de constituírem uma Igreja local radiante, acolhedora de todos.

Por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Paris, apreciei a presença de jovens que vieram da vossa região, sobretudo estudantes. Nas vossas comunidades eles têm um lugar importante e dão um bonito testemunho de vida evangélica no meio dos seus irmãos e irmãs nas universidades e nas escolas, muitas vezes em condições difíceis. De igual modo, repito-lhes ainda, por vosso intermédio: «Continuai a contemplar a glória de Deus, o amor de Deus; e sereis iluminados para construir a civilização do amor, para ajudar o homem a ver o mundo transfigurado pela sabedoria e amor eternos» (Homilia em Longchamp, n. 6).

Caros Irmãos no Episcopado, permiti-me pedir-vos que transmitais uma saudação afectuosa do Papa aos discípulos do Evangelho, que estão nas situações mais difíceis ou que vivem na prova. Conheço a sua coragem e o seu apego a Cristo e à sua Igreja. Que eles depositem toda a sua confiança no Senhor, que jamais os abandonará!

7. Por ocasião das assembleias sinodais que se realizaram em muitas das vossas dioceses, o desejo duma formação espiritual e doutrinal sólida foi muitas vezes expresso pelos fiéis. O Catecismo da Igreja Católica constitui já uma referência comum, que convém fazer conhecer. É para desejar que o aprofundamento da fé contribua para a unidade de vida de cada um, a fim de «crescer incessantemente na intimidade com Jesus Cristo, na conformidade com a vontade do Pai, na dedicação aos irmãos, na caridade e na justiça» (Christifideles laici, 60). Um lugar privilegiado deve também ser dado ao conhecimento da cultura do povo, no qual os cristãos são chamados a viver, a fim de que, numa atitude de escuta e de diálogo, sejam mais capazes de testemunhar o Evangelho diante das questões e dos problemas novos que interpelam o homem e a sociedade de hoje.

8. O serviço aos mais pobres é um sinal profético do empenhamento dos cristãos no seguimento de Cristo. Conheço e aprecio o trabalho realizado nas vossas dioceses para manifestar, assim, a gratuidade do amor de Deus para com todos os homens. Como já tive ocasião de ressaltar aquando da beatificação de Frederico Ozanam, «o próximo é todo o ser humano, sem excepção. É inútil perguntar sobre a sua nacionalidade, a sua pertença social ou religiosa. Se está em necessidade, é preciso ir ajudá-lo. É isto que pede a primeira e a maior Lei divina, a lei do amor de Deus e do próximo» (Homilia, Paris, 22/8/1997, n. 1). Através dos diversos organismos diocesanos de ajuda mútua, como a Cáritas, com frequência em colaboração com outras associações, e também pela partilha pessoal, não só contribuís para oferecer aos desprotegidos os meios de existência, mas sobretudo ajudai-os a reencontrar a sua dignidade de homens e de mulheres, criados à imagem de Deus. As vossas actividades ao serviço da saúde, da educação e da promoção da pessoa humana, que muitas vezes se devem adaptar às novas necessidades, permanecem instrumentos privilegiados para manifestar a caridade de Cristo e lugares de encontro e de partilha, onde os corações se podem abrir na confiança mútua.

9. As vossas comunidades são entre os crentes do Islão um sinal da estima que a Igreja católica lhes tributa e do seu desejo de prosseguir com eles a caminhada dum diálogo verdadeiro, no respeito mútuo. Num período muitas vezes conturbado pelos sentimentos de desconfiança ou até de animosidade, as vossas comunidades dão um abnegado testemunho de amizade e de convivência, que por vezes se revelou heróico nas situações trágicas vividas por algumas delas. E é uma felicidade constatar que a participação nas mesmas provas favorece um novo olhar de confiança e de compreensão recíprocas. Apesar das dificuldades, continuai firmes na convicção de que o diálogo é «um caminho que conduz ao Reino e seguramente dará frutos, mesmo se os tempos e os momentos estão reservados ao Pai» (Redemptoris missio, 57).

10. Caros Irmãos no Episcopado, preparamo-nos para o Grande Jubileu do Ano 2000; o próximo ano será consagrado ao Espírito Santo e à redescoberta da Sua presença e da Sua acção na Igreja e no mundo. Para os católicos será a ocasião de renovarem a sua esperança, virtude fundamental que «por um lado impele o cristão a não perder de vista a meta final que dá sentido e valor à sua existência inteira, e por outro lhe oferece motivações sólidas e profundas para o empenhamento quotidiano na transformação da realidade, a fim de a tornar conforme ao projecto de Deus» (Tertio millennio adveniente, 46).

Nas vossas condições particulares, por vezes tão dramáticas, convido-vos então a procurar e a valorizar os sinais de esperança que nos revelam a obra do Espírito de Deus no coração dos homens. Peço à Mãe de Cristo, a Virgem Santíssima, que em toda a sua vida se deixou conduzir pelo Espírito, que vos guie nos caminhos da confiança e da paz para o encontro de seu divino Filho. De todo o coração, concedo a Bênção Apostólica a cada um de vós, aos vossos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos e às religiosas, assim como a todos os fiéis das vossas dioceses.

 

 

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