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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II 
 À COMISSÃO CONJUNTA DO CONSELHO 
DAS CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS 
E DAS IGREJAS DA EUROPA

 

20 de Fevereiro de 1998

 

Senhor Cardeal 
Queridos Irmãos em Cristo

1. Sinto-me feliz em vos receber por ocasião da reunião em Roma do Comité conjunto do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e da Conferência das Igrejas da Europa (KEK). Alegro-me com este encontro fraterno e com as numerosas manifestações de reflexão, de oração e de fraternidade ecuménicas que se realizam regularmente em diferentes países do continente europeu. Na perspectiva do grande Jubileu, para o qual conto com a participação activa de todos os cristãos, a atenção dedicada por todas as Igrejas da Europa à causa do ecumenismo é um sinal encorajador no caminho da unidade dos cristãos.

2. O Concílio Vaticano II deu um renovado estímulo ao movimento ecuménico, ao ressaltar a importância do diálogo entre irmãos, sob a guia do Espírito Santo; é de igual modo necessário que os cristãos manifestem a sua caridade comum e o seu desejo de conversão, a fim de superar as suas infidelidades, fonte e causa de divisão, «em vista de viver de modo mais puro segundo o Evangelho» (Conc. Ecum. Vat. II, Unitatis redintegratio, 3). «O empenho ecuménico deve fundar-se na conversão dos corações e na oração, ambas induzindo depois à necessária purificação da memória histórica» (Ut unum sint, 2). Para remover os obstáculos e os ressentimentos que ainda possam existir, é preciso empenhar-se cada vez mais num ecumenismo da vida e da oração, e seria bom realizar projectos comuns, respeitando as próprias actividades promovidas pelas diversas Confissões cristãs. Graças a uma vida espiritual continuamente afirmada, as pessoas e as comunidades cristãs deixar-se-ão conduzir pelo Espírito, que as levará à verdade completa e as tornará audaciosas nos seus esforços. Hoje mais do que nunca Cristo nos solicita e «a aproximação do fim do segundo milénio incita todos a um exame de consciência e a oportunas iniciativas ecuménicas» (Tertio millennio adveniente, 34). 

3. É consolador que as questões ecuménicas já façam parte integrante dos programas de estudos teológicos nos seminários, nos institutos eclesiásticos de ensino e na formação permanente. Deste modo, todos os que recebem uma formação cristã na sua Igreja estarão atentos ao que pode favorecer a unidade dos cristãos e terão a preocupação de participar nela de modo activo. Ajudarão os seus irmãos a adquirir um melhor conhecimento das outras Igrejas cristãs, o que é indispensável para caminhar na via da fraternidade e da unidade. Alegro-me também pelo facto de serem prosseguidos e intensificados intercâmbios de professores e de estudantes entre os diferentes lugares de formação e entre as confissões cristãs. 

4. Nos vossos encontros e nas reuniões de Bâle e de Graz, manifestastes a vossa preocupação pela aproximação entre o Leste e o Oeste do continente europeu, que durante muito tempo esteve dividido, e ao longo deste século foi ferido. Chamados a superar os seus receios, as comunidades cristãs de diversas confissões estão doravante convidadas a empenharem-se com coragem no caminho rumo à plena unidade, a fazer dom das suas riquezas espirituais e a partilhá-las num intercâmbio confiante. Deste modo, os cristãos abrirão os tesouros da vida espiritual aos homens do nosso tempo que poderão encontrar mais profundamente o Senhor; eles contribuirão também para a união na unidade de todos os filhos de Deus dispersos, segundo a vontade do próprio Cristo (cf. Jo 17, 11-23). Esta partilha levará, sem dúvida alguma, a um respeito cada vez maior das sensibilidades particulares e do andamento pastoral de cada confissão cristã, enraizadas numa história e em tradições específicas. 

5. O programa do vosso encontro comporta o estudo de projectos inovadores, a fim de dar mais ímpeto ao ecumenismo, interrogando-vos sobre o método, os critérios e o conteúdo das novas colaborações a serem empreendidas, à luz das experiências passadas. Graças ao diálogo entre os responsáveis das Igrejas, possa a Europa ser o crisol duma pesquisa cada vez mais intensa de unidade entre os cristãos do continente e, mais amplamente, entre todos os que se encontram espalhados pelo mundo, no respeito da verdade! Juntos, os discípulos de Cristo são convidados a anunciar de modo explícito o Evangelho nas culturas actuais; eles também devem ter a preocupação de oferecer o seu contributo à sociedade, a nível político, económico e social, tornando-se fermento da edificação do continente, no respeito da criação e da autonomia legítima da disposição das realidades terrestres.

A Europa enfrenta actualmente o problema do acolhimento e da integração de populações e comunidades portadoras de outras tradições religiosas, sobretudo do Islã e das religiões asiáticas; as Igrejas cristãs devem manifestar um espírito de abertura confiante e empenhar-se ainda mais no caminho do «diálogo da vida», para o qual já tive a ocasião de convidar os fiéis católicos e os nossos irmãos muçulmanos; este diálogo abre a via do serviço comum dos homens em numerosos âmbitos (cf. Conc. Ecum. Vat. II Unitatis redintegratio, 12). A fim de enfrentar este desafio, trabalhais conjuntamente e favoreceis as colaborações entre os fiéis, para responder aos problemas sociais com os quais os homens de hoje se enfrentam; não se pode esquecer os conflitos que martirizam as populações do nosso continente, as dificuldades económicas que tornam as famílias frágeis, bem como os atentados à dignidade e aos direitos das pessoas e dos povos, em particular os que ferem as mulheres e as crianças. 

«Pai santo, guarda-os em Teu nome, o nome que Me deste, para que eles sejam um... como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti. E para que também eles estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste» (Jo 17, 11.21). Fazemos nossa hoje esta oração do Senhor. Ela recorda-nos que o testemunho da unidade é um elemento essencial duma evangelização autêntica e profunda. Mediante a sua unidade na mesma Igreja, os discípulos de Cristo fizeram descobrir aos seus irmãos o mistério da Santíssima Trindade, comunhão perfeita de Amor. E nós não nos devemos tranquilizar enquanto não conseguirmos, na docilidade ao Espírito Santo, corresponder a esta oração de Cristo: «Para que eles sejam um!». No final do nosso encontro, invoco sobre vós a assistência do Espírito Santo, cujos frutos são «alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si» (Gl 5, 22), e que renova todas as coisas; apresento-vos os meus melhores votos para os vossos trabalhos e invoco sobre vós as Bênçãos divinas, bem como sobre os vossos colaboradores e sobre quantos estão confiados à vossa solicitude pastoral.

 

 

 

 

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