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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS BISPOS CUBANOS

9 de Julho de 1998

 

 

Queridos Irmãos no Episcopado

1. Tenho o prazer de vos receber nesta Audiência, a poucos meses da minha inesquecível viagem ao vosso País. Nessa ocasião pude experimentar de perto o entusiasmo dos cubanos e a riqueza dos valores que adornam esse querido povo. Com as palavras do Apóstolo Paulo, digo-vos que, «tendo ouvido falar da vossa fé no Senhor Jesus e da vossa caridade para com todos os santos, não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações» (Ef 1, 15-16). Ao mesmo tempo, peço ao Senhor da História que cada cubano possa ser protagonista das «suas aspirações e legítimos desejos» e que Cuba «possa oferecer a todos uma atmosfera de liberdade, de confiança recíproca, de justiça social e de paz duradoura » (Discurso no Aeroporto de Havana, 21/1/1998, nn. 2 e 5).

Estou-vos muito grato por todos os esforços que vós, juntamente com os sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos comprometidos, realizastes na preparação da minha visita e no seu posterior desenvolvimento, preocupando-vos também de que não se extingam tantas genuínas esperanças suscitadas na mensagem que vos deixei e que os ensinamentos, que dela brotam, se possam concretizar gradualmente no futuro.

2. Nos quase cinco meses que passaram desde a minha inesquecível Viagem à vossa Nação, vi como o meu convite a que «Cuba, com todas suas magníficas possibilidades, se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba» (ibid., 5), foi acolhido por diversas Nações e Organismos, e que muitas comunidades eclesiais intensificaram os seus desejos e realizações, expressando com gestos concretos a sua solidariedade e manifestando fraternidade com os filhos de Deus que vivem nessa formosa terra. Podeis estar certos de que a Santa Sé e o Sucessor de São Pedro prosseguirão em tudo o que está ao seu alcance, e a partir das peculiaridades da sua missão espiritual, para que essa resposta continue a estender-se e a atenção suscitada por ocasião da minha visita não se desvaneça, mas alcance os frutos esperados pelo povo cubano.

Neste sentido, apreciei também os gestos que, após o meu regresso a Roma, as autoridades cubanas realizaram. Quero ver neles a oferta e as primícias da sua disposição a criar espaços legais e sociais, para que a sociedade civil cubana possa crescer em autonomia e participação, e o Povo possa ocupar o lugar que, por direito próprio, lhe corresponde na região e no concerto das nações.

3. A abertura desejada não se limita a um simples melhoramento das relações internacionais, que tendam a promover um processo de interdependência solidária entre os povos, no actual contexto de globalização. Trata-se, antes de tudo, de uma disposição interior em cada um, de modo que a renovação da mente e a abertura do espírito levem a uma verdadeira conversão pessoal, favorecendo assim um processo de melhoramento e mudança também nas estruturas sociais. A respeito disso, já desde a minha chegada ao solo cubano, eu disse: «Não tenhais medo de abrir os vossos corações a Cristo, deixai que Ele entre nas vossas vidas, nas vossas famílias, na sociedade, para que assim tudo seja renovado. A Igreja repete este apelo, convocando todos sem excepção: pessoas, famílias e povos para que, seguindo fielmente Jesus Cristo, encontrem o sentido pleno das suas vidas, se ponham ao serviço dos seus semelhantes, transformem as relações familiares, de trabalho e sociais, o que redundará sempre em benefício da Pátria e da sociedade» (ibid., 4), e repeti em Santa Clara: «Não tenhais medo, abri as famílias e as escolas aos valores do Evangelho de Jesus Cristo, que nunca são um perigo para nenhum projecto social» (Homilia, 4).

Os homens e as nações, superando fronteiras ideológicas, históricas ou partidárias, que não permitem o crescimento da pessoa humana em liberdade e responsabilidade, hão-de tornar possível que a verdade, aspiração íntima de todo o ser humano, seja buscada com honestidade, encontrada com alegria, anunciada com entusiasmo e compartilhada com generosidade por todos, sem limitações arbitrárias nas liberdades fundamentais, como são, por exemplo, a reunião e a associação. Isto facilita à sociedade o acesso a um estado de convivência presidido pela confiança mútua, a participação, a solidariedade e a justiça. Neste sentido, Cuba é chamada a encarnar e viver a sua própria identidade, que tem raízes profundamente cristãs, encaminhando-se para a transparência, a abertura e a solidariedade.

4. A Igreja católica em Cuba, da qual vós sois os legítimos Pastores, é uma comunidade viva que promove o amor e a reconciliação e difunde a verdade que brota do Evangelho de Jesus Cristo, oportuna e inoportunamente (cf. 2 Tm 4, 2). A Igreja faz parte notável não só da história pátria, mas do presente e é, de certo modo, co-responsável pelo futuro juntamente com outras instâncias. Com o seu trabalho quotidiano, «no meio das perseguições do mundo e dos consolos de Deus» (S. AGOSTINHO, De Civ. Dei, XVIII, 51, 2), contribui para o enriquecimento de toda a sociedade, e não só dos crentes, pois trabalha para alimentar a espiritualidade de cada homem, a vivência dos valores mais altos e a fraternidade entre os homens. Por isso, quando a Igreja é reconhecida e pode contar com os espaços e os meios suficientes para realizar a sua missão, toda a sociedade é beneficiada. O Estado, ainda que seja leigo, ao procurar o bem integral de todos os seus cidadãos, deve reconhecer essa missão e garantir esses espaços.

A Igreja que vive em cada nação apresenta-se como «o novo Povo de Deus» que, «embora não abranja de facto todos os homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno rebanho, é, contudo, para todo o género humano o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação» (Lumen gentium, 9). 5. Vós, queridos Irmãos no Episcopado, «fostes constituídos pelo Espírito Santo que vos foi dado, verdadeiros e autênticos mestres na fé, pontífices e pastores» (Christus Dominus, 2), dedicando-vos por isso ao cuidado habitual e quotidiano dos fiéis (cf. Lumen gentium, 27) e encontrando nele a sua alegria e a sua realização. Exorto-vos a vivê-lo como autênticos ministros da reconciliação (cf. 2 Cor 5, 8), de modo que a mensagem que deixei em Cuba possa ter continuidade e produzir abundantes frutos sob a vossa guia.

Nesta hora histórica da vida nacional, a partir da vossa condição de Pastores, deveis assumir os desafios derivados da minha Visita pastoral. Não falte nunca a vossa voz, que é a voz de Cristo que vos enviou e consagrou para o Seu serviço! O vosso trabalho seja reconhecido como o dos verdadeiros interlocutores e autênticos Pastores da Igreja que peregrina nessa amada Nação! Que todos vejam em vós os «mensageiros que anunciam a paz» (Is 52, 7), tal como vos dizia no meu encontro em Havana, numa mensagem programática que mantém íntegra a sua vigência.

O exercício do vosso ministério é às vezes pesado e traz sempre o sinal da cruz de Cristo. Não vos desanimeis diante dele, perseverai na oração, apresentai no altar do Senhor os sacrifícios e as incompreensões que comporta o exercício corajoso e audaz da missão cultual, profética e caritativa, que vos foi confiada. Nesse caminho não estais sozinhos: assiste-vos a força do Espírito Santo, à qual se unem a solidariedade e o afecto de toda a Igreja, assim como a oração do Vigário de Cristo. Peço de igual modo a Deus, Senhor da messe, não só que envie quanto antes novos trabalhadores para o Seu campo, como necessita a Nação cubana, mas também multiplique as iniciativas, a criatividade e a disponibilidade dos sacerdotes, religiosos e religiosas que, com generosidade e dedicação, trabalham em Cuba, de modo que a evangelização seja nova não só no seu ardor, nos seus métodos e na sua expressão, mas também nas suas projecções, inculturando o Evangelho em todos os ambientes da vida pessoal e social.

6. Na minha visita a Cuba tive a oportunidade de recordar alguns aspectos do «evangelho social». Os fiéis leigos devem responder com maturidade, perseverança e audácia aos desafios da aplicação da Doutrina Social da Igreja à vida económica, política e cultural da Nação. Nesse sentido os fiéis são chamados a participar na vida pública, com pleno direito e em igualdade de oportunidades, para darem a sua própria contribuição ao progresso nacional e participarem com generosidade na reconstrução do País, tendo acesso aos diversos sectores da vida social, como a educação e os meios de comunicação social, dentro de um contexto legal adequado.

Os cristãos em Cuba devem participar na busca do bem comum, oferecendo a sua consciência crítica, as suas capacidades e até oferecendo os seus sacrifícios, a fim de propiciarem as transformações de que o País necessita nesta hora, com o concurso de todos os seus filhos.

A verdadeira dignidade do homem encontra-se na verdade revelada por Cristo. Ele é a luz do mundo e aquele que cresce n'Ele não caminha nas trevas (cf. Jo 12, 46). Por isso, o ofuscamento da luz, a mentira pessoal e a astúcia social devem ser superados pela cultura da verdade, de maneira que, ao respeitar profundamente cada pessoa e cada cultura, se anuncie a convicção de que a plenitude da vida se alcança quando se transcende a marca dos materialismos e se acede à Luz inefável e transcendente, que nos liberta de todo o egoísmo.

7. A chuva no momento da minha despedida, quando eu deixava o solo cubano, trouxe à minha memória o hino «Rorate caeli», pedindo que as sementes lançadas com sacrifício e paciência por todos vós, Pastores e fiéis, crescessem com vigor e Cuba pudesse abrir de par em par as suas portas ao poder redentor de Cristo, para que todos os cubanos pudessem viver um novo advento na sua história nacional.

Ao regressardes à Ilha, fazei presentes a todos os cubanos o afecto e a proximidade do Papa. Tende a certeza de que «dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós. Em todas as minhas orações peço sempre com alegria por todos vós... Estou persuadido de que Aquele que começou em vós a boa obra a completará... É justo que eu alimente estes sentimentos por todos vós, porque vos trago no coração... Deus me é testemunha de quanto vos amo a todos com a ternura de Jesus Cristo. Por isso é que Lhe peço que a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e em inteligência» (Fl 1, 3-10).

À Virgem da Caridade do Cobre, Mãe de todos os cubanos, ao recordar com emoção o momento em que lhe cingi a coroa que os seus filhos lhe ofereceram, apresento os bons votos e esperanças, as alegrias e as tristezas de todos eles, ao mesmo tempo que com afecto vos concedo de coração uma especial Bênção Apostólica.

 

 

 

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