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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS FIÉIS ALEMÃES POR OCASIÃO
DO 93° "KATHOLIKENTAG"
REALIZADO EM MOGÚNCIA
(ALEMANHA)

 

 

Ao meu venerado Irmão Karl Lehmann
Bispo de Mogúncia e Presidente da Conferência Episcopal da Alemanha
Venerados Coirmãos no Episcopado
Estimados Irmãos e queridas Irmãs

 

1. «Dai a razão da vossa esperança!». Com este mote, inaugurastes em Mogúncia a 93ª edição do «Katholikentag» alemão. De Roma, saúdo todos quantos se reuniram para celebrar o ofício divino no «Volkspark» de Mogúncia e quantos participaram nessa solenidade através da rádio e da televisão. Envio uma saudação especial a Vossa Excelência, estimado D. Karl Lehmann, pois é na sua Diocese que este encontro tem lugar. Além dos seus compromissos de Presidente da Conferência Episcopal nacional e de colaborador ao serviço da Igreja que está no mundo inteiro, Vossa Excelência empenhou-se com generosa solicitude apostólica em benefício do bom êxito deste «Katholikentag». Mediante a sua pessoa, saúdo inclusivamente todos os Bispos da Alemanha e de cada um dos países da terra que nestes dias chegaram a Mogúncia.

2. A recordação repleta de gratidão constitui um importante manancial de esperança. Na memória da Igreja que está na Alemanha, Mogúncia ocupa um lugar de honra, pois precisamente no século II os cristãos lançaram, na região do curso médio do Reno, os fundamentos de uma história luminosa da qual Mogúncia, cidade episcopal e Diocese, justamente deveria orgulhar-se. Pastores excepcionais como Bonifácio, Willigis e Rabano Mauro presidiram à então Metrópole da Alemanha.

Eu mesmo tenho um relacionamento particular com essa Diocese. Efectivamente, conservei no meu coração numerosas recordações pessoais de Mogúncia e da mensagem de D. Ketteler, cujo túmulo pude visitar quando ainda era estudante. Permaneceu particularmente viva a memória da minha estadia nessa cidade há cerca de vinte anos, ocasião em que o Bispo de então, Cardeal Hermann Volk, a quem eu estava ligado por laços de amizade, me deu as boas-vindas.

3. Há cento e cinquenta anos, ali em Mogúncia foram escritas as primeiras páginas dos «Katholikentag». A primeira assembleia deste género foi o fruto de uma renovação eclesial que havia reforçado de tal modo a autoconsciência dos católicos, a ponto de lhes permitir encontrar a coragem de se contraporem activamente ao mundo secular e a um Estado não raro hostil. Neste ano, mediante várias comemorações, evocam-se aqueles problemas candentes: desta forma, a reunião nacional que em 1848 se realizou na igreja de São Paulo em Francoforte, susteve a busca de unidade e de liberdade na sociedade alemã, mas também a tentativa de realizar os direitos do homem e de resolver as problemáticas sociais. Os católicos adquiriram uma nova consciência da própria missão de intervir na vida social e, desta forma, de ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16). Muitos se reuniram em associações.

Nesse mesmo ano, quando foi publicado o Manifesto comunista de Marx e de Engels, e a Europa experimentou uma onda de revoluções, também a fé católica se manifestou externamente, através de outro movimento. Em 1848, o primeiro «Katholikentag » em Mogúncia, e inclusive o VI centenário da Catedral de Colónia, foram testemunhos evidentes e eficazes de um catolicismo que se ia revigorando cada vez mais.

Cem anos mais tarde, Mogúncia foi de novo o lugar em que o primeiro «Katholikentag » do pós-guerra conseguiu oferecer preciosas pedras a muitas pessoas que se encontravam debaixo das ruínas, para construírem um porvir social, económico e eclesial. O tema, «Cristo na necessidade do tempo», interpelou os vossos concidadãos no profundo do seu coração e fez com que pudessem encontrar renovada coragem e nova esperança para continuarem a progredir. Desse «Katholikentag» brotaram algumas vocações ao sacerdócio e à vida religiosa.

Agora reunis-vos de novo para abordar os desafios que os cristãos devem enfrentar depois de quase dois mil anos de história, se quiserem não só preservar a herança da fé no próximo milénio, mas também lhe dar testemunho às próximas gerações, com vigor e vitalidade. Desejo recordar-vos as palavras do Padre jesuíta Ivo Zeiger, no seu discurso de abertura do «Katholikentag» de 1948: «A Alemanha tornou-se uma terra de missão». Milhões de pessoas na própria vida não contam mais com Deus, «nem sequer O contrastam, mas simplesmente já não O têm em conta».

4. Cinquenta anos separam aquela análise do período do jubileu centenário do «Katholikentag» cujo mote, tendo em vista a hodierna «Alemanha missionária», reza assim: Dai a razão da vossa esperança! Este foi tirado da primeira Carta de Pedro, que o Apóstolo formulou da seguinte forma: «Reconhecei Cristo como Senhor [nos vossos corações], estando sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vos perguntar» (1 Pd 3, 15).

Não só no período da reconstrução, mas também nos nossos dias a esperança diz respeito a bens que não se podem comprar com o dinheiro. Com efeito, de que nos serve ter muito, se não sabemos quem somos e por que vivemos? Os pensamentos e os sentimentos do homem são determinados por muitas preocupações, inseguranças, temores e previsões vagas. A confiança cega no progresso cede à decepção. Os desenvolvimentos sociais, por detrás dos quais estão os destinos pessoais, como a elevada taxa de desemprego e a hostilidade para com os estrangeiros, suscitam muita incerteza nos corações. Emergem interrogativos alarmantes: os progressos alcançados pela ciência e pela técnica correspondem também ao desenvolvimento moral e espiritual? Crescem acaso entre os homens o amor pelo próximo e o respeito pelos direitos do outro? Ou então sobrepõem-se os egoísmos no mundo pequeno e grande?

A Igreja deve manter com todos os homens de boa vontade um diálogo a respeito destes interrogativos. A este propósito, os «Katholikentag» constituem um fórum adequado. Precisamente os leigos estão empenhados de modo particular nesta tarefa. Agradeço aos promotores dos «Katholikentag» os esforços realizados. Peço sobretudo à Comissão central dos católicos alemães e aos Bispos, sacerdotes e leigos que falem e se comportem de maneira unânime neste importante testemunho, assegurando a profunda união com o Sucessor de Pedro e com a Igreja do mundo inteiro, que tão expressivamente se encontra congregada junto de vós. Dai a razão da vossa esperança!

Uma vez que em muitos lugares a esperan ça não é mais uma árvore frondosa, mas com frequência apenas uma ténue plantazinha, que pode ser pisoteada rapidamente no tumulto de um mundo febril, peço-vos que proponhais o Evangelho da esperança ao vosso próximo nos vários sectores da vida, de forma que a planta se possa revigorar ou germinar e reflorescer. Não conheço qualquer lugar que, com a ajuda de Deus e graças à solicitude do homem, não possa tornar-se um biótopo da esperança. Com efeito, há sempre lugar para a esperança: na família e nas amizades, nos bairros urbanos e nas aldeias, nas escolas e nos escritórios, nas fábricas e nos hospitais. Recordo-vos que a primeira forma de testemunho é a vida, pois «o homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos factos do que nas teorias» (Redemptoris missio, 42).

5. Se cada vez mais mulheres e homens testemunharem fielmente o Evangelho, então este será um serviço para a inteira sociedade, que não só tem fome e sede de justiça, mas aspira inclusive a uma esperança que vá para além do efémero e do visível. No contexto social contemporâneo, que se caracteriza por um dramático combate entre a «cultura da vida» e a «cultura da morte», exorto-vos como meus aliados a contribuir para edificar também na vossa honrada terra uma nova cultura da vida (cf. Evangelium vitae, 95). Somente aqueles que se tornam conscientes da dignidade inalienável de cada pessoa, respeitando-a da maneira mais absoluta, podem servir a vida em todas as suas fases. Efectivamente, ninguém é um caso sem esperança.

6. A edificação de uma cultura da vida tem início na nossa casa, na Igreja. Devemos perguntar-nos, com coragem e honestidade, que cultura da vida se promove entre nós, entre os cristãos singularmente, nas famílias, nos grupos, nos movimentos espirituais, nas paróquias e nas dioceses. As decisões concretas a níveis pessoal, familiar e social devem ter como parâmetro a prioridade do ser sobre o ter, da pessoa sobre as coisas e da solidariedade sobre o egoísmo, o que não raro exige a coragem de um novo estilo de vida.

Isto repercute-se também em um diálogo sincero, fundamentado na verdade e no amor. Quando falamos da Igreja como communio em relação ao Concílio Vaticano II, não podemos limitar-nos apenas à comunhão sacramental; devemos comprometer-nos em uma comunicação digna de quantos vivem na comunidade do Deus Uno e Trino.

7. Exprimo um particular reconhecimento às numerosas mulheres e homens que, nas Igrejas particulares do vosso País, descobriram há já muito tempo e vivem de maneira credível a própria dignidade e tarefa de leigos, duplicando os talentos que Deus lhes concedeu. Estas são as melhores cartas de Cristo (cf. 2 Cor 3, 3) para um mundo que anela a uma esperança segura. Os leigos são chamados a consagrar-se em particular para serem testemunhas na sociedade e «contribuírem a partir do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo» (Lumen gentium, 31).

Exorto os Bispos, os sacerdotes e os diáconos a tecerem, na estima recíproca, com benevolência e disponibilidade à colaboração, uma rede que vincule todos nós na esperança que é Jesus Cristo. Que imagem convincente e persuasiva daria a Igreja se se tornasse cada vez mais uma rede de esperança, capaz de nela incluir também quem cedeu às tentações do mundo!

8. Durante os «Katholikentag», numerosos jovens contribuíram para entretecer esta rede de esperança. Dirijo-lhes uma saudação particularmente afectuosa. Com a vossa presença, manifestais a esperança em Cristo. Tenho confiança em vós e exorto-vos: sede a esperança da Igreja! Oxalá consigais conferir um rosto jovem à Igreja do terceiro milénio!

A Igreja olha para vós com simpatia e compreensão. Espera muito de vós. Não só a Igreja tem muito a vos dizer, jovens, mas também vós queridos jovens tendes muito a dizer à Igreja (cf. Christifideles laici, 46). Sei que o vosso coração está aberto à amizade, à fraternidade e à solidariedade. Empenhais-vos em benefício das causas da justiça e da paz, da qualidade de vida e da salvaguarda do meio ambiente. Todavia, realizais também dolorosas experiências, como a desilusão, a miséria, o medo e a tentativa de saciar a sede interior e mais profunda com prazeres superficiais.

Dou-vos um conselho: escutai o vosso íntimo e senti aquilo que Deus vos quer dizer mediante as suas palavras e a voz da consciência. Compartilhai as vossas experiências de esperança. Uma vez que vos preparais para cruzar o limiar do terceiro milénio, perscrutai no vosso coração e descobri qual é o projecto que o Senhor reserva para vós e de que maneira podeis concretizá-lo com determinação.

9. Pouco tempo nos separa dessa data. Não é breve o trecho do caminho que percorremos no ecumenismo, depois do Concílio Vaticano II. Além de adequadas iniciativas ecuménicas, os passos que ainda nos aguardam exigem uma oração fervorosa, uma vontade orientada para a mudança, um cuidadoso trabalho teológico e uma perseverança espiritual.

Desta forma, poderemos chegar ao Grande Jubileu, se não em completa unidade, pelo menos com a certeza de estarmos mais perto da superação da divisão do segundo milénio (cf. Tertio millennio adveniente, 34). O próximo Ano Santo deveria levar todos nós a dar um testemunho comum mais sólido da verdade fulcral da nossa fé, «a fim de que o mundo acredite» (Jo 17, 21).

10. Estimados Irmãos e Irmãs, para descrever melhor o testemunho eclesial, os Padres da Igreja recorrem frequentemente a uma imagem eficaz. Da mesma forma que a lua recebe a luz do sol do dia e resplandece na escuridão da noite, assim também a Igreja deve receber e irradiar a luz de Cristo na obscuridade do mundo. Todavia, a lua só pode haurir a força de brilhar, se nascer e morrer continuamente, segundo os ritmos dos tempos; se, colma como é, mergulhar na escuridão, para depois voltar a ser cheia e resplandecente.

Enquanto nesta imagem Jesus Cristo é o sol, a Igreja interpreta o papel da lua. No decurso do tempo, nem sequer a esta se poupa a experiência de dever constantemente «abaixar», para voltar a resplandecer. Algo do seu aspecto histórico deve ser purificado pelo Espírito Santo, de tal forma que esta possa irradiar a luz de Cristo. Com a assistência de Deus, somente a disponibilidade a entrar na escuridão da história, embora talvez uma parte do seu aspecto exterior tenha que morrer, lhe permitirá superar a obscuridade e as sombras, as derrotas e os malogros. A este propósito, penso na luz do círio pascal: a pequena e frágil chama dissipa as trevas. Vence a morte.

«O Deus da esperança vos encha de completa alegria e paz na fé, para que transbordeis de esperança, pela força do Espírito Santo» (Rm 15, 13). Com estes sinceros bons votos, que Paulo o Apóstolos dos Gentios dirigiu aos Romanos, concedo-vos de coração a minha Bênção Apostólica.

 

Vaticano, 14 de Junho de 1998.

 

 

 

 

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