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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 À 44ª ASSEMBLEIA PLENÁRIA
DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA (CEI)

21 de Maio de 1998

 

 

Caríssimos Irmãos no Episcopado!

1. O tema principal da vossa Assembleia Plenária é precisamente o Espírito Santo, que Jesus ressuscitado concedeu aos Apóstolos desde o início e que também agora está presente e operante nas nossas Igrejas, impelindo-as sem cessar pela via da missão.

Sinto-me profundamente feliz por este nosso habitual e familiar encontro que, no sinal da comunhão, me consente participar mais de perto nas vossas concretas solicitudes pastorais. Saúdo e agradeço ao Cardeal Camillo Ruini, vosso Presidente, juntamente com os outros Cardeais italianos. Saúdo os Vice-Presidentes, o Secretário-Geral e cada um de vós, venerados e caros Irmãos no Episcopado, agradecendo convosco ao Senhor pelos dons que Ele não se cansa de nos conceder. Na Sua companhia, até mesmo as fadigas e as cruzes do serviço apostólico se tornam suaves e leves de ser carregadas (cf. Mt 11, 28-30).

2. Este segundo ano de imediata preparação para o Grande Jubileu é dedicado ao Espírito Santo porque, como eu já escrevia na Encíclica Dominum et vivificantem (n. 51), «aquilo que "na sua plenitude dos tempos" se realizou por obra do Espírito Santo, só por sua obra pode emergir agora da memória da Igreja» e «pode tornar-se presente na nova fase da história do homem sobre a terra». Esta nova fase porém, caros Irmãos, é para nós principalmente tempo de missão e, na situação actual da Itália, tempo de nova evangelização.

Alegro-me convosco porque nestes últimos anos soubestes dar crescente concretitude a esta grande tarefa da nova evangelização, antes de tudo através da iniciativa do projecto cultural orientado em sentido cristão, que é em primeiro lugar um projecto de evangelização das várias culturas, a fim de que Jesus Cristo seja o ponto de referência decisivo dos pensamentos e dos comportamentos pessoais e sociais.

Além disso, sob o sopro do Espírito estão a multiplicar-se nas Dioceses italianas novas propostas e formas de acção missionária, a começar por aquela que teve início aqui em Roma com o nome de «Missão da Cidade». O seu intento comum é suscitar no inteiro povo de Deus, na variedade das suas componentes, incluindo a pleno título os leigos, uma consciência mais viva e mais precisa do mandato missionário que nos vem de Deus Pai, através de Cristo ressuscitado. Percebe-se a urgência de encontrar as vias mais eficazes e praticáveis para actuar este mandato em relação a cada pessoa ou família individualmente, assim como aos ambientes de trabalho e de vida, às escolas e às Universidades, aos meios de comunicação social, aos hospitais e às muitas situações de pobreza e marginalização. Caros Irmãos no Episcopado, a confiança e as expectativas do Papa são grandes no que concerne a estas novas formas de missão.

3. Nesta mesma perspectiva de evangelização, recordamos com gratidão ao Senhor o extraordinário evento do Congresso Eucarístico Nacional, quando pude encontrar-me com a maioria de vós em Bolonha. Aquele Congresso, de facto, expressou com singular eficácia a centralidade e a fecundidade da Eucaristia na vida da comunidade eclesial, e também em todos os âmbitos de acção e responsabilidade.

Outro encontro que de bom grado recordo é o Dia Mundial da Juventude, celebrado em Paris em Agosto passado: também naquela circunstância estavam presentes muitos de vós, juntamente com cem mil jovens italianos ricos de fé e entusiasmo. O Congresso Eucarístico Internacional e o Dia Mundial da Juventude, que terão lugar em Roma durante o Ano Santo, querem pôr-se em ideal continuidade com os acontecimentos de Bolonha e de Paris, como momentos fortes do caminho de uma Igreja que deseja estar, de modo cada vez mais profundo, unida com o seu Senhor e, precisamente assim, sempre mais capaz de penetrar no coração da humanidade contemporânea, para a conduzir ou reconduzir a Cristo. O Grande Jubileu, para o qual sei que sob a vossa guia as Dioceses italianas estão a preparar-se com alegria, é deveras o tempo e o momento favorável (cf. 2 Cor 6, 2), a fim de que a memória do nascimento do nosso único Salvador seja para todos nós princípio de conversão e missão.

4. Objecto de reflexão da vossa Assembleia é também, caros Irmãos, a pastoral da mobilidade humana, na dúplice vertente do cuidado daqueles que batem às portas da Itália em busca de condições de vida mais aceitáveis, e da assistência espiritual às numerosas comunidades italianas que residem e trabalham no estrangeiro. Também estas dimensões da pastoral, ambas irrenunciáveis, devem ser desenvolvidas numa perspectiva plenamente evangélica. Isto requer atenção, solidariedade e prontidão de serviço para com as pessoas e as famílias nas suas múltiplas necessidades e dificuldades, especialmente em relação ao trabalho, à habitação e à assistência médica. Não menor solicitude deverá ser usada em relação à fé e à vida espiritual, quer dos italianos no estrangeiro quer dos muitos imigrados católicos na Itália, jamais renunciando aliás a propor, com amor e respeito, a palavra de salvação do Evangelho a todos aqueles que a Providência de Deus conduz para estas terras.

Um ulterior argumento dos vossos trabalhos é o empenho da Igreja italiana no âmbito da emissora televisiva. Estou muito contente por terdes a coragem e a clarividência de assumir uma iniciativa de amplo alcance, neste campo tão relevante para a evangelização e a formação das mentalidades e dos comportamentos. Faço votos e espero que, também através da cordial colaboração dos vários meios de comunicação de inspiração cristã, nacionais e locais, entre os quais me é caro recordar o óptimo serviço prestado pelo jornal «Avvenire» e também pelos outros jornais católicos, possa ser oferecida a todos uma interpretação cristã da vida e dos eventos de maneira sempre mais concreta.

5. Venerados Irmãos no Episcopado, é-me grato confirmar e renovar, nesta feliz circunstância da nossa reunião, aquela confiança e expectativa que muitas vezes expressei a respeito da Igreja e da Nação italiana, e que agora tem uma específica actualidade em relação aos passos que estão a ser dados na construção da unidade europeia. Com efeito, agora mais do que antes, a Itália é chamada a dar todo o próprio contributo para que na nova Europa que se está a construir, a fé cristã seja fermento vivificante e amálgama unificador. E é evidente que, para poder cumprir esta tarefa, a Itália deve manter vivo e operante, antes de tudo no próprio interior, aquele património religioso e cultural que está presente nestes lugares desde o testemunho e o martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo.

Nesta fase de rápidas mudanças em que se procura, não sem fadigas e contrastes, reelaborar as ordens institucionais, sociais e económicas deste País no contexto europeu, compartilho de coração a vossa preocupação e insistência a fim de que o trabalho, factor decisivo da promoção da pessoa e da sociedade, seja defendido e incrementado, encontrando remédios novos e eficazes para a sua falta, muitas vezes gravíssima. Tendo como base a aprofundada inteligência da fé, a Comunidade cristã deverá, com maior energia e renovada criatividade, empenhar-se activamente em estabelecer formas novas de iniciativa, partilha e apoio. A especial atenção aos pobres, aos pequeninos e aos jovens deve ser actualizada, identificando com coragem as modalidades ainda inexploradas de participação, para que com o emprego seja ao mesmo tempo oferecida uma ulterior perspectiva de esperança e confiança.

A caridade operosa não se canse de procurar vias para que as necessidades de cada um sejam aliviadas pela solidariedade de todos, segundo o exemplo da primeira Comunidade cristã (cf. Act 2, 42ss. e 4, 34•ss.). A respeito disso, a minha recordação afectuosa e a minha oração dirigem-se de novo, de modo particular, às populações da Campânia, tão duramente provadas pela recente calamidade natural.

Entretanto é claro que, no contexto de uma economia sempre mais aberta, adquire importância crescente uma autêntica e concreta actuação do princípio de subsidiariedade, que consinta valorizar de modo mais completo as inúmeras energias e capacidades de iniciativa, de que é rica a sociedade italiana.

6. O recurso mais precioso e importante, para o presente e o futuro da Itália, é representado em concreto pela família. Contudo, também ela é mais insidiada e ameaçada, tanto na sua própria estrutura fundamental como nos seus direitos e deveres. Portanto estou ao vosso lado, caros Irmãos, nas iniciativas que não vos cansais de promover, a fim de que a pastoral familiar se torne sempre mais um eixo fundamental da acção da Igreja e possa atingir, nas suas efectivas condições de vida, o mais amplo número de famílias.

De igual modo são indispensáveis a elaboração e a difusão de uma cultura favorável à família e à vida, e um empenho coerente e corajoso para desenvolver políticas sociais verdadeiramente atentas ao papel da família na realidade italiana e também para garantir o respeito da norma constitucional (art. 29), com a qual a República italiana «reconhece os direitos da família como sociedade natural fundada sobre o matrimónio»: muitas são de facto as propostas de lei, as deliberações administrativas e os pronunciamentos judiciários que, na realidade, se põem em contraste com estes direitos fundamentais. Encorajo de coração, portanto, todas as forças culturais, sociais e políticas, e de modo especial as próprias organizações das famílias, a empenharem-se neste difícil desafio, decisivo para o rosto que a Itália deverá assumir.

Na sua irrenunciável tarefa educativa a família é coadjuvada pela escola, à qual se dirige também a nossa solícita atenção de Pastores. Estamos profundamente interessados e preocupados, caros Irmãos no Episcopado, por toda a escola italiana, que para um sério impulso qualitativo tem necessidade de ser concretamente reconhecida, quanto a isto, como um bem prioritário da Nação inteira. Estamos preocupados, de maneira especial e grave, pelas escolas livres, e entre essas pelas escolas católicas, às quais na Itália ainda não é reconhecida aquela efectiva paridade que, no entanto, é uma realidade positiva e consolidada noutros Países europeus. Pedimos por isso, com vigor e urgência, que seja finalmente superada esta infeliz anomalia, que não dignifica a Itália.

Venerados Irmãos Bispos italianos! Neste mês dedicado à Virgem confiemos a Ela, que é a nossa Confiança e Esperança, os votos e os anseios dos nossos corações.

Deus abençoe cada um de vós e as Igrejas que vos estão confiadas. Abençoe o Povo italiano, o defenda das insídias e dos perigos, ilumine o seu caminho para o alvorecer do Terceiro Milénio, sustente os passos dos anunciadores do Evangelho que trabalham para reavivar a sua fé e confirmar a sua esperança.

 

 

 

 

 

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