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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SENHOR  TIBAMANYA MWENE MUSHANGA
EMBAIXADOR DE UGANDA
JUNTO À SANTA SÉ POR OCASIÃO
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
 

Quinta-feira, 28 de Maio de 1998

 

Senhor Embaixador

Sinto-me feliz por lhe dar as boas-vindas ao Vaticano e aceitar as Cartas Credenciais com que Vossa Excelência é nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República de Uganda junto da Santa Sé. Profundamente grato pelos bons votos que Vossa Excelência me comunicou da parte do seu Presidente, Sua Excelência o Senhor Yoweri Museveni, peço que lhe transmita as minhas saudações. Com viva memória da minha Visita pastoral ao seu País em 1993 e da generosa hospitalidade que então me foi reservada, aproveito esta oportunidade para renovar ao querido povo de Uganda a certeza das minhas orações para que continue a trabalhar com sabedoria em prol do desenvolvimento da sua terra e da paz e justiça na África inteira.

É com satisfação que podemos observar inúmeros sinais de progresso e estabilidade a nível geral no seu continente; efectivamente, é com particular bom êxito que se consegue superar boa parte da desordem, tensão e derramamento de sangue dos tempos passados. Contudo, não podemos subestimar o facto de que determinadas regiões da África continuam a sofrer sob a cruel e destruidora sombra do conflito e da agressão, pondo em evidência que nem todas as ameaças à paz foram superadas. Nem sequer o seu país foi poupado das novas ondas de violência que, inflamando-se aqui e ali, continuam a afligir as populações e os Estados. Assim, observamos que ainda são fortes o desejo de manter vivas as antigas inimizades e a tentação de nutrir as injustiças do passado. É por este motivo que os povos, os governos e as organizações internacionais devem unir as próprias forças e trabalhar juntos em vista de substituir a discórdia pelo diálogo e a reconciliação. Uma grande contribuição a esta tarefa seria o desenvolvimento de mecanismos práticos para a promoção de um intercâmbio honesto entre as diferentes partes envolvidas numa disputa, aproximando as facções e trabalhando com determinação para ajudar os povos divididos pelos ressentimentos e pela má vontade a redescobrirem as vantagens da coexistência pacífica e harmoniosa.

Talvez o maior desafio aqui esteja a nível da educação, pois uma sociedade que procura ser verdadeiramente civilizada e deseja contribuir para o progresso dos povos deve cultivar em todos os seus membros uma compreensão objectiva e aberta em relação aos outros. Tal compreensão é inestimável quando se quer ajudar as pessoas a aceitar as tradições sociais, culturais e religiosas que são diferentes da sua. Além disso, constitui deveras o primeiro passo rumo à reconciliação, dado que «o respeito das diversidades constitui uma condição necessária e uma dimensão qualificativa de relações autênticas entre indivíduos e entre colectividades» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1997, n. 3). Os conflitos violentos e a agressão armada, mesmo quando parecem resolver os problemas que se apresentam, só conseguem exacerbar as dificuldades e disseminar mais tragédia e destruição.

 É por este motivo que em toda a parte do mundo a Santa Sé encoraja os povos e os seus governos a superarem a «cultura da guerra» e a rejeitarem o círculo vicioso da morte e da violência. A própria Igreja está profundamente preocupada com a dimensão social da vida humana, que constitui uma parte fundamental da mensagem cristã (cf. Centesimus annus, 5); assim, ela convida os seus membros a participarem de maneira activa na vida política, económica e social dos seus respectivos países, e a impregnarem estas mesmas áreas com a luz da fé e a mensagem evangélica da reconciliação e do perdão.

Pois bem, os requisitos da justiça são tais que os erros cometidos e os males feitos devem ser reconhecidos e reparados. Todavia, a justiça humana encontra o seu derradeiro fundamento na lei de Deus e no Seu plano de salvação para a humanidade (cf. Dives in misericordia, 14). Portanto, a justiça não se limita em determinar o que é correcto entre as partes em conflito, mas procura sobretudo restabelecer o autêntico relacionamento com Deus, com os outros e consigo mesmo. Por este motivo, não há contradição entre o perdão e a justiça; o perdão não diminui os requisitos da justiça, mas procura reintegrar os indivíduos e os grupos na sociedade, e os Estados na comunidade das Nações, mediante um renovado sentido de responsabilidade e, onde é possível, de solidariedade com as vítimas das injustiças do passado.

Eis por que todas as pessoas são chamadas a procurar a reconciliação e a trabalhar juntas para edificar uma sociedade em que a dignidade da pessoa humana e o respeito pelos direitos do homem sejam a norma de conduta para todos – os indivíduos, os governos e os organismos internacionais. A África mesma, haurindo nos seus valores e tradições mais nobres, tem a força e a inspiração de crescer em solidariedade, justiça e reconciliação; os próprios africanos podem ajudar-se uns aos outros no progresso rumo a uma vida melhor, edificando uma sociedade mais livre e fraterna no seu continente.

Vossa Excelência apresentou várias prioridades que o seu governo se propôs para si mesmo, enquanto procura levar Uganda para uma nova era de paz e prosperidade. Vossa Excelência encontrar á nos fiéis católicos do seu país participantes solícitos na segurança da realiza ção concreta destas prioridades, particularmente da promoção e da salvaguarda dos direitos humanos, da democratização das instituições governamentais, do socorro à pobreza e da maior disponibilidade dos serviços educativos. Através da rede de escolas e de programas assistenciais da Igreja, os sacerdotes, os religiosos e os leigos hão-de continuar a trabalhar em Uganda para o bem-estar de todos os seus concidadãos – de modo especial da geração mais jovem, que constitui o maior recurso do seu país.

Senhor Embaixador, no início da sua missão transmito-lhe os meus melhores votos, assegurando-lhe que os vários departamentos da Santa Sé cooperarão no que lhes for possível, enquanto o Senhor Embaixador desempenhar as suas altas responsabilidades. Sobre Vossa Excelência e sobre o povo de Uganda, invoco as abundantes bênçãos de Deus Omnipotente.

 

© Copyright 1998 - Libreria Editrice Vaticana

 

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