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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR
MOSES MUSONDA EMBAIXADOR DA ZÂMBIA JUNTO À SANTA SÉ POR
OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
Quinta-feira, 28 de Maio de 1998
Senhor Embaixador
No momento em que Vossa Excelência me consigna as Cartas
Credenciais mediante as quais é nomeado Embaixador Extraordinário e
Plenipotenciário da República da Zâmbia junto da Santa Sé, apresento-lhe as
minhas calorosas saudações e dou-lhe as boas-vindas ao Vaticano. Grato pelos
bons votos que me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Presidente
Frederick J. Chiluba, peço que lhe comunique os meus cordiais bons votos e a
certeza das minhas orações pela paz e o bem-estar da sua nação, especialmente
agora que se pôs termo ao declarado estado de emergência no seu país e a
situação volta à normalidade.
Embora tenham transcorrido quase dez anos desde
a minha Visita pastoral à Zâmbia, as memórias do período que passei no meio do
seu povo permanecem vivamente gravadas na minha mente. Realizo as minhas viagens
aos vários países do mundo principalmente como Bispo de Roma e Sucessor de
Pedro; ao mesmo tempo, contudo, elas oferecem-me a possibilidade de manifestar a
solidariedade para com todos os povos, enquanto estes trabalham para alcançar o
próprio destino. A Santa Sé está presente na comunidade internacional não como
um poder político, económico ou militar, mas como um parceiro activo nos debates
permanentes acerca das problemáticas morais e éticas que actualmente se
apresentam ao nosso mundo.
É neste contexto que me sinto feliz por observar
as declarações de Vossa Excelência a respeito da necessária contribuição dos
princípios e valores cristãos na luta em vista de combater a injustiça e o mal
a níveis tanto pessoal como institucional. Efectivamente, os dois grandes
mandamentos que os cristãos receberam do seu Senhor – «Amarás ao Senhor teu Deus
com todas as tuas forças, e ao teu próximo como a ti mesmo » (cf. Mc 12, 30-31)
– excluem claramente todos os comportamentos e atitudes da parte dos indivíduos
e também dos governantes, que possam causar danos, sofrimentos ou lesões ao
próximo. É com base nestes mesmos dois mandamentos, e seguindo o exemplo do próprio Senhor, que «não veio para ser servido. Ele veio para servir» (Mt 20, 28),
que a Igreja está activamente comprometida na vida do seu país. Ela está
presente sobretudo no campo da educação e nas áreas dos serviços à saúde e no
campo social, oferecendo assistência aos habitantes da Zâmbia, independentemente da sua
filiação religiosa. Aprecio muitíssimo a expressão de estima de Vossa
Excelência pela contribuição que a Igreja católica oferece a este propósito.
A
Igreja e a comunidade política, embora sejam independentes e autónomas,
trabalham pelo bem-estar pessoal e social dos mesmos seres humanos. Por sua vez,
a Igreja «contribui para que floresçam a justiça e a caridade dentro de cada
nação e entre as nações. Pregando a verdade evangélica e iluminando todos os
sectores da actividade humana com a sua doutrina e o testemunho dos cristãos,
respeita e promove a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos»
(Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes,
76).
A mais importante destas liberdades e responsabilidades, e a pedra angular
de todos os direitos humanos é a liberdade religiosa, pois constitui um
componente insubstituível do bem dos indivíduos e da sociedade em geral. É
triste que, cinquenta anos depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem,
ainda existam milhões de pessoas em várias partes do mundo que estão a sofrer em
virtude da própria crença religiosa, sujeitas à legislação repressiva e
opressiva, vítimas às vezes da perseguição aberta, mas com maior frequência de
subtis formas de discriminação. Tais situações constituem um mau presságio para
a paz mundial e o progresso da justiça e da verdade.
A Igreja esforça-se por
recordar a todas as pessoas, e de modo especial aos líderes mundiais, que a
ordem social se fundamenta na pessoa humana e para ela se orienta, com os seus
direitos inalienáveis que não lhe são conferidos a partir de fora, mas derivam
da própria natureza humana. Nada e ninguém pode destruir estes direitos, e nem
pode qualquer coacção externa eliminá-los, pois eles estão arraigados naquilo
que há de mais profundamente humano. Todos os indivíduos, em conformidade com os
parâmetros da sua própria consciência, devem ser livres de se expressar em
actos de opção consciente. Como disse na minha Mensagem para o Dia Mundial da
Paz de 1988: «A liberdade de que o homem foi dotado pelo Criador é a capacidade
que lhe é dada permanentemente para buscar o que é verdadeiro com a inteligência
e de aderir com o coração ao bem pelo qual ele aspira naturalmente, sem estar
submetido a pressões, ?constrições ?e ?violências ?de espécie alguma» (n. 1).
A
liberdade dos indivíduos na sua busca da verdade e na correspondente profissão
do seu credo religioso deve ser especificamente garantida no contexto da
estrutura jurídica da sociedade. Isto é, «para ser mantida imune de qualquer
coerção de pessoas individuais e de grupos sociais e de todo o poder humano [a
liberdade religiosa]... há-de ser reconhecida e sancionada pela lei civil como
direito pessoal e inalienável» (Ibidem). Este direito à liberdade religiosa não
é unicamente um direito humano entre os demais, mas constitui antes o direito
mais fundamental. A sua observância é a verdadeira medida do compromisso de uma sociedade na salvaguarda e defesa da dignidade humana de todos os seus
membros.
Senhor Embaixador, no momento em que inicia a sua missão,
asseguro-lhe a disponibilidade dos vários departamentos da Cúria Romana em
assisti-lo no cumprimento dos seus deveres. Estou convicto de que o seu
trabalho servirá para revigorar as boas relações que já existem entre a Santa
Sé e a República da Zâmbia. Sobre Vossa Excelência e todo o povo do seu país,
invoco as abundantes bênçãos de Deus Omnipotente.
© Copyright
1998 - Libreria Editrice Vaticana
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