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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS MEMBROS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL
 DA REPÚBLICA ESLOVACA

7 de Setembro de 1998 

 

Venerados Irmãos no Episcopado!

1. Estou particularmente feliz em vos encontrar por ocasião da visita «ad Limina», que nos oferece a grata oportunidade de renovar os nossos vínculos de afecto e de comunhão, precisamente no dia em que se celebra a memória dos Mártires de Košice, que tive a alegria de inscrever no álbum dos Santos, há três anos na vossa Pátria. Saúdo com intensa cordialidade o vosso Presidente, D. Rudolf Balá, Bispo de Banská Bystrica, a quem agradeço os sentimentos de devoção e adesão ao Sucessor de Pedro, manifestados em nome de todos os presentes. Saúdo também o querido e venerado Cardeal Ján Chryzostom Korec que, durante os exercícios espirituais realizados neste ano aqui no Vaticano, nos fez ouvir tão bem a voz da tradição cirilo-metodiana. E saúdo ainda com grande afecto cada um de vós, Pastores das queridas populações da República Eslovaca, entre as quais tive a alegria de estar na inesquecível visita de há três anos.

«A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen gentium, 1). Com estas palavras o Concílio Ecuménico Vaticano II apresenta o mistério da Igreja, sublinhando a particular referência ao mistério de Cristo e ao Reino de Deus, do qual «constitui na terra o germe e o princípio» (Ibid., 5). Para cumprir de modo apropriado a missão de «sacramento universal da salvação» (Ibid., 48), que lhe é própria, a Igreja deve poder exprimir convenientemente, a nível tanto universal como local, a dúplice dimensão humana e divina nela impressa pelo Fundador, inserindo- se plenamente nas vicissitudes do mundo, sem contudo confundir-se com o mundo (cf. Jo 17, 15-16).

2. Também a Igreja que está na República Eslovaca é chamada a ser «sacramento universal da salvação», fazendo-se amorosamente partícipe das alegrias, dos sofrimentos e das necessidades do Povo eslovaco, com a consciência de ser «germe e princípio do Reino de Deus» e instrumento da graça de Cristo. A consciência da própria missão conduzi-la-á ao diálogo respeitoso e atento com a sociedade, e ao empenho por uma convivência fraterna e solidária, inspirada nos valores da genuína tradição cristã.

Diante de uma situação que ainda ressente da dura perseguição comunista e que corre o perigo de ver reacender as divisões destruidoras do passado, a Igreja sabe que deve ser sal e fermento no seio da sociedade eslovaca, contribuindo para o bem de todos, sem se deixar envolver nos conflitos entre interesses particulares.

As profundas transformações, que nos últimos anos investiram a sociedade eslovaca com resultados preocupantes para a família e o mundo juvenil, empenham Pastores e fiéis a defender os valores da tradição cultural e cristã. Isto supõe uma profunda e clara análise filosófica e teológica das diversas correntes de pensamento, para descobrir os seus traços ambíguos e corrigi-los, haurindo dela ocasião para um profícuo aprofundamento do próprio património doutrinal.

Na época do precedente regime comunista, a comunidade cristã na Eslováquia, não raro antecipando as conclusões do Concílio Vaticano II, na fidelidade evangélica, soube oferecer respostas eficazes e proféticas às provocações da sociedade ateia. Do mesmo modo, ela é chamada hoje a responder aos novos desafios, empenhando-se na assídua meditação da Escritura, na atenta análise dos fenómenos sociais, na projectação de adequadas iniciativas pastorais, de maneira a oferecer, à luz das experiências passadas, respostas pertinentes e incisivas aos problemas apresentados pelas diversas situações do presente.

3. Em particular, para que a Igreja «sacramento» produza mais abundantes frutos de bem, será útil que ela se empenhe ainda mais nos sectores, que de modo mais directo fazem parte da sua missão.

Será preciso, antes de tudo, promover a formação de fiéis adultos na fé, estimulando-os ao pleno exercício das suas tarefas específicas. Como eu ressaltava durante a Visita pastoral ao vosso amado País, «com efeito, compete aos leigos católicos, oportunamente formados, a missão de transmitir a mensagem do Evangelho em cada ambiente da sociedade, incluído o da política» (Discurso à Conferência Episcopal da Eslováquia, n. 6; em L'Osservatore Romano, ed. port. de 8/7/1995, pág. 7, n. 7). Não se trata, por conseguinte, tanto de sustentar quantos desempenham um papel de suplência na ausência do sacerdote, quanto de ajudar os fiéis a descobrirem a autêntica espiritualidade «laical», como via para a santificação de si mesmos e do mundo, partindo da fundamental consagração conferida no Baptismo. Nesse empenho em todos os campos, em prol da formação de leigos adultos, adquire uma relevância particular o serviço oferecido pelas Universidades Católicas, cuja finalidade específica é precisamente formar cultural e espiritualmente pessoas capazes de levar os valores da fé e da tradição católica ao ambiente civil e político.

Em segundo lugar, é preciso cuidar de modo particular da formação do clero. Os candidatos ao sacerdócio devem ser cultural e espiritualmente bem preparados, para poderem anunciar de maneira eficaz o Evangelho aos seus contemporâneos, haurindo do Magistério da Igreja as oportunas respostas aos vários interrogativos. E é claro que, para isto, muito ajuda a solidez da doutrina além da qualificação académica. Eles devem também ser ajudados a evitar o perigo do activismo sempre insidioso, graças a uma formação que ressalte a preeminência da missão de evangelizar e de «santificar». Abandonando ou não cuidando de modo suficiente destas dimensões essenciais da missão sacerdotal, acaba-se inevitavelmente por perder também o sentido e a eficácia dos outros aspectos do ministério pastoral. O maior bem que um sacerdote pode oferecer ao povo é favorecer, de todos os modos, a reconciliação com Deus e os irmãos.

Para responder aos graves desafios do nosso tempo, o jovem, depois de ter sido ordenado presbítero, além do estudo e da oração pessoal, tem o dever de cuidar da própria formação permanente participando nos encontros oficiais e informais com os outros sacerdotes e o próprio Bispo, para juntos procurarem oportunas soluções aos problemas e apoio nos empenhos apostólicos. É precisamente na perspectiva do aperfeiçoamento formativo para os sacerdotes eslovacos, que tendes em Roma o Pontifício Colégio e o Pontifício Instituto Eslovaco dos Santos Cirilo e Metódio. A permanência operosa no centro da cristandade consentirá aos vossos sacerdotes completar, junto dos túmulos dos Apóstolos, a sua formação intelectual e espiritual para depois serem os vossos válidos colaboradores na nova evangelização.

4. Alegro-me convosco, venerados Irmãos, pelo facto de que nestes últimos anos foi possível assegurar o ensino da religião nas escolas. Entretanto, desejo ressaltar também nesta circunstância que essa modalidade de evangelização não exaure a catequese paroquial para as crianças, os jovens e os adultos. A escola constitui, certamente, uma ajuda válida, mas o centro da catequese continua a ser a paróquia, que deve poder dispor de adequadas estruturas para o desenvolvimento normal das actividades pastorais e formativas.

Em particular, é necessário que o anúncio orgânico e sistemático da Palavra de Deus atinja os adultos, para que aprendam a fazer do Evangelho o centro inspirador da sua vida, de maneira que, com coragem, testemunhem Cristo no ambiente de trabalho, na cultura e na actividade socio-política. Para isto contribuem também cursos particulares e outras iniciativas apropriadas de carácter formativo.

É sobretudo o binómio família-jovens que deve constituir a prioridade das prioridades das vossas Igrejas. As influências negativas que chegam hoje de todas as partes, devem encontrar na comunidade cristã eficazes e oportunos antídotos. Para isto ajudará a promoção de uma pastoral juvenil e familiar orgânica, com a finalidade de responder às exigências formativas dos jovens e das novas famílias. Oportunamente, nesta perspectiva, procedeu-se à tradução e publicação do Catecismo da Igreja Católica em língua eslovaca. Ele constitui um extraordinário instrumento de evangelização, e agora é tarefa da Igreja, em particular dos Bispos e dos sacerdotes, «traduzir» o seu conteúdo na existência quotidiana dos fiéis.

No contexto do empenho formativo em prol das novas gerações, deve-se ressaltar, depois, a necessidade de uma pastoral vocacional, orientada para apresentar aos jovens a grandeza da vocação ao sacerdócio ministerial e à vida consagrada, como serviço generoso à causa do Reino.

5. Em comunhão com a inteira catolicidade, também a Igreja na Eslováquia está empenhada em preparar-se, desde agora, para o Jubileu do Ano 2000, que está a aproximar-se a grandes passos. Por esta razão, ela não se limita a favorecer um clima de espera daquela data histórica, mas procura justamente viver com intensidade os anos de preparação mais imediata, segundo o itinerário eclesial que propus na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente. A revista «Grande Jubileu», louvavelmente cuidada pela Conferência Episcopal Eslovaca, poderá fornecer neste sentido uma ajuda válida às diversas Comunidades diocesanas e paroquiais.

É espontâneo, neste contexto, fazer referência aos instrumentos da comunicação social. Como não sublinhar a sua grande influência sobre a opinião pública e a extraordinária incidência no modo de pensar e de agir dos fiéis? Diante dos condicionamentos negativos por eles às vezes exercidos, não é suficiente criticar, mas deve-se antes de tudo educar os fiéis para o uso amadurecido dos mass-media, ajudando-os a crescer para uma maior liberdade em relação a eles. É necessário, além disso, fazer todos os esforços para orientar as singulares potencialidades desses instrumentos para o serviço da verdade e do bem.

6. A Igreja oferece ao homem a salvação realizada por Cristo, segundo o desígnio do Pai, no mistério da Páscoa. Ela vai ao encontro do homem e aceita-o tal como ele se apresenta, com todas as suas debilidades intelectuais e morais, com todos os seus problemas familiares e sociais. A Igreja, contudo, está consciente de não possuir a solução já pronta para qualquer nova questão suscitada pelas mutáveis circunstâncias. Antes, ela põe-se ao lado de cada um para lhe estimular a responsabilidade e o convidar a procurar a resposta adequada, à luz da sabedoria cristã, acumulada nos documentos do Magistério (cf. Gaudium et spes, 43).

Nesse contexto deve-se considerar a relação entre Igreja e Estado. Como sublinha o Concílio Vaticano II: «No domínio próprio de cada um, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas» (ibid., 76). Todavia, essa distinção não exclui, mas requer a colaboração mútua. Como eu recordava por ocasião da Audiência a um grupo de peregrinos eslovacos, «os católicos não devem ficar à margem da vida social e política. Antes, é grande a contribuição que eles podem e devem dar, inspirando-se na doutrina social da Igreja, sem jamais se entrincheirarem em posições preconcebidas e de partido, que são com frequência estéreis ou até mesmo danosas» (L'Osservatore Romano, ed. port. de 23/11/1996, pág. 5, n. 3). Na particular colaboração entre Igreja e Estado para promover o bem do homem e do País, nunca pode passar em segundo plano o facto de que a Igreja, por sua própria natureza, é enviada a todos, aos que estão perto e aos distantes.

7. Venerados e caros Irmãos, estes são os pensamentos e as exortações que senti a necessidade de vos exprimir por ocasião da vossa grata visita «ad Limina». Agradeço-vos o zelo e a dedicação com que vos empenhais para o verdadeiro bem das comunidades confiadas aos vossos cuidados pastorais. Cultivai sempre um profundo sentido de comunhão afectiva e efectiva entre vós e com a Igreja universal e, em particular, com o Sucessor de Pedro. Enquanto vos confio, juntamente com as vossas Comunidades, à protecção materna da Virgem Maria das Dores, Padroeira da Eslováquia, concedo com afecto a todos vós, às Igrejas a vós confiadas e ao inteiro povo eslovaco uma especial Bênção Apostólica. 

 

Copyright 1998 © Libreria Editrice Vaticana

 

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