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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
À EMBAIXADORA DA NICARÁGUA JUNTO DA SANTA SÉ
 POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DA CARTAS CREDENCIAIS

14 de Setembro de 1998 

 

Excelência

1. É-me grato dar-lhe as minhas cordiais boas-vindas a este acto no qual me apresenta as Cartas que a acreditam como Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da Nicarágua junto desta Sé Apostólica. Nesta circunstância, quero também expressar-lhe a minha gratidão pelas amáveis palavras que me dirigiu, as quais confirmam os nobres sentimentos de proximidade e adesão à Cátedra de Pedro, presentes no coração de tantos cidadãos nicaraguenses.

Agradeço-lhe também, de modo particular, a deferente saudação que me transmitiu da parte do Doutor Arnaldo Alemán Lacayo, Presidente da República, a quem retribuo com os meus melhores votos e a certeza das minhas orações pelo progresso e o bem-estar de todos os filhos dessa amada Nação.

2. Senhora Embaixadora, as suas palavras põem em relevo o respeito e reconhecimento da missão específica da Igreja nessa Nação que, no meio de numerosos e complexos desafios, ensina e trabalha, sob a guia sábia e prudente dos seus Bispos, para que os valores morais e a concepção cristã da vida sejam os elementos que inspirem a quantos, de uma ou doutra forma, labutam por defender a dignidade e a causa do homem, que é «o caminho da Igreja» (Redemptor hominis, 14). Por isso, a preocupação pelo social «faz parte da missão evangelizadora da Igreja» (Sollicitudo rei socialis, 41), na qual ocupa um lugar preeminente a promoção humana, porque a evangelização tende à libertação integral da pessoa (cf. Discurso à IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano,12.X.1992, n. 13).

Vossa Excelência referiu-se também à minha segunda Visita pastoral ao seu amado País. A este respeito, é motivo de profunda satisfação saber que estão a ser dados passos decididos na obra de reconciliação, assim como também na evolução sociopolítica das instituições e da própria sociedade, combatendo situações de pobreza. Para isso são ineludíveis algumas medidas que têm em vista a instauração de uma sociedade mais justa, onde cada cidadão veja reconhecidos os seus direitos, mas que ao mesmo tempo tome consciência do seu dever e responsabilidade diante dos demais.

3. Desde há mais de cinco séculos a Igreja está presente na Nicarágua, acompanhando a vida do seu povo no seu caminhar rumo a Deus. Atenta às necessidades mais profundas dos homens, ela desenvolve o seu trabalho pastoral iluminando, com a doutrina e os princípios espirituais e morais, os diversos âmbitos da sociedade. Ela, a partir da sua própria missão, está disposta a continuar a colaborar com as diversas instâncias públicas, para que os nicaraguenses encontrem respostas adequadas aos problemas da hora presente.

Elementos indispensáveis para progredir no caminho empreendido, são um plano de educação que favoreça o respeito pela vida e a dignidade da pessoa humana, assim como algumas directrizes políticas que garantam a convivência social, o direito ao trabalho e, sobretudo, promovam a justiça e a paz. Desta maneira poder-se-á pedir aos cidadãos que se comprometam na defesa dos valores indiscutíveis, como são a verdade, a liberdade, a mútua compreensão e a solidariedade.

4. Em muitas partes do mundo observa-se uma crise de valores, que afecta instituições, como a família, e amplos sectores da população, como a juventude e o complexo mundo do trabalho. Diante disto, é urgente que os nicaraguenses tomem maior consciência das suas próprias responsabilidades e, diante de Deus e dos deveres civis, se esforcem por continuar a construir uma sociedade mais fraterna e acolhedora. Para isto, a concepção cristã da vida e os ensinamentos morais da Igreja oferecem alguns valores, que devem ser tomados em consideração por aqueles que trabalham ao serviço da Nação.

Antes de tudo deve-se recordar que o ser humano é o primeiro destinatário do desenvolvimento. Embora no passado este conceito possa ter sido pensado prioritariamente em termos económicos, hoje é óbvio que o desenvolvimento das pessoas e dos povos deve ser integral. Isto é, o desenvolvimento social deve ter em conta os aspectos políticos, económicos, éticos e espirituais.

5. Um problema crucial actual, e que se manifesta de modo muito concreto na América Latina, é o das grandes desigualdades sociais entre ricos e pobres. A respeito disso, são motivo de grave preocupação os dados sobre o número de grupos humanos que se encontram em situação de extrema pobreza, não obstante a grande riqueza de recursos naturais de tantas das suas terras. Não há dúvida de que estas desigualdades económicas prejudicam seriamente as relações interpessoais e a própria convivência civil, e conduzem ao deterioramento dos valores morais. As suas consequências são a desagregação de muitos núcleos familiares, a devassidão nos costumes e um escasso respeito pela vida.

Esta situação premente requer que sejam empreendidas algumas opções preferenciais, que ajudem a recuperar estes valores, com programas e acções de conjunto que permitam aos cidadãos aceder a postos de trabalho dignos e estáveis, com o qual se possa enfrentar a pobreza material em que vivem muitos deles. De igual modo, urge proteger a instituição familiar e procurar que todos recebam pelo menos a instrução básica, vencendo assim algumas situações de analfabetismo tão degradantes da dignidade humana. Por isso, as diversas instâncias públicas têm a responsabilidade de intervir para o bem da família, trabalhando pela sua consolidação, procurando preservar e defender os seus direitos, as capacidades e as obrigações dos seus membros. Portanto, deve-se prestar uma atenção particular aos grupos mais vulneráveis da sociedade, devido às peculiares necessidades que experimentam ou à discriminação que sofrem, como são as mulheres, os anciãos e as crianças. Diante disto, as instituições da Igreja católica oferecem uma contribuição significativa, no esforço comum por fomentar uma sociedade mais atenta às necessidades dos seus membros mais frágeis.

6. No momento em que Vossa Excelência se dispõe a iniciar a alta função para a qual foi designada, desejo formular- lhe os meus mais cordiais votos pelo feliz e frutuoso desempenho da sua missão junto desta Sé Apostólica, sempre desejosa de que se mantenham e consolidem cada vez mais as boas relações com a Nicarágua. Ao pedir-lhe que se digne transmitir os meus sentimentos e esperanças ao Senhor Presidente da República, ao seu Governo, às Autoridades e ao querido povo nicaraguense, asseguro-lhe a minha oração ao Todo-poderoso para que, por intercessão da Virgem Maria, assista sempre com os Seus dons Vossa Excelência e a sua distinta família, os seus colaboradores, os Governantes e os cidadãos do seu nobre País, o qual recordo sempre com particular afecto.

 

Copyright 1998 © Libreria Editrice Vaticana

 

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