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DISCURSO DO PAPA JOÃO
PAULO II AO NOVO
EMBAIXADOR DA DINAMARCA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS
CARTAS CREDENCIAIS
Quinta-feira, 16 de Dezembro de 1999
Senhor Embaixador
É-me grato dar-lhe as boas-vindas e aceitar as Cartas Credenciais mediante as
quais Vossa Excelência é acreditado como Embaixador da Dinamarca junto da
Santa Sé. Agradeço-lhe as suas amáveis palavras e as saudações que Vossa
Excelência me transmitiu da parte de Sua Majestade a Rainha Margarida II, e peço
que lhe comunique, bem como ao Governo e ao Povo da Dinamarca os meus bons votos
e a certeza das minhas orações pela paz e o bem-estar da sua nação. Não
obstante já se tenham passado dez anos, a minha visita à sua terra permanece
viva na minha memória. Nessa ocasião, tive o privilégio de testemunhar
pessoalmente a riqueza da cultura dinamarquesa, o vigor das liberdades da
Dinamarca e a generosidade do coração do seu povo.
Estas são algumas das razões
por que o seu país, embora seja comparativamente pequeno em termos de área e
de população, tem desempenhado um papel tão substancial na formação da
civilização europeia. A Dinamarca constitui uma ponte entre o continente
europeu e as terras do Norte: para o povo dinamarquês este é um papel
nem sempre fácil de desempenhar, e contudo é vital. E hoje, a Dinamarca pode
levar a cabo uma missão não menos significativa neste delicado tempo de união
política e social que a Europa está a atravessar.
Há muitos elementos positivos na busca de uma "casa comum europeia";
todavia, eventos como os aterradores focos de guerra, que se verificaram em períodos
muito recentes, recordam-nos que aquilo que está a ser conquistado com tantos
esforços dedicados por parte de inúmeras pessoas, ainda se encontra exposto a
sérias ameaças de todos os géneros. Na Europa contemporânea, a natureza do
conflito mudou, com guerras que já não são travadas entre Estados soberanos.
Contudo, o conflito mesmo não desapareceu de modo algum, pois as guerras
passaram a ser pugnadas no interior dos próprios Estados, e não mais entre
eles. Por conseguinte, impõe-se este interrogativo: o que é necessário
para se instaurar uma segurança estável na Europa? Não existe uma resposta
pronta e simples para esta delicada pergunta, mas uma coisa está a tornar-se
cada vez mais clarividente: é impossível construir uma segurança estável
sem um vigoroso fundamento moral. Três elementos deste fundamento merecem uma
delicada reflexão por parte de todos os responsáveis pela política pública
na Europa.
O primeiro elemento é o reconhecimento de uma lei natural, mediante a
qual se evidencie uma série de princípios e valores morais que governam todos
os comportamentos e relacionamentos humanos, e precedem todos os direitos
positivos que um Estado em particular possa outorgar. Para além da distinção
do tempo, lugar, cultura, personalidade e situação, existe uma lei moral
universal gravada no coração humano e acessível à razão do homem, que nos
orienta para a prática do bem e a rejeição do mal. De facto, se não há uma
verdade última que guie a decisão pessoal, então o indivíduo fica à deriva
num mundo subjectivista e relativista; e se não existe uma verdade derradeira
para orientar a acção política, então as ideias são manipuladas com
demasiada facilidade, para servir os objectivos dos poderosos. Uma democracia
sem valores transcendentes logo decai nalguma forma de totalitarismo, como o
nosso próprio século o demonstra de modo tão horrível. Como personificação
destes valores, a lei natural constitui uma "gramática" comum para
todas as pessoas que são responsáveis pelo destino das nações.
O segundo elemento deste vigoroso fundamento é o reconhecimento dos direitos
inalienáveis dos indivíduos e dos povos. A quinta-essência do
totalitarismo consiste no facto de um determinado governo reivindicar o direito
de conceder ou de negar tais direitos. Efectivamente, eles não têm a sua fonte
em qualquer poder político, mas no mistério da pessoa humana, criada à imagem
de Deus. Nesta perspectiva, é tarefa dos governos realizar o necessário para
tutelar os direitos dos indivíduos e dos grupos, e garantir as condições que
visam o seu exercício. De forma mais vasta, é missão das organizações e agências
internacionais salvaguardar os direitos dos povos do mundo, e são as nações
mais frágeis que apelam a esta protecção, de forma especial num período em
que o fosso entre os países opulentos e pobres está a aumentar. Sem dúvida,
qualquer tentativa de edificar a segurança na Europa sem uma concertada atenção
aos direitos humanos no inteiro continente seria destinada a fracassar, e
devemos regozijar-nos pelo facto de na opinião pública se manifestar uma
consciência cada vez mais clara desta problemática.
O terceiro elemento é o respeito pelas minorias, quer estas derivem de
diferentes identidades étnicas, quer de diversas crenças religiosas. Perante
as repetidas e contínuas tentativas de suprimir as minorias na Europa ao longo
deste século, deve-se afirmar de maneira inequivocável que estes grupos têm o
direito de conservar e desenvolver a própria cultura, e que a Europa só será
mais forte e segura na medida em que isto for possível.
Um novo fenómeno europeu é o fluxo de imigrantes provenientes de terras menos
desenvolvidas e prósperas, que vêm à Europa em busca de uma vida melhor, e a
Dinamarca constitui uma das suas principais metas. Uma grande afluência destes
imigrantes pode apresentar desafios particulares a uma sociedade como a sua,
Senhor Embaixador, mas as pessoas devem ter o direito de imigrar legalmente em
busca de liberdade, de segurança ou de uma vida melhor, como muitos europeus o
fizeram no passado. Aos imigrantes não pode ser negado tão-pouco o direito de
conservar e desenvolver a própria cultura na sua nova terra, não obstante
devam também adaptar-se à nova cultura que os acolheu. Neste contexto, na
Europa é pertinente reafirmar o princípio da liberdade religiosa, que há-de
constituir um firme ponto de referência para a civilização europeia, pois
todo o tecido dos direitos humanos vacilará se for negado o direito à
liberdade religiosa.
Senhor Embaixador, a Dinamarca é justamente orgulhosa do nível de liberdade de
que goza hoje em dia, uma liberdade que nunca pode ser subestimada, porque é
sempre mais frágil do que parece. A liberdade dinamarquesa é em grande parte
fruto das raízes cristãs da cultura dessa terra; eis por que é justo que o Dannebrog,
marcado com o sinal da Cruz de Cristo, ainda vigora de modo indomitável como
emblema da sua terra e do seu povo. É o símbolo que evoca o grande passado
cristão da Dinamarca, no qual figuras luminosas como Santo Agostinho e o mártir
rei Canuto aparecem como faróis de luz para todos os tempos. A cristandade fez
nascer uma sociedade livre e humana, e também hoje deve desempenhar a sua parte
na protecção daquela herança, assegurando a liberdade unida inseparavelmente
à verdade, uma vez que a liberdade desvinculada da verdade dá logo origem a
novas formas de escravidão.
Nalguns momentos as relações entre a Dinamarca e a Santa Sé são próximas e
às vezes, sob a pressão da controvérsia religiosa, foram mais afastadas.
Formulo votos por que nos seus diversificados caminhos, as nossas relações
diplomáticas e o recente Acordo entre católicos e luteranos possam ajudar a
consolidar uma nova época de cooperação entre nós, para o bem da Europa e de
toda a família humana.
Senhor Embaixador, no momento em que Vossa Excelência entra na comunidade dos
diplomatas acreditados junto da Santa Sé, asseguro-lhe a pronta colaboração
dos vários departamentos da Cúria Romana. Oxalá a sua missão contribua para
fortalecer o vínculo de amizade entre nós. Sobre Vossa Excelência, a sua família
e todo o povo da Dinamarca, invoco as abundantes bênçãos de Deus
Todo-Poderoso.
© Copyright 1999 -
Libreria Editrice Vaticana
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