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DISCURSO DO
PAPA JOÃO PAULO II AO NOVO EMBAIXADOR DA AUSTRÁLIA JUNTO DA SANTA
SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
Quinta-feira, 20 de Maio de 1999
Senhor Embaixador
É com prazer que lhe dou as
boas-vindas no início da sua missão como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Comunidade da Austrália junto da Santa Sé. Ao receber
as suas Cartas Credenciais, agradeço-lhe as saudações que me transmitiu da
parte do Governador-Geral, Sua Excelência o Senhor William Deane, e do
Primeiro-Ministro, Sua Excelência o Ilustre Senhor John Howard. Pediria que
lhes comunicasse, bem como ao povo australiano, os meus bons votos e a certeza
das minhas orações pela paz e a prosperidade da nação.
Nas suas relações
diplomáticas, a Santa Sé procura oferecer a todos os povos um serviço muito
distintivo, em benefício de uma vida plenamente humana, na paz e na harmonia,
considerando também o bem comum e o desenvolvimento integral dos
indivíduos e das nações. Senhor Embaixador, é-me grato observar que Vossa
Excelência falou da «busca da obtenção da dignidade fundamental para
todos», dado que esta ocupa um lugar central na actividade diplomática da
Santa Sé. Uma vez que a Austrália e a Santa Sé empreendem juntas esta busca
podemos falar, como Vossa Excelência fez, de «valores compartilhados e da
comum abordagem da salvaguarda da vida dos cidadãos e dos seus direitos».
À
luz disto, a Santa Sé acompanha com interesse as preparações na Austrália
para a celebração do centenário da Federação. O centenário oferece à Austrália uma oportunidade para abordar a problemática da identidade nacional,
que inevitavelmente compreende a questão dos valores fundamentais. De certa
forma, a chegada de um novo milénio apresenta a todos este problema crucial;
contudo, neste momento ele parece especialmente pertinente na história da
Austrália.
No cerne da questão dos valores fundamentais existe o problema
ainda mais profundo da visão do ser humano, sobre a qual está fundamentada a
sociedade australiana e que se exprime num documento como a Constituição.
Trata-se porventura de uma visão que em última análise nega a dignidade
humana e por conseguinte subverte o bem comum? Ou trata-se acaso de uma visão
que alimenta o sentido da dignidade da pessoa e consequentemente beneficia o bem comum?
Tais interrogativos são mais do que teóricos, quando
passamos a considerar um tema tão concreto quanto a reconciliação do povo
aborígene da sua terra com aquelas populações que ali se estabeleceram em
tempos mais recentes. Quem é que pode esquecer a dolorosa história dos
primeiros habitantes da Austrália e a actual necessidade de reconciliação e
cura? Todavia, mesmo entre pessoas de boa vontade existem desacordos no que
se refere às modalidades de alcançá-las. Mas no meio de tão grande
complexidade uma coisa é certa: a questão não se resolverá senão com base
numa visão inequivocável da dignidade de cada ser humano (cf. Discurso aos
Aborígenes e aos Habitantes do Estreito de Torres, Alice Springs, 1986; cf.
ed. port. de L'Osservatore Romano de 14 de Dezembro de 1986, pp. 8-9, n. 11) e
do firme sentido dos direitos humanos que nenhum indivíduo, grupo ou governo
pode pretender conceder ou negar, dado que os direitos do homem são
transcendentes, inatos em cada homem e mulher.
A questão da dignidade humana e
dos direitos do homem é abordada de maneira não menos evidente por problemáticas vinculadas ao início e ao termo da vida humana. A Santa Sé
esclareceu que considera com preocupação a tendência de as legislações
sancionarem a morte dos nascituros e daquelas pessoas cujas vidas estão a
aproximar-se do próprio fim. E fá-lo porque a Santa Sé considera o aborto
e a eutanásia ofensivas contra a dignidade humana e subversivas no que se
refere ao bem comum. Um dos grandes paradoxos de hoje é o facto de, às vezes,
a retórica dos direitos humanos se fazer acompanhar pela negação do direito
mais elementar de todos, isto é, o direito à própria vida. Este século
demonstrou que quando se nega o direito à vida de algumas categorias de
pessoas, então todos os direitos humanos estão em perigo. A Austrália goza de
uma liberdade conquistada a alto preço, mas a liberdade é sempre um bem
efémero e jamais pode ser considerada com gratuidade. O respeito pelo direito
à vida é decisivo porque em última
análise corresponde ao respeito da liberdade. Uma visão sólida e integral
do ser humano oferecerá também o melhor fundamento para o exercício das
responsabilidades regionais por parte da Austrália. Não é insignificante
o facto de a Austrália ter alcançado tão grande estabilidade e prosperidade num lapso de
tempo relativamente breve e perante enormes
dificuldades. Todavia, esta estabilidade e prosperidade conferem também obrigações especiais, numa
região que conhece tanto a pobreza como a incerteza política. Sob um ponto
de vista pragmático, é do interesse da Austrália ter vizinhos estáveis e
prósperos; todavia, o pragmatismo de per si não pode definir a plena
finalidade da resposta da Austrália aos desafios que toda essa região está a
enfrentar. É verdade que cada nação deve defender e promover os seus
interesses, mas o interesse egocêntrico por si só não pode determinar o
papel da Austrália nessa região. Para além do pragmatismo e do interesse
egoísta, as pessoas atingidas pela instabilidade e pela pobreza têm o direito
de ser assistidas por aqueles que não são tão afligidos; e este direito de
ser auxiliado implica o dever de ajudar.
Em última análise, cada sociedade será julgada em conformidade com o seu modo de tratar os mais frágeis; este é o
motivo pelo qual as questões da reconciliação aborígene, do início e do
fim da vida, e da responsabilidade regional são importantes, agora que a
Austrália reflecte sobre a própria identidade e delineia o caminho rumo ao
futuro. Ao cumprir a sua missão religiosa, social e cultural, a Igreja
católica na Austrália procura assegurar que o novo século e o novo milénio
dêem testemunho do ulterior desenvolvimento de uma nação em que os mais
débeis sejam apreciados em virtude do facto que a dignidade inalienável de cada
ser humano é o critério de toda a vida pessoal, social e
política.
Senhor Embaixador, no momento em que Vossa Excelência entra na
comunidade dos diplomatas acreditados junto da Santa Sé, asseguro-lhe a
pronta colaboração dos vários departamentos da Cúria Romana. Possa a sua
missão ajudar a fortalecer o vínculo de amizade entre o seu Governo e a
Santa Sé, e oxalá estes laços contribuam enormemente para o bem-estar do
seu país. Sobre Vossa Excelência, a sua família e os seus concidadãos,
invoco as abundantes bênçãos do Todo-Poderoso.
© Copyright 1999 -
Libreria Editrice Vaticana
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