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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO NOVO EMBAIXADOR DA ISLÂNDIA 
JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO 
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Quinta-feira, 20 de Maio de 1999

 

Senhor Embaixador 

É-me grato dar-lhe hoje as boas-vindas e aceitar as Cartas Credenciais que o designam Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Islândia junto da Santa Sé. Estou-lhe grato pelas saudações que me expressou da parte do Presidente, Sua Excelência o Senhor Dr. Ólafur Ragnar Grímsson, que no ano passado tive o prazer de receber no Vaticano. Peço-lhe que transmita ao Dr. Grímsson, ao Governo e ao povo da Islândia os meus bons votos e a certeza das minhas preces pela paz e pela prosperidade da nação. 

A sua missão tem início num momento auspicioso. O mundo está prestes a cruzar o limiar do terceiro milénio da era cristã, e este facto apresenta interrogativos e desafios para todos nós. Para a Igreja, este será um período de acção de graças pelas dádivas recebidas, de arrependimento pelos pecados cometidos e de renovação do compromisso de anunciar o Evangelho e indicar os caminhos da verdade, da justiça e da paz. Contudo, o ano 2000 adquire um significado especial para a Islândia porque, como Vossa Excelência observou, a nação há-de celebrar mil anos de cristianismo. A minha esperança é de que a sua missão promova a reciprocidade nas nossas celebrações – que a Islândia enriqueça o Jubileu em Roma e que Roma enalteça o Milénio na Islândia. 

Senhor Embaixador, estou vivamente consciente daquilo que Vossa Excelência observou, isto é, que durante um prolongado período os vínculos entre a Islândia e a Santa Sé foram profundos e vigorosos. Como poderia ser de outra forma, numa terra onde as raízes da cristandade remontam a um período tão longínquo no tempo? É verdade que o cristianismo foi adoptado como religião da Islândia por decisão do Parlamento no ano 1000, em Thingvellir. Todavia, ainda precedentemente alguns eremitas cristãos se tinham estabelecido na Islândia e só mais tarde chegaram os povoadores cristãos que pavimentaram o caminho para a histórica decisão do Parlamento. A partir dessa época, a Igreja católica tornou-se um elemento vital na formação do carácter e da cultura característicos do seu povo; e durante séculos a Santa Sé desempenhou o próprio papel, fomentando a esperança da nação nos períodos obscuros e promovendo o florescimento da cultura islandesa, que deu origem a obras-primas como as Sagas. Estou feliz porque muitas destas coisas serão reconhecidas durante as celebrações milenárias em Thingvellir, onde uma série de peças das coleções do Vaticano recordarão os laços históricos entre a Islândia e a Santa Sé. Embora tenham existido momentos turvos nas nossas relações recíprocas, os vínculos diplomáticos dos quais agora desfrutamos constituem um sinal do comum desejo de caminhar rumo ao futuro, sem nos deixarmos influenciar pelos mal-entendidos que causaram as tensões do passado, mas tendo como base o original, profundo e antigo ligame da compreensão. 

A herança cristã da sua nação é muito mais do que uma forma cultural superficial. No seu âmago estão aquelas «crenças e convicções comuns acerca dos princípios fundamentais», dos quais Vossa Excelência houve por bem falar. Estas crenças e convicções dizem respeito à verdade da pessoa e à compreensão da dignidade humana e dos direitos do homem, os quais promanam desta mesma verdade. Eis o verdadeiro humanismo que a Igreja procura promover em todas as épocas e lugares; e foi também precisamente esta a escolha que a Islândia fez de forma tão solene em Thingvellir, há quase mil anos. Agora a minha esperança é de que, enquanto se prepara para o Milénio, a nação renove aquela opção em todos os sectores da sua própria vida. 

A Bíblia está na raiz tanto do testemunho da Igreja como da cultura da Islândia; e na primeira página da Escritura lemos que Deus criou o ser humano à Sua imagem. Eis o fundamento de tudo aquilo que a Igreja tem a dizer acerca da dignidade humana e dos direitos do homem; por conseguinte, num certo sentido esta é a base da actividade diplomática da Santa Sé. Cada homem, mulher e criança é dotado de uma dignidade inviolável, e isto implica uma série de direitos humanos que não são concedidos ou negados por ninguém, senão por Deus. A tarefa do governo consiste em salvaguardar esta dignidade e garantir estes direitos; e a sociedade terá verdadeira liberdade na medida em que os governos obtiverem bom êxito nesta missão. Mas os regimes totalitários, que influenciaram este século de forma tão nefasta, demonstram de maneira demasiado evidente como a liberdade é frágil e com que rapidez se dissipa quando a dignidade humana e os direitos do homem são espezinhados. A Islândia goza de grande liberdade, que é inclusivamente o fruto da antiga tradição cristã da nação, e a Igreja católica continuará a ser um parceiro disposto a garantir que, através das celebrações milenárias e para além dessa data, as raízes de tal liberdade cresçam ainda mais em profundidade e em vigor no seio da sociedade islandesa. 

O Senhor Embaixador representa uma nação que não é grande nem populosa. Contudo, trata-se de um país que deu um contributo notável para a história do milénio que agora está a chegar ao fim. Um exemplo disto são as viagens de Leifur Eriksson, que Vossa Excelência quis mencionar e das quais a Islândia é justamente orgulhosa. Na figura de Eriksson vemos a coragem, a tenacidade e o engenho que sempre caracterizaram o povo islandês, de maneira especial no momento de enfrentar as adversidades, como o próprio Eriksson fez. Como Vossa Excelência disse ao referir-se à Islândia, ele «armava-se de boas ideias e de fortes convicções», cujo âmago era a sua fé cristã firmemente conservada. 

Não se trata apenas do passado da Islândia, mas também do caminho seguro rumo a um futuro digno da pessoa humana e do povo que Vossa Excelência representa. Rezo a fim de que no seu país a fé cristã se conjugue sempre com a coragem, a tenacidade e o engenho, de tal maneira que a Islândia possa tornar-se cada vez mais um lugar em que se salvaguardem a dignidade humana e os direitos do homem em todas as épocas e lá onde os mais débeis sejam, por conseguinte, os mais amados. No momento em que o Senhor Embaixador ingressa na comunidade diplomática credenciada junto da Santa Sé, garanto-lhe a imediata colaboração dos vários departamentos da Cúria Romana. Oxalá a sua missão ajude a revigorar o vínculo de amizade entre o seu Governo e a Santa Sé, e este ligame contribua em grande medida para o bem-estar da sua nação. Sobre Vossa Excelência, a sua família e todo o povo da Islândia, invoco as abundantes bênçãos de Deus Omnipotente.

 

© Copyright 1999 - Libreria Editrice Vaticana

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