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DISCURSO DO PAPA JOÃO
PAULO II
À NOVA EMBAIXADORA DA UCRÂNIA
JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
Quinta-feira, 20 de Maio de 1999
Excelência
É com grande prazer que lhe dou as
boas-vindas ao Vaticano e aceito as Cartas Credenciais mediante as quais Vossa
Excelência é nomeada Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da Ucrânia. É uma ocasião oportuna para
consolidarmos a amizade e a
cooperação que já existem entre o seu país e a Santa Sé, vínculos que
historicamente remontam a mil anos, ao Baptismo da Rus' de Kiev, e que
adquiriram uma nova forma e um novo vigor desde o advento da independência
da sua nação. Considero a sua presença aqui hoje como um sinal do nosso
desejo mútuo de consolidar as relações diplomáticas estabelecidas entre a
Ucrânia e a Santa Sé no ano de 1992. Estou grato pelas saudações que a
Senhora Embaixadora me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor
Presidente Leonid Kuchma, cujas visitas ao Vaticano recordo com vivacidade e
a quem formulo os meus bons votos, renovando a certeza das minhas orações
pela paz e a prosperidade do seu país.
As nações da Europa Oriental, inclusivamente a sua, Senhora Embaixadora, estão a passar por um período de rápida e
profunda transformação nos sectores social, económico e político. Enquanto
estas mudanças não estão isentas de grandes dificuldades e sacrifícios,
representam contudo transformações essencialmente positivas, orientadas
como estão para o respeito da liberdade e da autonomia dos povos. Depois de
décadas de fechamento numa ordem mundial assente sobre decisões impostas e
sobre barreiras ideológicas, as nações que tinham perdido a própria voz na
comunidade internacional agora estão a conquistar a sua soberania e a
perseguir o seu destino como parceiros igualitários no cenário do mundo. Por
conseguinte, o momento actual é de extrema importância na vida destes povos
e representa uma grave responsabilidade para os seus líderes.
Com o
esforço e a dedicação de inumeráveis dos seus compatriotas, a Ucrânia
está a dar grandes passos ao longo do caminho do desenvolvimento, em vista de
construir uma sociedade mais próspera, justa e democrática. Vossa Excelência
referiu-se à intenção que o seu país tem de obter a «completa reintegração no espaço europeu, assente
sobre os valores cristãos». Lutando
por este objectivo, Vossa Excelência está a redescobrir a fortaleza das
raízes espirituais e culturais latentes no coração mesmo da identidade do
seu país e do caminho do seu povo através da história. O desafio consiste
em crescer nas mais nobres tradições do passado, estando ao mesmo tempo
aberto a todas as exigências da consciência – que amadurece entre os povos
do mundo – acerca da natureza universal da dignidade humana e dos direitos do
homem.
Não obstante as difíceis lições deste século violento, infelizmente
a Europa é de novo teatro da opressão do homem por parte do próprio homem e
da quotidiana fulminação de armas mortíferas e destruidoras. Em nome de
desvirtuados ideais de diferenças culturais e étnicas, o valor fundamental e
real da dignidade inviolável de cada ser humano está a ser completamente
negado. Para além da retórica com que em geral estes conflitos são
apresentados, deveria ser evidente que as atrocidades perpetradas todos os
dias no solo europeu, nos Balcãs, não correspondem ao resultado das aspirações genuínas dos povos; pelo
contrário, foram-lhes atribuídas
motivações inauditas que representam interesses particulares e formas de sede
de poder bem delineadas.
Todas as pessoas devem preocupar-se em assegurar que o
diálogo substitua o conflito. O diálogo e a negociação significariam o
triunfo da razão, enquanto que a continuação dos combates étnicos e a luta
pelo poder em todas as partes do mundo constituem uma derrota da razão e um
sinal do fracasso da solidariedade e da sociedade humanas. Devemos esperar
que a Europa consiga encontrar na sua herança milenar as verdades e os
incentivos de que tem necessidade para restabelecer a regra da razão e a
norma da lei.
Os ucranianos cristãos, tanto ortodoxos como católicos, estão
a revitalizar as instituições e as expressões públicas da própria fé. No
Evangelho e nas tradições das suas Igrejas, estão a encontrar
a inspiração e o vigor para as enormes tarefas que se lhes apresentam como
cidadãos responsáveis pelo seu país, que há pouco conquistou a própria
independência. Todos os fiéis ucranianos devem estar persuadidos de que a
sua fé exige a compreensão e a cooperação recíprocas e não o preconceito
ou a rivalidade. As dificuldades entre os cristãos devem ser resolvidas
não só a nível da justiça e da equidade, mas ao nível muito mais
profundo da koinonia perante Deus e em Jesus Cristo. Reitero aqui um pensamento
que manifestei aos Bispos ucranianos de rito latino, por ocasião da sua visita
ad Limina, realizada no passado mês de Março: «Se o respeito de cada
identidade é pedido pela justiça, ele é ainda mais postulado pela caridade,
que para o cristão é lei suprema» (Ed. port. de L'Osservatore Romano de
10 de Abril de 1999, pág. 6, n. 5). Como Vossa Excelência justamente salientou, a celebração de um novo
milénio cristão, que se está a aproximar
de maneira muito rápida, constitui uma maravilhosa oportunidade para todos os
cristãos crescerem na paz, na tolerância e no respeito uns dos outros e por
todos os povos. Formulo ardentes votos por que uma sábia e positiva
manifestação da democracia e da liberdade no seu país, juntamente com a
renovação da convicção religiosa e do compromisso moral, faça nascer uma
era de desenvolvimento florescente, e que a presença e as obras da Ucrânia
no seio da família das nações contribuam para a construção de um mundo
melhor e mais pacífi- co, ao qual as pessoas de todos os lugares aspiram.
Oxalá as relações entre a Ucrânia e a Santa Sé, já calorosas, levem a
uma crescente compreensão e cooperação nos assuntos de comum interesse.
Excelência, transmito-lhe os meus melhores votos no momento em que inicia a
sua missão, e asseguro-lhe a disponibilidade dos departamentos da Santa Sé
em assisti-la no seu trabalho. Sobre Vossa Excelência e os seus concidadãos
invoco cordialmente as abundantes bênçãos de Deus Omnipotente.
© Copyright 1999 -
Libreria Editrice Vaticana
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