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DISCURSO DO SANTO
PADRE À NOVA EMBAIXADORA DA NOVA ZELÂNDIA JUNTO À SANTA
SÉ
25 de Maio de 2000
Excelência
É com prazer que lhe dou as boas-vindas no
início da sua missão como Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da
Nova Zelândia junto da Santa Sé. Ao receber as suas Cartas Credenciais, faço
extensivas as minhas saudações ao Governador-Geral, Sua Excelência o Senhor
Michael Hardie Boys, e à Primeira-Ministra, a ilustríssima Senhora Dona
Helen Clark. Peço que lhes transmita, bem como ao povo da Nova Zelândia, os
meus bons votos e a certeza das minhas preces pela harmonia e a prosperidade
da nação.
Estou-lhe grato pelas suas palavras de apreço
em relação à actividade diplomática da Santa Sé, mediante a qual ela
consegue ser uma parceira activa dos povos do mundo, enquanto estes lutam por
uma vida e um trabalho plenamente humanos, em vista do seu próprio
desenvolvimento e do progresso dos outros. Vossa Excelência afirmou que a
paz, a justiça e o respeito pelos direitos humanos são importantes para o
seu país, e estes valores e objectivos são também fulcrais para aquilo que
Vossa Excelência definiu como a singular perspectiva da Santa Sé perante as
questões internacionais.
A actividade da Santa Sé no foro mundial
deriva da perspectiva que é o resultado de uma visão específica da pessoa
humana, e da convicção de que quando esta visão é ameaçada ou abandonada,
debilita-se o próprio fundamento da sociedade humana. Trata-se de uma
perspectiva assente no respeito pela dignidade inalienável de cada ser
humano, uma dignidade intrínseca à própria vida, que não é dada nem
concedida por qualquer indivíduo, grupo ou Estado. É uma visão que exige a
perfeição da liberdade, mas de uma liberdade vinculada à verdade de modo
especial, à verdade acerca da pessoa humana, a única que garante uma base sólida
para a actividade política e diplomática construtiva. Em toda a parte, mesmo
num país como o seu, a liberdade é uma conquista frágil; e o século
passado ensinou-nos como é fácil que a liberdade se debilite, quando é
negada a verdade da pessoa humana.
As falsidades mais destruidoras acerca da
pessoa humana, a que o século XX deu origem, derivavam de pontos de vista
materialistas do mundo e da própria pessoa. Pode ser que os sistemas totalitários
tenham desaparecido, mas entretanto emergiram novas formas de materialismo,
talvez menos ideologicamente orientados e menos espectaculares nas suas
manifestações, e contudo arrasadores no seu efeito sobre as pessoas e o
tecido da sociedade.
Estamos rapidamente a tomar consciência de
como é vital respeitar a ecologia da natureza, se não quisermos causar sérios
prejuízos ao mundo que as gerações futuras hão-de herdar de nós. Ainda
mais urgente, embora mais difícil, é a necessidade de aprender a respeitar a
ecologia do mundo humano, com a qual me refiro à própria pessoa humana e às
suas implicações sociais. A acção da Santa Sé no campo internacional flui
da sua convicção de que determinados elementos fundamentais desta ecologia
humana devem absolutamente ser compreendidos e salvaguardados.
Um destes elementos é a família, a célula
básica da sociedade e o indicador mais seguro da saúde e da estabilidade de
uma nação. As tentativas de definir a família como algo diferente da solene
união perpétua entre um homem e uma mulher, em vista da procriação e da
educação dos próprios filhos, estão destinadas a demonstrar-se
destruidoras. Esta reivindicação não é um problema de apego a um modelo
cultural do passado, que se rejeita a encarar os factos, mas precisamente o
reconhecimento de uma verdade fundamental: a família é a célula básica
da sociedade humana não só porque é nesse contexto que nasce a vida do
homem, mas porque é ali que os filhos aprendem melhor as disposições e as
habilidades de que têm necessidade para crescer como seres humanos sazonados,
capazes de contribuir para a vida comum e o bem da sociedade. É na família
que eles aprendem da melhor forma a verdade daquilo que significa ser uma
pessoa dotada de inteligência e vontade, chamada à liberdade e à
responsabilidade, desafiada por direitos e deveres. Os factos sugerem uma lógica
que é clarividente e infalível: quando as famílias são débeis,
significa que a sociedade é incapaz de tutelar os seus membros, especialmente
os jovens, na edificação do bem comum. Os indivíduos e até mesmo as
estruturas sociais são depauperados por formas de egoísmo e de escapismo,
que deixam pouco espaço ao compromisso, ao amor abnegado e à solidariedade
para com os membros mais frágeis da sociedade.
Outro elemento-chave da ecologia humana é a
inviolabilidade da vida do homem, de modo especial no seu início e no seu
termo. A Santa Sé proclama com insistência o facto de que o direito humano
primordial e mais fundamental de todos é o direito à vida, e quando este é
espezinhado, todos os outros são ameaçados. A presunção de que o aborto e
a autanásia são direitos humanos merecedores de uma sanção legislativa é
considerada pela Santa Sé como uma contradição que corresponde à negação
da dignidade e liberdade humanas, as quais deveriam ser tuteladas pela lei.
A sociedade será julgada com base no modo
de tratar os seus membros mais frágeis; e entre os mais vulneráveis,
contam-se naturalmente os nascituros e os moribundos. Um ponto de vista
materialista da pessoa humana atribuirá pouco valor e dignidade a ambos.
Desta forma, o que é decantado como uma vitória dos direitos humanos, na
realidade é a sanção de uma liberdade separada da verdade. Em última análise,
esta não é de modo algum uma liberdade, mas uma decadência na
arbitrariedade e no domínio dos fortes sobre o fracos. Por conseguinte, a
Santa Sé formula votos por que as comunidades políticas e diplomáticas
reflictam profundamente sobre os enormes desafios que acompanham o início do
novo milénio: o desafio de assegurar um novo florescimento do espírito
humano, mediado através de uma autêntica cultura da liberdade, da esperança
e da confiança (cf. Discurso na 50ª Assembleia Geral da Organização das
Nações Unidas, 5 de Outubro de 1995, n. 16).
Excelência, no momento em que assume o seu
lugar na comunidade dos diplomatas acreditados junto da Santa Sé,
asseguro-lhe a pronta colaboração dos vários departamentos e agências da Cúria
Romana. A sua missão sirva para fortalecer os vínculos de amizade e de
cooperação já existentes entre o seu Governo e a Santa Sé. Sobre Vossa
Excelência e os seus compatriotas neozelandeses, invoco as abundantes bênçãos
do Omnipotente.
© Copyright 2000 - Libreria Editrice Vaticana
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