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JOÃO
PAULO II
DISCURSO
AOS PARTICIPANTES NO VII CONGRESSO MUNDIAL DOS INSTITUTOS SECULARES
Castel
Gandolfo, 27 de Agosto de 2000
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
1. É-me grato acolher-vos por ocasião do vosso
Congresso, que da celebração jubilar em curso recebe uma orientação e um
estímulo particular. Saúdo-vos a todos com intensa cordialidade, dirigindo
um particular pensamento ao Cardeal Eduardo Martínez Somalo, Prefeito da
Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica, que interpretou com entusiasmo os vossos sentimentos.
No ano do Grande Jubileu a Igreja convida todos os
leigos, mas com um título particular os membros dos Institutos Seculares, ao
empenho de animação evangélica e de testemunho cristão no interior das
realidades seculares. Como tive ocasião de dizer por ocasião do nosso
encontro para o quinquagésimo aniversário da Provida Mater Ecclesia, vós
estais, por vocação e missão, no ponto de encruzilhada entre a iniciativa
de Deus e a expectativa da criação: a iniciativa de Deus, que levais
ao mundo através do amor e da íntima união a Cristo; a expectativa da criação,
que compartilhais na condição quotidiana e secular dos vossos semelhantes
(cf. L'Osservatore Romano, ed. port. de 8/2/1997, pág. 4 n. 5). Por
isto, como consagrados seculares, deveis viver com consciência operosa as
realidades do vosso tempo, porque o seguimento de Cristo, que dá significado
à vossa vida, vos empenha seriamente em relação àquele mundo que sois
chamados a transformar segundo o projecto de Deus.
2. O vosso Congresso Mundial concentra a atenção no
tema da formação dos membros dos Institutos Seculares. É preciso que eles
sejam sempre capazes de discernir a vontade de Deus e as vias da nova
evangelização em cada "hoje" da história, na complexidade e
mutabilidade dos sinais dos tempos.
Na Exortação Apostólica Christifideles laici
dediquei amplo espaço ao tema da formação dos cristãos nas suas
responsabilidades históricas e seculares, como também na sua directa
colaboração na edificação da comunidade cristã; e indiquei as fontes
indispensáveis dessa formação: "a escuta pronta e dócil da
palavra de Deus e da Igreja, a oração filial e constante, a referência a
uma sábia e amorosa direcção espiritual, a leitura, feita na fé, dos dons
e dos talentos recebidos, bem como das diversas situaçes sociais e históricas
em que nos encontramos" (n. 58).
A formação, portanto, de modo global diz respeito à
vida inteira do consagrado. Ela nutre-se também das análises e das reflexões
dos especialistas de sociologia e das outras ciências humanas, mas não pode
esquecer, como seu centro vital e critério para a avaliação cristã dos fenómenos
históricos, a dimensão espiritual, teológica e sapiencial da vida de fé,
que fornece as chaves últimas e decisivas para a leitura da actual condição
humana e para a escolha das prioridades e dos estilos dum autêntico
testemunho.
O olhar que dirigimos para as realidades do mundo
contemporâneo, olhar que desejaríamos que fosse sempre repleto da compaixão
e da misericórdia que nos foi ensinada por nosso Senhor Jesus Cristo, não se
detém a detectar erros e perigos. Sem dúvida, não pode deixar de anotar
também os aspectos negativos e problemáticos, mas dirige-se imediatamente a
determinar vias de esperança e a indicar perspectivas de fervoroso empenho
pela promoção integral da pessoa, pela sua libertação e a plenitude da sua
felicidade.
3. No coração de um mundo que muda, no qual persistem e
se agravam injustiças e sofrimentos inauditos, sois chamados a uma leitura
cristã dos factos e dos fenómenos históricos e culturais. Em particular,
deveis ser portadores de luz e de esperança à sociedade de hoje. Não vos
deixeis enganar por ingénuos optimismos, mas permanecei fiéis testemunhas de
um Deus que certamente ama esta humanidade e lhe oferece a graça necessária,
a fim de que possa trabalhar de maneira eficaz para a construção de um mundo
melhor, mais justo e mais respeitdor da dignidade de todo o ser humano. O
desafio, que a cultura contemporânea dirige à fé, parece ser precisamente
este: abandonar a fácil inclinação a descrever cenários sombrios e
negativos, para traçar percursos possíveis, não ilusórios, de redenção,
libertação e esperança.
A vossa experiência de consagrados na condição secular
mostra-vos que não se deve esperar o advento de um mundo melhor só das opções
que provêm do alto das grandes responsabilidades e das grandes instituições.
A graça do Senhor, capaz de salvar e de redimir também esta época da história,
nasce e cresce nos corações dos crentes. Eles acolhem, ajudam e favorecem a
iniciativa de Deus na história e fazem-na crescer a partir de baixo e do
interior das simples vidas humanas, que se tornam assim as verdadeiras
portadoras da transformação e da salvação. Basta pensar na acção
exercida neste sentido pela inumerável plêiade de santos e santas, mesmo
daqueles não oficialmente declarados tais pela Igreja, que marcaram de modo
profundo a época em que viveram, levando-lhe valores e energias de bem, cuja
importância escapa aos instrumentos da análise social, mas é bem visível
aos olhos de Deus e à atenta reflexão dos crentes.
4. A formação para o discernimento não pode descuidar
o fundamento de todo o projecto humano, que é e continua a ser Jesus Cristo.
A missão dos Institutos Seculares é "infundir na sociedade as energias
novas do Reino de Cristo, procurando transfigurar o mundo
a partir de dentro com a força das bem-aventuranças" (Vita
consecrata, 10). A fé dos discípulos torna-se deste modo alma do mundo,
segundo a feliz imagem da carta "A Diogneto", e produz uma renovação
cultural e social que deve ser posta à disposição da humanidade. Quanto
mais a humanidade se encontrar distante e estranha em relação à mensagem
evangélica, tanto mais deverá ressoar forte e persuasivo o anúncio da
verdade de Cristo e do homem redimido por Ele.
Certamente, dever-se-á sempre prestar atenção às
modalidades deste anúncio, para que a humanidade não o perceba como invasão
e imposição por parte dos crentes. Ao contrário, será nossa tarefa fazer
com que apareça sempre mais claro que a Igreja, portadora da missão de
Cristo, cuida do homem com amor. E fá-lo não para a
humanidade em abstracto, mas para este homem concreto e histórico, na convicção
de que "este homem é o primeiro
caminho que a Igreja deve percorrer na realização da sua missão... o
caminho traçado pelo próprio Cristo, caminho que invariavelmente
passa pelo mistério da Encarnação e da Redenção" (Redemptor
hominis, 14; cf. Centesimus annus, 53).
5. A vossa formação inicial e permanente, queridos
responsáveis e membros dos Institutos Seculares, deve ser nutrida por estas
certezas. Ela produzirá frutos abundantes na medida em que continuar a haurir
do inexaurível tesouro da Revelação, lida e proclamada com sabedoria e amor
pela Igreja.
A Maria, Estrela da evangelização, que da Igreja é ícone
inigualável, confio o vosso caminho pelas estradas do mundo. Esteja Ela ao
vosso lado e a sua intercessão torne fecundos os trabalhos do vosso Congresso
e dê fervor e renovado impulso apostólico às Instituições que aqui
representais, a fim de que o evento jubilar assinale o início de um novo
Pentecostes e de uma profunda renovação interior.
Com estes votos a todos concedo, como penhor de constante
afecto, a Bênção Apostólica.
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