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DISCURSO DO SANTO PADRE
AO NOVO EMBAIXADOR DO CANADÁ
JUNTO À SANTA SÉ POR OCASIÃO DA
APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Terça-feira, 12 de outubro de 2000


1. É-me particularmente grato receber Vossa Excelência por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Canadá junto da Santa Sé.

Senhor Embaixador, fiquei sensibilizado com as palavras que acaba de me dirigir, evocando a precedente missão que teve em Roma, na Embaixada na Itália. Agradeço-lhe as mensagens que me transmitiu da parte de Suas Excelências o Governador-Geral e o Primeiro-Ministro; ficar-lhe-ia grato se exprimisse toda a minha gratidão e os meus cordiais bons votos pela sua missão ao serviço dos compatriotas. Permita-me recordar aqui, a figura de Sua Excelência o Senhor Pierre Elliot Trudeau, que faleceu há poucos dias. Ele serviu durante muito tempo o seu País e quero evocar a sua memória.

2. Como acaba de referir, desejei que a próxima Jornada Mundial da Juventude se realize em Toronto, oferecendo assim a todos os jovens do mundo, e principalmente à juventude do vasto Continente americano, a ocasião de viver uma nova experiência de fé e de encontro eclesial.

Agradeço às Autoridades do Canadá e à Igreja local o apoio que deram a esta proposta e a calorosa hospitalidade que reservaram a este convite, o que faz parte da tradição e da cultura do seu País. A recente Jornada Mundial da Juventude, que teve lugar em Roma neste Ano jubilar e que Vossa Excelência acaba de mencionar com palavras que me sensibilizam de modo particular, constituem um convite premente para a Igreja e as comunidades nacionais a todos os níveis da sociedade. Com efeito, no passado mês de Agosto, a juventude actual manifestou, de maneira ainda mais vigorosa que em outras assembleias, o seu desejo de levar uma vida bela e boa, voltando-se para Deus e servindo o próximo.

Isto lembra-nos a atenção que devemos prestar aos jovens, à sua formação intelectual e profissional assim como, mais amplamente, à sua educação humana, moral e espiritual. É especialmente importante ensinar-lhes o valor da vida, de cada vida, desde a concepção até ao seu termo natural, porque a vida é um dom de Deus, de que nós não somos os senhores. Hoje, as numerosas técnicas permitem que um bom número dos nossos contemporâneos pense que o que é cientificamente possível fazer é também aceitável do ponto de vista moral, em particular no contexto das técnicas da reprodução humana. A ciência, que é uma ajuda preciosa, nunca pode ser por si só um critério de discernimento moral, simplesmente porque oferece possibilidades novas, um poder do homem sobre o homem e, de certa maneira, um domínio do ser vivo.

Vossa Excelência conhece também o compromisso da Sé Apostólica e da Igreja no seu País, em comunicar aos jovens os elementos que lhes hão-de permitir levar uma vida pessoal e social fundada sobre os valores essenciais. É importante que o conjunto da comunidade educativa de um país se mobilize para transmitir às gerações vindouras, pelo ensino e o testemunho de vida, não somente o saber, mas também a capacidade e os valores que permitem reconhecer o sentido profundo de toda a existência, assim como, de forma concreta, os elementos necessários para o discernimento, as decisões e o agir humanos. De modo particular, é essencial oferecer aos jovens e adultos a capacidade de julgar o valor das suas decisões e dos seus actos pessoais, porque eles devem assumir a responsabilidade diante daqueles que lhes podem pedir contas na vida pública.

3. Neste espírito, todas as Autoridades interessadas devem prestar ajuda e apoio às instituições e às pessoas comprometidas no sistema educativo, oferecendo também aos pais a possibilidade e os meios para escolherem os lugares onde podem dar aos próprios filhos a formação que corresponde à que eles procuram; com efeito, ninguém se pode substituir à responsabilidade dos pais neste campo, enquanto que a comunidade nacional só deve agir num clima de subsidiariedade.

Deste modo, a instituição conjugal e familiar, enquanto célula básica e estrutura fundamental da sociedade, à qual nenhuma outra se pode sobrepor ou mesmo situar a nível de igualdade, há-de ser privilegiada nas decisões políticas e económicas. Os pais, que são os primeiros educadores dos seus filhos, realizam junto deles uma missão social de primeiro plano. Eles têm a responsabilidade da sua educação espiritual, moral e cívica; para a cumprirem de modo correcto, precisam de ser plenamente reconhecidos, sustentados e protegidos pelos dirigentes. Da mesma forma os grupos religiosos, reconhecidos pela Autoridade legítima, devem poder dar a sua contribuição ao sistema educativo, para inculcar nos jovens cujos pais o pedem, os valores e os princípios religiosos fundamentais, no respeito da liberdade de consciência.

4. O Canadá é um grande País que contém numerosos grupos humanos diferentes, os quais contribuem para a riqueza nacional. É importante que todas as culturas, algumas das quais estão entre as mais antigas do Continente, sejam plenamente reconhecidas e possam tomar uma parte activa na vida social, no respeito da sua especificidade e no cuidado natural pela equidade e solidariedade fraternas. Com efeito, respeitar as culturas, cujos membros são chamados a agir em harmonia e sintonia, é favorecer o desenvolvimento das pessoas, a compreensão entre os habitantes do mesmo país, a coesão social e a integração das forças vivas de uma nação, a fim de que todos concorram para o bem comum e a edificação da sociedade. Em particular, exige-se a atenção permanente para com todos os que, no seio da sociedade, são cada vez mais pobres e excluídos das redes económicas. É nesta mesma perspectiva que os seus compatriotas são chamados a prestar uma atenção cada vez maior à recepção dos estrangeiros; encorajo-os a trabalhar para que cada homem desabrigado ou sem terra possa, graças aos outros homens, encontrar toda a sua dignidade e levar uma vida que corresponda a essa mesma dignidade. A atenção aos emigrantes, nomeadamente àqueles que vêm dos países mais pobres ou de regiões onde há conflitos, é uma exigência da vida nacional e internacional. Ninguém pode abandonar o próximo sem assistência, nem lugar onde se estabelecer para se alimentar, vestir, viver na terra e ter tudo o que é necessário para levar uma existência decente.

5. Sob este ponto de vista, o ano do grande Jubileu é também uma ocasião particularmente favorável, para os cristãos e todos os homens de boa vontade, de aumentar a sua solidariedade em relação aos irmãos dos países mais pobres; da mesma maneira, convém que os Estados mais ricos, mediante significativos gestos de perdão da dívida internacional, contribuam para a vida desses países, graças ao envio de pessoas qualificadas que poderiam dar o seu apoio, durante um tempo limitado e com profundo cuidado pedagógico, para uma melhor organização e uma mais sadia gestão política, económica e social, no respeito pelas especificidades das nações em questão.

Aprecio ainda o compromisso do seu País em favor da paz e da luta contra as minas anti-homem; estas ainda fazem muitas vítimas em todo o mundo, principalmente entre as crianças, que ficarão marcadas na sua carne para sempre por decisões irresponsáveis de países em guerra, que consistem em atacar indirectamente as populações civis inermes. Neste Ano jubilar, em que Cristo nos convida a ser cada vez mais responsáveis uns pelos outros, renovo uma vez mais o meu apelo à comunidade internacional, a fim de que se faça tudo, onde se julgar necessário, para eliminar dos campos o mais depressa possível estas armas terríveis que foram instaladas, e para deixar de as fabricar de uma vez para sempre. Os homens são a principal riqueza do planeta e atentar contra eles faz correr alguns riscos à humanidade inteira.

6. A sua presença no Vaticano oferece-me a ocasião para dirigir uma cordial saudação aos Bispos e a todos os fiéis católicos do Canadá. Encorajo-os a continuar fielmente a vida cristã, à volta dos seus pastores. Encontrarão nesta caminhada a força para dar testemunho junto dos seus compatriotas, de maneira renovada pelas suas palavras e obras, da sua fé e dos valores evangélicos que os fazem viver. Vossa Excelência conhece a longa experiência da Igreja, nomeadamente nos sectores da educação, da família, da saúde e da actividade caritativa. Tanto no Canadá como no conjunto do Continente americano, os fiéis não cessam de se comprometer ao lado dos seus irmãos, e a Igreja católica deseja participar plenamente na vida nacional, num espírito de diálogo e de colaboração com todos os homens de boa vontade e com o papel específico que lhes compete.

No momento em que começa a sua missão de Representante do Canadá junto da Sé Apostólica, apresento-lhe os meus melhores votos. Garanto-lhe que encontrará sempre junto dos meus colaboradores um acolhimento caloroso e uma compreensão atenta para cumprir a missão que lhe foi confiada.

Por seu intermédio, Senhor Embaixador, saúdo cordialmente Sua Excelência o Governador-Geral, o Senhor Primeiro- Ministro, o conjunto das Autoridades e todo o povo do Canadá, dirigindo a todos os meus votos de felicidade e de prosperidade.

Peço a Deus que lhe conceda, assim como àqueles que lhe são próximos, aos seus colaboradores na Embaixada e a todos os seus compatriotas, os benefícios das Suas Bênçãos.


© Copyright 2000 - Libreria Editrice Vaticana


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