1. É-me particularmente grato receber Vossa Excelência por ocasião da
apresentação das Cartas que o acreditam como
Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Canadá junto
da Santa Sé.
Senhor Embaixador, fiquei sensibilizado com as
palavras que acaba de me dirigir, evocando a precedente missão que teve em
Roma, na Embaixada na Itália. Agradeço-lhe as mensagens que me transmitiu da
parte de Suas Excelências o Governador-Geral e o Primeiro-Ministro;
ficar-lhe-ia grato se exprimisse toda a minha gratidão e os meus cordiais bons
votos pela sua missão ao serviço dos compatriotas. Permita-me recordar aqui, a
figura de Sua Excelência o Senhor Pierre Elliot Trudeau, que faleceu há poucos
dias. Ele serviu durante muito tempo o seu País e quero evocar a sua memória.
2. Como acaba de referir, desejei que a próxima
Jornada Mundial da Juventude se realize em Toronto, oferecendo assim a
todos os jovens do mundo, e principalmente à juventude do vasto Continente
americano, a ocasião de viver uma nova experiência de fé e de encontro
eclesial.
Agradeço às Autoridades do Canadá e à
Igreja local o apoio que deram a esta proposta e a calorosa hospitalidade que
reservaram a este convite, o que faz parte da tradição e da cultura do seu País.
A recente Jornada Mundial da Juventude, que teve lugar em Roma neste Ano
jubilar e que Vossa Excelência acaba de mencionar com palavras que me
sensibilizam de modo particular, constituem um convite premente para a Igreja e
as comunidades nacionais a todos os níveis da sociedade. Com efeito, no passado
mês de Agosto, a juventude actual manifestou, de maneira ainda mais vigorosa
que em outras assembleias, o seu desejo de levar uma vida bela e boa,
voltando-se para Deus e servindo o próximo.
Isto lembra-nos a atenção que devemos
prestar aos jovens, à sua formação intelectual e profissional assim como,
mais amplamente, à sua educação humana, moral e espiritual. É especialmente
importante ensinar-lhes o valor da vida, de cada vida, desde a concepção até
ao seu termo natural, porque a vida é um dom de Deus, de que nós não somos os
senhores. Hoje, as numerosas técnicas permitem que um bom número dos nossos
contemporâneos pense que o que é cientificamente possível fazer é também
aceitável do ponto de vista moral, em particular no contexto das técnicas da
reprodução humana. A ciência, que é uma ajuda preciosa, nunca pode ser por
si só um critério de discernimento moral, simplesmente porque oferece
possibilidades novas, um poder do homem sobre o homem e, de certa maneira, um
domínio do ser vivo.
Vossa Excelência conhece também o
compromisso da Sé Apostólica e da Igreja no seu País, em comunicar aos jovens
os elementos que lhes hão-de permitir levar uma vida pessoal e social fundada
sobre os valores essenciais. É importante que o conjunto da comunidade
educativa de um país se mobilize para transmitir às gerações vindouras, pelo
ensino e o testemunho de vida, não somente o saber, mas também a capacidade e
os valores que permitem reconhecer o sentido profundo de toda a existência,
assim como, de forma concreta, os elementos necessários para o discernimento,
as decisões e o agir humanos. De modo particular, é essencial oferecer aos
jovens e adultos a capacidade de julgar o valor das suas decisões e dos seus
actos pessoais, porque eles devem assumir a responsabilidade diante daqueles que
lhes podem pedir contas na vida pública.
3. Neste espírito, todas as Autoridades
interessadas devem prestar ajuda e apoio às instituições e às pessoas
comprometidas no sistema educativo, oferecendo também aos pais a possibilidade
e os meios para escolherem os lugares onde podem dar aos próprios filhos a
formação que corresponde à que eles procuram; com efeito, ninguém se pode
substituir à responsabilidade dos pais neste campo, enquanto que a comunidade
nacional só deve agir num clima de subsidiariedade.
Deste modo, a instituição conjugal e
familiar, enquanto célula básica e estrutura fundamental da sociedade, à qual
nenhuma outra se pode sobrepor ou mesmo situar a nível de igualdade, há-de ser
privilegiada nas decisões políticas e económicas. Os pais, que são os
primeiros educadores dos seus filhos, realizam junto deles uma missão social de
primeiro plano. Eles têm a responsabilidade da sua educação espiritual, moral
e cívica; para a cumprirem de modo correcto, precisam de ser plenamente
reconhecidos, sustentados e protegidos pelos dirigentes. Da mesma forma os
grupos religiosos, reconhecidos pela Autoridade legítima, devem poder dar a sua
contribuição ao sistema educativo, para inculcar nos jovens cujos pais o
pedem, os valores e os princípios religiosos fundamentais, no respeito da
liberdade de consciência.
4. O Canadá é um grande País que contém
numerosos grupos humanos diferentes, os quais contribuem para a riqueza
nacional. É importante que todas as culturas, algumas das quais estão entre as
mais antigas do Continente, sejam plenamente reconhecidas e possam tomar uma
parte activa na vida social, no respeito da sua especificidade e no cuidado
natural pela equidade e solidariedade fraternas. Com efeito, respeitar as
culturas, cujos membros são chamados a agir em harmonia e sintonia, é
favorecer o desenvolvimento das pessoas, a compreensão entre os habitantes do
mesmo país, a coesão social e a integração das forças vivas de uma nação,
a fim de que todos concorram para o bem comum e a edificação da sociedade. Em
particular, exige-se a atenção permanente para com todos os que, no seio da
sociedade, são cada vez mais pobres e excluídos das redes económicas. É
nesta mesma perspectiva que os seus compatriotas são chamados a prestar uma
atenção cada vez maior à recepção dos estrangeiros; encorajo-os a trabalhar
para que cada homem desabrigado ou sem terra possa, graças aos outros homens,
encontrar toda a sua dignidade e levar uma vida que corresponda a essa mesma
dignidade. A atenção aos emigrantes, nomeadamente àqueles que vêm dos países
mais pobres ou de regiões onde há conflitos, é uma exigência da vida
nacional e internacional. Ninguém pode abandonar o próximo sem assistência,
nem lugar onde se estabelecer para se alimentar, vestir, viver na terra e ter
tudo o que é necessário para levar uma existência decente.
5. Sob este ponto de vista, o ano do grande
Jubileu é também uma ocasião particularmente favorável, para os cristãos e
todos os homens de boa vontade, de aumentar a sua solidariedade em relação aos
irmãos dos países mais pobres; da mesma maneira, convém que os Estados mais
ricos, mediante significativos gestos de perdão da dívida internacional,
contribuam para a vida desses países, graças ao envio de pessoas qualificadas
que poderiam dar o seu apoio, durante um tempo limitado e com profundo cuidado
pedagógico, para uma melhor organização e uma mais sadia gestão política,
económica e social, no respeito pelas especificidades das nações em questão.
Aprecio ainda o compromisso do seu País em
favor da paz e da luta contra as minas anti-homem; estas ainda fazem muitas vítimas
em todo o mundo, principalmente entre as crianças, que ficarão marcadas na sua
carne para sempre por decisões irresponsáveis de países em guerra, que
consistem em atacar indirectamente as populações civis inermes. Neste Ano
jubilar, em que Cristo nos convida a ser cada vez mais responsáveis uns pelos
outros, renovo uma vez mais o meu apelo à comunidade internacional, a fim de
que se faça tudo, onde se julgar necessário, para eliminar dos campos o mais
depressa possível estas armas terríveis que foram instaladas, e para deixar de
as fabricar de uma vez para sempre. Os homens são a principal riqueza do
planeta e atentar contra eles faz correr alguns riscos à humanidade inteira.
6. A sua presença no Vaticano oferece-me a
ocasião para dirigir uma cordial saudação aos Bispos e a todos os fiéis católicos
do Canadá. Encorajo-os a continuar fielmente a vida cristã, à volta dos seus
pastores. Encontrarão nesta caminhada a força para dar testemunho junto dos
seus compatriotas, de maneira renovada pelas suas palavras e obras, da sua fé e
dos valores evangélicos que os fazem viver. Vossa Excelência conhece a longa
experiência da Igreja, nomeadamente nos sectores da educação, da família, da
saúde e da actividade caritativa. Tanto no Canadá como no conjunto do
Continente americano, os fiéis não cessam de se comprometer ao lado dos seus
irmãos, e a Igreja católica deseja participar plenamente na vida nacional, num
espírito de diálogo e de colaboração com todos os homens de boa vontade e
com o papel específico que lhes compete.
No momento em que começa a sua missão de
Representante do Canadá junto da Sé Apostólica, apresento-lhe os meus
melhores votos. Garanto-lhe que encontrará sempre junto dos meus colaboradores
um acolhimento caloroso e uma compreensão atenta para cumprir a missão que lhe
foi confiada.
Por seu intermédio, Senhor Embaixador, saúdo
cordialmente Sua Excelência o Governador-Geral, o Senhor Primeiro- Ministro, o
conjunto das Autoridades e todo o povo do Canadá, dirigindo a todos os meus
votos de felicidade e de prosperidade.
Peço a Deus que lhe conceda, assim como àqueles
que lhe são próximos, aos seus colaboradores na Embaixada e a todos os seus
compatriotas, os benefícios das Suas Bênçãos.
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