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DISCURSO DO SANTO PADRE AO
NOVO EMBAIXADOR DA VENEZUELA JUNTO À SANTA SÉ
POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS
 CARTAS CREDENCIAIS

6 de Novembro de 2000



Senhor Embaixador Ignacio Quintana,

1. É um prazer receber as Cartas Credenciais que o acreditam como Embaixador da República da Venezuela junto da Santa Sé e dar-lhe as boas-vindas, ao mesmo tempo que exprimo os meus melhores votos para a missão que lhe foi confiada. Desejo manifestar também o meu sincero agradecimento pela deferente saudação do Senhor Presidente da República, da qual Vossa Excelência se fez intérprete, pedindo-lhe ao mesmo tempo que lhe faça chegar a minha especial proximidade ao povo venezuelano, para o qual desejo, neste momento da sua vida política e institucional, um desenvolvimento continuado dos valores espirituais e um sensível crescimento de bem-estar social. Aproveito esta oportunidade para reiterar a mensagem de conforto que quis deixar ao povo venezuelano no final da minha segunda visita a esse País, convidando-o a fazer "dos valores cristãos e éticos, que configuraram o vosso ser como Nação, um factor de coesão social, de progresso e de paz" (Discurso de despedida, 11/02/1996, 2, ed. port. de L'Osservatore Romano de 24/2/1996, pág. 5).

A Venezuela é um País maravilhoso com as suas belezas naturais e rico de cultura, a que Cristóvão Colombo chamou "terra de graça", e que conheceu no decurso do século que está a terminar um particular crescimento demográfico e socioeconómico.

Apercebi-me disto pessoalmente durante as minhas duas viagens pastorais, sentindo o calor do acolhimento e as esperanças que vibram no coração do seu povo, aberto e generoso. Por isso alegro-me com os seus benefícios, partilho as suas preocupações e uno-me ao seu sofrimento nos momentos de desgraça, como aqueles em que, há quase um ano, calamidades naturais semearam morte e desolação no País e que ainda recentemente se fizeram sentir. Nestas e noutras ocasiões, invoco convosco o auxílio do Senhor para os queridos filhos venezuelanos e exorto à solidariedade humana, nacional e internacional, em favor dos mais prejudicados.

2. No exercício da missão que o seu Governo lhe confiou, Vossa Excelência terá a responsabilidade de manter constantemente e de fomentar as relações diplomáticas do seu País com a Santa Sé. Esta, em virtude da solicitude do Papa por todas as Igrejas, segue com interesse as vicissitudes de todos os lugares. Por este motivo Vossa Excelência pode ter a certeza de que encontrará aqui o apoio e o acolhimento necessários, convicto de que a Igreja, e a Santa Sé em particular, não tem outros interesses na Venezuela a não ser o bem dos próprios venezuelanos, aos quais anuncia o Evangelho realizando a missão que Cristo lhe confiou.

De facto, a acção da Igreja e dos poderes públicos confluem para os mesmos destinatários, visto que as duas partes têm como objectivo o bem material e espiritual da pessoa humana num determinado momento da história. Por conseguinte, com o máximo respeito das respectivas responsabilidades, as relações que devem existir entre elas são sobretudo de diálogo e colaboração. À Igreja competem tarefas nos âmbitos concernentes aos valores que, por sua vez, são a alma de uma nação. Neste aspecto, sobressai o risco de duas ameaças que recaiem sobre a comunidade humana: a que pretende "poder realizar na história o bem absoluto" (Centesimus annus, 45), e a que delineia uma acção política que não siga a orientação da verdade; de facto, "uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história demonstra" (Ibid., n. 46).

Sem dúvida, a Igreja não tem o dever nem pretende competir com os projectos políticos para resolver os problemas da sociedade a partir da perspectiva técnica e administrativa, que é própria da autoridade civil. Neste sentido, como já dizia Santo Agostinho, a Igreja sente-se peregrina e "guiada pela fé, não pela visão" (De civ. Dei, 19, 14). Sem dúvida, com o seu sentido da pessoa, o seu interesse pela solidariedade e a sua atenção aos mais débeis, pode contribuir para instaurar uma vida social melhor. Além disso, os cidadãos, ao constatar concretamente que as suas razões de viver e as suas convicções espirituais são apreciadas e respeitadas pelos poderes públicos, estarão mais dispostos a participar com confiança e serenidade no projecto de sociedade comum, que, sem dúvida, beneficiará a todos.

3. Como no passado, também nas actuais circunstâncias será proveitoso para o povo venezuelano o firme empenho da Igreja e dos seus Pastores em favor dos direitos fundamentais das pessoas, na sua decidida defesa da vida desde o momento da concepção até ao seu fim natural, na sua intensa e constante actividade educativa, na sua promoção da família como instituição natural e célula básica da sociedade e no seu empenho por libertar tantos cidadãos das cadeias da miséria, da fome, da corrupção de costumes e de muitas outras formas de marginalização social. Faz isto inspirada no Evangelho que ilumina as realidades temporais à luz da excelsa vocação à qual o homem foi chamado por Deus, e firmemente convencida de que esta é a melhor forma de servir os homens e os povos.

Em virtude da missão que lhe é própria, a Igreja reclama o espaço necessário para as suas actividades, colaborando concretamente com as autoridades civis, a fim de dispor estavelmente do espaço social e dos meios necessários que lhe permitam realizá-las. As mesmas pessoas às quais serve, procurando fazer delas bons cristãos e cidadãos honestos, empenhados no bom andamento do seu país, são as mesmas que, nos seus próprios âmbitos, se ocupam dos poderes públicos.

Por conseguinte, não deve haver hesitações nem sequer rivalidades em assuntos nos quais se decide o bem comum e o futuro digno de um povo, como a defesa sem paliativos da dignidade humana sua integridade total, de uma educação aberta à dimensão transcendente da pessoa, que não pode prescindir do aspecto religioso, ou dos direitos fundamentais, civis e sociais, de todos os seres humanos. Os graves desafios que se apresentam no terceiro milénio exigem que se unam os esforços, na convicção unânime de que "a defesa da universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos é essencial para a construção duma sociedade pacífica e para o progresso integral de indivíduos, povos e nações" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1999, n. 3).

4. Nas minhas duas visitas à Venezuela, tive a alegria de me encontrar com um povo desejoso de edificar um futuro sobre a sua tradicional identidade, de profundas raízes cristãs que proporcionaram numerosas manifestações de piedade popular e de devoção à Virgem Maria. Precisamente durante a primeira visita coroei a imagem de Nossa Senhora de Coromoto e, durante a segunda, inaugurei o Santuário a ela dedicado. Hoje invoco-a de novo para que proteja os queridos venezuelanos e os guie com a sua ternura de mãe até ao seu divino Filho, o único Salvador do género humano. Neste Ano de graça no qual se comemora o 2000º aniversário da sua vinda com a celebração do Grande Jubileu, rogo ao Senhor que cumule das suas bênçãos todo o povo venezuelano, para que comece o novo milénio com renovada esperança e desejoso de construir um mundo melhor.

Senhor Embaixador, desejo-lhe bom êxito na missão que agora inicia e que, juntamente com a sua distinta família, tenha uma feliz permanência em Roma.

 

© Copyright 2000 - Libreria Editrice Vaticana

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