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DISCURSO DO SANTO PADRE
 AO CORPO DIPLOMÁTICO
PARA A APRESENTAÇÃO DOS
BONS VOTOS PARA O ANO NOVO*

Excelências
Senhoras e Senhores

1. Queira cada um de vós acolher a minha cordial gratidão pelos bons votos que  o  vosso Decano, o Embaixador Giovanni Galassi, quis exprimir e apresentar-me gentilmente em nome de todos. Do profundo do coração, retribuo e formulo ardentes votos para cada um de vós, a fim de que Deus abençoe as vosas  pessoas  e  as  vossas  nações  e queira conceder a todos um ano próspero e feliz.

Imediatamente, porém, me vem à mente uma pergunta:  o que significa, para um diplomata, um ano feliz? O espectáculo oferecido pelo mundo neste mês de Janeiro de 2001 poderia fazer duvidar da capacidade da diplomacia para fazer reinar a ordem, a equidade e a paz entre os povos.

E todavia não nos podemos resignar à fatalidade da doença, da pobreza, da injustiça ou da guerra. É certo que, sem a solidariedade social ou o recurso ao direito e outros instrumentos da diplomacia, estas situações terríveis seriam ainda mais dramáticas e poderiam mesmo tornar-se insolúveis. Por isso, vos a- gradeço, Senhoras e Senhores, pela vossa acção e pelos vossos esforços perseverantes em favor do entendimento e da cooperação entre os povos.

2. O espírito do Ano Santo há pouco terminado e os diversos "jubileus" que reuniram e motivaram homens e mulheres de todas as raças, de todas as idades e condições, mostraram, se fosse necessário, que a consciência moral está ainda bem viva e que Deus habita no coração do homem. Perante vós, contentar-me-ei em evocar o "Jubileu dos Responsáveis de Governo, Parlamentares e Políticos" reunidos no início de Novembro. O Papa experimentou grandes consolações espirituais ao ver tanta boa vontade e tanta disponibilidade para acolher a graça de Deus. Assim, uma vez mais, se constatou a exactidão do que proclama, de um modo magnífico, a Constituição pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II:  "Segundo a fé da Igreja, Cristo, morto e ressuscitado por todos, oferece à humanidade, pelo seu Espírito, luz e forças que lhe permitam corresponder à sua altíssima vocação. Ela crê também que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e Mestre" (n. 10).

3. Seguindo os pastores, magos e todos aqueles que, desde há dois mil anos, se apressaram a encontrar-se diante do presépio, também a humanidade de hoje parou alguns instantes no dia de Natal, para contemplar o Menino Jesus e para receber um pouco desta luz que acompanhou o seu nascimento e que continua a iluminar todas as noites dos homens. Esta luz diz-nos que o amor de Deus será sempre mais forte do que o mal e a morte.

Esta luz assinala o caminho de todos aqueles que, no nosso tempo, em Belém e Jerusalém, percorrem penosamente o caminho da paz. Ninguém deve aceitar, nesta parte do mundo que acolheu a revelação de Deus aos homens, a banalização de uma espécie de guerrilha, a persistência da injustiça, o desprezo do direito internacional ou o pôr entre parêntesis dos Lugares Santos e as exigências das comunidades cristãs. Israelitas e palestinos não podem imaginar o seu futuro se não em conjunto e cada uma das partes deve respeitar os direitos e as tradições da outra.

Já é tempo suficiente para voltar aos princípios da legalidade internacional:  proibição de aquirir territórios pela força, direito dos povos a dispor de si mesmos, respeito pelas resoluções da Organização das Nações Unidas e das convenções de Genebra, para só citar os mais importantes. De outro  modo,  há  tudo  a  temer:   iniciativas unilaterias aventureiras com uma extensão da violência dificilmente controlável.

Esta mesma luz se põe também sobre todas as outras regiões do nosso planeta, onde os homens escolheram a violência armada para fazer valer os seus direitos ou as suas ambições. Penso, neste momento, na África, continente em que circulam demasiadas armas e onde demasiados países conhecem uma democracia incerta e uma corrupção devastadora, onde o drama argelino ou a guerra no sul do Sudão continuam a massacrar as populações sem piedade; não posso, também, esquecer o caos em que mergulharam os países da Região dos Grandes Lagos. É por isso que devemos saudar com satisfação o acordo de paz realizado no mês passado em Argel, entre a Etópia e a Eritreia, assim como os esforços levados a cabo na Somália, com vista a um regresso progressivo à normalidade. Mais perto de nós e com que tristeza! os atentados terroristas que semeiam a morte na Espanha e que desfiguram o país, humilhando toda a Europa, também ela à procura da sua identidade. É para a Europa que muitos povos olham ainda como para um modelo em que se podem inspirar. A Europa nunca mais esqueça as raízes cristãs que tornaram fecundo o seu humanismo! Que ela seja generosa para com todos indivíduos ou nações que batem às suas portas!

4. A luz de Belém, que se dirige "aos homens de boa vontade", compromete-nos a combater em toda a parte e em todas as circunstâncias, a pobreza, a marginalização, o analfabetismo, a desigualdade social ou a vergonha do tráfico de seres humanos. Nada disto é uma fatalidade e devemos alegrar-nos que reuniões e meios internacionais tenham permitido pôr um remédio, ao menos em parte, nestas chagas que desfiguram a humanidade. O egoísmo e a ambição do poder são os piores inimigos do homem. Estão sempre, de qualquer maneira, na origem de todos os conflitos. Isto constata-se, em particular, nalgumas zonas da América do Sul, onde as desigualdades socioecomómicas e culturais, a violência armada ou a guerrilha, o pôr em questão as conquistas democráticas destroem o tecido social e fazem perder às populações a confiança no futuro. É preciso ajudar este imenso continente a fazer frutificar todo o seu património humano e material.

A desconfiança, as lutas, bem como as consequências das crises do passado podem, na realidade, ser sempre ultrapassadas mediante a boa vontade e a solidariedade internacional. A Ásia dá provas disso com o diálogo instaurado entre as duas Coreias e com o caminho de Timor Leste para a independência.

5. O crente e de modo particular o cristão sabe que é possível uma outra lógica. Retomá-la-ei com palavras que poderão parecer-vos demasiado simples:  cada homem é meu irmão! Se estivéssemos convencidos de que somos chamados para viver em conjunto, como é belo conhecer-se, estimar-se e ajudar-se, o mundo seria radicalmente diverso.

Quando pensamos no século que acaba de se concluir, impõe-se uma constatação a seu respeito:  ele passará à história como o século que conheceu as maiores conquistas da ciência e da técnica, mas também como o século em que a vida humana foi desprezada da maneira mais brutal.
Refiro-me, certamente, às guerras semeadoras de morte estaladas na Europa, aos totalitarismos que tornaram escravos milhões de homens e mulheres, mas também às leis que "legalizaram" o aborto ou a eutanásia, ou ainda aos modelos culturais que espalharam a ideologia do consumismo e do prazer a todo o custo. Se o homem transtorna os equilíbrios da criação, esquece que é responsável dos seus irmãos e não tem cuidado com o ambiente que o Criador confiou às suas mãos, este mundo, programado unicamente segundo os nossos projectos, poderá tornar-se irrespirável.

6. Como recordei na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, no dia 1 de Janeiro, todos devemos tirar benefícios deste 2001, que a Organização das Nações Unidas quis como "Ano internacional do diálogo entre as culturas", "para construir a civilização do amor... (que) se apoia sobre a consciência de que existem valores comuns a toda a cultura, porque radicados na natureza da pessoa" (n 16).

Pois bem, qual é a coisa mais comum a todos na natureza humana? Sim, neste início de milénio, salvemos o homem! Salvemo-lo todos, em conjunto! Compete aos responsáveis da sociedade proteger a espécie humana, fazendo com que a ciência esteja ao serviço da pessoa, que o homem não seja objecto a dividir, comprar ou vender, que as leis não sejam mais condicionadas pelo mercantilismo ou pelas reivindicações egoístas de grupos minoritários. Nenhuma época da história da humanidade fugiu à tentação de fechar o homem em si mesmo numa atitude de auto-suficiência, de domínio, poder e orgulho. Mas tal risco, nos nossos tempos, tornou-se mais perigoso no coração dos homens que, mediante o seu esforço científico, crêem poder tornar-se senhores da natureza e da história.

7. Será sempre dever da comunidade dos crentes afirmar publicamente que nenhuma autoridade, nenhum programa político, nenhuma ideologia está autorizada a reduzir o homem àquilo que ele é capaz de fazer ou produzir. Os crentes terão sempre o dever imperativo de recordar a todos e em todas as circunstâncias o mistério pessoal inalienável de cada ser humano, criado à imagem de Deus, capaz de amar à maneira de Jesus.

Quero repetir, por vosso intermédio, aos governantes que vos acreditaram junto da Santa Sé, a determinação da Igreja Católica na defesa do homem, da sua dignidade, dos seus direitos e da sua dimensão transcendente. Ainda que a alguns repugne evocar a dimensão religiosa do homem e da sua história, ainda que outros queiram reduzir a religião à esfera do privado, outros ainda persigam a comunidade dos crentes, os cristãos continuarão a proclamar que a experiência religiosa faz parte da experiência humana. É um elemento vital para a construção da pessoa e da sociedade à qual os homens pertencem. Assim se explica o vigor com o qual a Santa Sé sempre defendeu a liberdade de consciência e de religião, na sua dimensão individual e social. O drama vivido pela comunidade cristã na Indonésia ou as discriminações evidentes de que são vítimas ainda hoje outras comunidades de crentes, pelo menos as cristãs, em certos Países de obediência marxista ou islâmica, clama por uma vigilância e uma solidariedade sem roturas.

8. São estes os pensamentos que me inspirou o nosso encontro tradicional, que me permite dirigir-me, de certa forma, a todos os povos da terra através dos seus representantes mais qualificados. Peço que transmitais a todos os vossos compatriotas e aos Governos dos vossos Países os votos de oração que o Papa formula por sua intenção. Através desta história de que nós somos actores, tracemos o caminho do milénio que começa. Todos em conjunto, ajudemo-nos uns aos outros a permanecer dignos da vocação  a  que  fomos  chamados:   formar uma grande família, feliz por se saber amada por um Deus que nos quer irmãos! Que o Altíssimo vos abençoe a todos vós e as pessoas que vos são queridas.

 

© Copyright 2001 - Libreria Editrice Vaticana

 

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