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DISCURSO
DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA ESTÓNIA JUNTO À SANTA
SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
18 de Maio de
2001
Senhor Embaixador
É-me grato dar-lhe as boas-vindas hoje e
receber as Cartas Credenciais com que Vossa Excelência é nomeado Embaixador
Extraordinário e Plenipotenciário da República da Estónia junto da Santa Sé.
Agradeço-lhe as suas amáveis palavras de saudação e os cumprimentos que me
apresentou da parte do Presidente, Senhor Lennart Meri, enquanto lhe peço que
transmita a Sua Excelência, ao Governo e ao Povo da Estónia os meus bons votos
e a certeza das minhas orações pela paz e a prosperidade da sua Nação.
Conservo lembranças memoráveis da visita que
realizei à sua terra em 1993. Ao recebê-lo hoje aqui, gostaria de recordar os
temas que abordei em Tallinn e que entretanto se tornaram ainda mais actuais.
Como Vossa Excelência disse, é óbvio que tanto a Estónia como a Europa no
seu conjunto chegaram a um importante ponto da sua história. O futuro dependerá
em grande medida da formação efectiva de uma cultura dos direitos humanos, que
inclua os indivíduos, as famílias e os povos, uma vez que cada um deles
constitui um elemento vital na estrutura do bem-estar e da liberdade do homem, a
tal ponto que, se um só deles for desrespeitado, todos haverão de sofrer.
Em primeiro lugar, os direitos dos indivíduos
devem ser reconhecidos e protegidos, porque se os direitos fundamentais de cada
pessoa desde a maior até à menor, da mais forte à mais frágil não forem
aceites como transcendentes e invioláveis, a prosperidade será ilusória e os
fundamentos da sociedade serão falazes. Reivindicar estes direitos como
transcendentes significa dizer que eles encontram a sua fonte em Deus, a cuja
imagem a pessoa humana foi criada, e por isso não são concedidos como um
privilégio por qualquer autoridade humana. Portanto, a função da autoridade
humana consiste em prover toda a protecção necessária para assegurar que tal
verdade seja respeitada.
Todavia, se forem deixados à deriva, os
direitos individuais degeneram numa falsa cultura da liberdade que se opõe ao
bem comum, e este não pode ser o caminho para o progresso da sociedade. Os
direitos individuais devem servir o bem comum, e vice-versa. Isto significa que
o próximo passo na formação de uma cultura da liberdade humana é o respeito
incondicional pelos direitos da família.
Vossa Excelência justamente se perguntou como
devemos educar os jovens a fim de lhes inculcar um sentido dos "valores
genuínos e eternos da vida", despertando neles "uma nova compreensão
da caridade". Esta interrogação é vital, e a sua resposta não é
simples. Contudo, é claro que o primeiro núcleo desta educação deve ser a
família; foi por este motivo que escrevi que "o futuro da humanidade passa
pela família" (Familiaris consortio, 86). Hoje em dia a tarefa de
consolidação do tecido social, moral e espiritual parece ser mais difícil do
que era há dez anos. Naturalmente, a reconstrução económica ainda é
importante, mas se não for acompanhada da nova formação dos valores que
asseguram uma vida familiar sadia, inevitavelmente surgirão novas formas de
materialismo. Se a Estónia puder trabalhar de maneira eficaz em favor de um
desenvolvimento económico que caminhe a par e passo com a promoção da família,
então há-de crescer na sua estatura moral, essencial para o bem-estar dos seus
cidadãos e para a edificação de uma Europa melhor e um mundo mais perfeito.
A cultura dos direitos, que deve estar na base
do desenvolvimento, diz respeito não só aos indivíduos e às famílias, mas
também aos povos. A saúde da comunidade internacional é evidente na medida em
que respeitar os direitos dos povos menos poderosos e das nações menores. Ao
longo da sua história, os direitos do povo da Estónia foram com frequência
espezinhados.
Felizmente, estes direitos foram recuperados
nos últimos tempos, de tal forma que a Estónia foi inserida de novo no seio da
comunidade dos povos como nação independente, com uma cultura distinta que
constitui uma riqueza para todos. Como Vossa Excelência
disse, agora a Estónia pode "considerar o mundo a partir de horizontes
mais largos", não já obrigada pela desesperada luta pela sobrevivência,
mas com vista a dar e a receber, no contexto de uma comunidade das nações em
que os direitos de todos os povos sejam reconhecidos e salvaguardados.
Quando dirigi um discurso ao mundo da cultura
em Tallinn, no dia 10 de Setembro de 1993, realcei a necessidade que existe de a
liberdade estar vinculada à solidariedade, e a identidade nacional à cultura
do diálogo. O que deve ser reconhecido é que a verdadeira e justa identidade
de um determinado povo é perfeitamente compatível com uma abertura, em que as
diferenças sejam aceites como fonte de enriquecimento mútuo, e as tensões se
resolvam não já através de conflitos, mas de negociações assentes no
respeito recíproco e na solicitude pela verdade dos problemas em questão.
Tendo em consideração os recentes desenvolvimentos ocorridos no seu País que,
como o Senhor Embaixador disse, procurou "criar estruturas democráticas
firmes e justas", existem todos os motivos necessários para esperar que o
futuro da Estónia seja luminoso. Esta é a minha prece pela sua Nação,
enquanto lhe asseguro que a Igreja católica na sua terra, embora seja
numericamente exígua, continuará a ajudar a edificar um futuro digno do nobre
povo da Estónia.
Senhor Embaixador, estou convicto de que o
compromisso na missão diplomática a que hoje dá início o ajudará a
fortalecer os laços de compreensão e de colaboração entre a Estónia e a
Santa Sé. Asseguro-lhe que os diversos departamentos da Cúria Romana estão
prontos a ajudá-lo no cumprimento dos seus deveres. Enquanto lhe formulo todos
os bons votos pelo êxito da sua missão, invoco as bênçãos de Deus
Todo-Poderoso sobre Vossa Excelência, a sua família e o povo da sua amada Pátria.
© Copyright 2001 - Libreria Editrice Vaticana
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