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DISCURSO
DO SANTO PADRE AO EMBAIXADOR DA REPÚBLICA DO CHILE JUNTO À
SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS
18 de
Junho de 2001
Senhor Embaixador
1. É com muito prazer que o recebo neste solene acto de
apresentação das Cartas Credenciais que o acreditam como Embaixador Extraordinário
e Plenipotenciário da República do Chile junto desta Sé Apostólica, e
apraz-me dar-lhe as minhas cordiais boas-vindas no momento em que Vossa Excelência
inicia as importantes funções que o seu Governo lhe confiou. Agradeço-lhe as
suas amáveis palavras e, de forma muito especial, saúdo o Excelentíssimo
Senhor Ricardo Lagos Escobar, Presidente da República, e transmito-lhe os meus
melhores votos a fim de que o seu serviço ao povo chileno, nestes momentos da
sua história, ajude todos a progredir pelo caminho da concórdia, do
entendimento recíproco e da paz.
2. Vossa Excelência é representante de um povo que, em
conformidade com o que recordou com as suas palavras, tem profundas raízes
cristãs. Elas enriqueceram o País com tradições nobres, que configuraram a
identidade da Nação e fizeram dos chilenos um povo profundamente religioso.
Com este povo, tive a oportunidade de me encontrar na minha
inesquecível Viagem pastoral realizada em 1987, ocasião em que recebi da parte
de todos, desde Antofagasta até Punta Arenas, expressivas demonstrações de
carinho. Desta forma, pude comprovar que se trata de um povo firme, em busca de
caminhos que o conduzam para a almejada reconciliação, ainda que para alcançar
essa meta tenha de passar por caminhos difíceis. Por isso, uma vez mais, quero
repetir-lhe como fiz por ocasião da beatificação da jovem carmelita Teresa
dos Andes, que "o amor é mais forte" porque "o amor
pode cada vez mais".
A fé e a religiosidade, arraigadas de modo tão profundo
na alma dos chilenos, deram frutos excelentes, entre os quais a Igreja honra
Santa Teresa dos Andes e os Beatos Laura Vicuña e Alberto Hurtado. É justo
recordar, além disso, que os Pais da Pátria foram crentes convictos. A este
respeito, é mister destacar que o Capitão General Bernardo O'Higgins tomou a
iniciativa de pedir à Sé Apostólica uma missão pontifícia que pudesse
resolver no território chileno os problemas religiosos derivados da independência
e da nova oganização eclesiástica, com a provisão de diversos Bispados, de
tal forma que o Chile se tornou a primeira Nação latino-americana a acolher
uma missão pontifícia depois da emancipação nacional. Desde então, o País
reconheceu a relevância da Igreja católica como verdadeira mãe e garante da
sua idiossincrasia, instaurando assim laços de vínculo respeitoso e filial com
o Pontífice Romano e, conservando sempre este espírito, relações cordiais
com a Santa Sé.
3. Ampla e enriquecedora foi a contribuição da Igreja
para a vida do Chile, tanto nos tempos da colonização como depois da independência
nacional, pois não é difícil descobrir a sua presença nos momentos
significativos da história pátria. No seu discurso, Vossa Excelência falou de
alguns eminentes servidores da Igreja que, com a sua palavra e a sua acção
pastoral, acompanharam o desenvolvimento do Chile para metas mais elevadas.
Juntamente com eles, cabe recordar o numeroso exército de pastores e fiéis que
encontraram nos ideais evangélicos a fonte de inspiração para trabalhar, cada
um no lugar em que a Providência o situou, pelo bem comum nos diversos
ambientes profissionais.
No cumprimento da sua missão, anunciando a Boa Nova de
Jesus Cristo, a Igreja colabora na promoção do bem integral das pessoas e está
comprometida de modo muito particular em favorecer a convivência solidária e a
reconciliação entre todos os cidadãos, filhos da mesma terra; de igual forma,
quer iluminar as consciências para que alguns perigos da sociedade de hoje,
como o relativismo ético, o consumismo e outras formas pseudoculturais, não
deteriorem o tesouro de valores cristãos sobre os quais está alicerçada a
identidade nacional. A este respeito, as recentes Orientações pastorais dos
Bispos do Chile, que têm como título "Se conhecêsseis o dom de
Deus!", querem ser um anúncio de esperança no início do terceiro milénio,
convidando a curar as feridas que impedem o desenvolvimento da sociedade
chilena, e entre as quais cabe assinalar a pobreza e as enormes desigualdades,
as dificuldades enfrentadas pela família, e a dignidade lesada das pessoas, das
famílias e das várias instituições.
4. Vossa Excelência referiu-se também ao desejo de
defender e de fortalecerf a família, tão necessário "na época actual,
que regista uma crise generalizada e radical desta instituição
fundamental" (Novo millennio ineunte, 47). Estou agradecido por
estes propósitos, enquanto espero dos governantes e da sociedade inteira que
sejam consequentes com a história, com a tradição mais genuína do País e
que não poupem esforços neste sentido, de maneira que não se ceda às tentações
fáceis, às vezes dissimuladas sob a aparência de uma falsa modernidade. A
este respeito, é de primária importância salvaguardar e fortalecer esta
instituição. Não há dúvida de que muitos males sociais têm a sua origem na
desintegração familiar, motivo pelo qual é necessário educar as novas gerações
para o sentido do amor verdadeiro, da abnegação total e indissolúvel através
do matrimónio, que permita ultrapassar os momentos de incompreensão e
desconfiança, de maneira que cada lar chileno seja um lugar de amor e de paz, e
uma verdadeira escola de humanidade.
5. A aspiração por um Chile cada vez mais próspero e
desenvolvido exige um esforço que vise melhorar a qualidade de vida e a própria
existência dos chilenos. Apraz-me tomar conhecimento da recente decisão do
Governo supremo e do Poder legislativo que com a colaboração leal da Igreja
aboliu a pena de morte, e é para esperar que, com este pressuposto, se promova
sempre o respeito mais zeloso e irrenunciável pela vida de cada ser humano,
desde a concepção até ao seu fim natural. Desta maneira, dando testemunho de
amor ao próximo, de amor à família no seu sentido mais original e do amor à
vida, as novas gerações poderão ser formadas para os princípios éticos
elementares que hão-de redundar na grandeza moral do vosso povo.
6. Senhor Embaixador, o seu País deu provas de apego à
sua tradição democrática e de forte integração nacional, o que se reflecte
na solidez das sua instituições. No momento em que se aproxima o bicentenário
da sua independência nacional e o ideal é alcançar a máxima expansão das
liberdades nacionais, sociais e culturais, como Vossa Excelência quis realçar,
deve ter-se presente o facto de que o fortalecimento da vida democrática há-de
ser acompanhado sempre da promoção constante dos valores genuínos, que são a
garantia da estabilidade, porque uma democracia sem valores não serve o
verdadeiro progresso mas, pelo contrário, volta-se contra o próprio homem.
No que diz respeito ao cenário internancional, o Chile
conquistou um lugar notável na América Latina, tanto pela sua contribuição
nos foros internacionais como pela sua participação nos organismos que
promovem o desenvolvimento e o progresso. A este propósito, quero assinalar a
vontade pacífica dos chilenos, evidenciada na contenda com a irmã República
Argentina, onde fui testemunha pessoal do entendimento entre dois povos que
quiseram e souberam ultrapassar as desavenças e dedicar ao desenvolvimento o
que foi malbaratado pelas armas. Mais recentemente, o Chile resolveu também os
seus assuntos pendentes com o Peru, assinando em Novembro de 1999 o Acto de
Execução das cláusulas do Tratado de Lima, de 1929, concentrando uma vez mais
os esforços no desenvolvimento e no bem-estar da sua sociedade e evitando
contendas com outros povos.
7. Senhor Embaixador, ao concluir este discurso formulo os
meus melhores votos para o bom desempenho da sua missão. Na Santa Sé, Vossa
Excelência encontrará a disponibilidade para tudo o que puder redundar no bem
do querido povo chileno e favorecer as boas relações que já existem entre o
seu País e esta Sé Apostólica. Peço ao Senhor, por intercessão de Nossa
Senhora do Carmo, que o assista no exercício das suas funções, abençoe a sua
ilustre e numerosa família, os seus colaboradores, assim como os governantes e
cidadãos da nobre Nação chilena, que recordo com estima e abençoo com
afecto.
© Copyright 2001 - Libreria Editrice Vaticana
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