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DISCURSO AO PRESIDENTE DOS
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Segunda-feira, 23 de Julho de 2001

 


Senhor Presidente

1. É com imenso prazer que lhe dou as boas-vindas por ocasião da sua primeira visita desde que assumiu o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América. Saúdo calorosamente a sua ilustre Esposa e os distintos membros do seu Séquito. Formulo sinceros bons votos a fim de que o seu mandato presidencial fortaleça o seu País no compromisso em favor dos princípios que inspiraram a democracia norte-americana desde o princípio, sustentando a Nação no seu extraordinário desenvolvimento. Estes princípios são mais válidos do que nunca, no momento em que Vossa Excelência enfrenta os desafios do novo século que se abre à nossa frente.

Os Fundadores da sua Nação, conscientes dos imensos recursos naturais e humanos com que a sua terra foi abençoada pelo Criador, foram orientados por um profundo sentido de responsabilidade em relação ao bem comum, a ser promovido no respeito pela dignidade e pelos direitos inalienáveis de todos, como dom de Deus. A América continua a avaliar-se através da nobreza da sua visão primordial, na edificação de uma sociedade feita de liberdade, de igualdade e de justiça sob o exercício da lei. No século que há pouco chegou ao seu termo, estes mesmos ideais inspiraram o povo norte-americano a resistir a dois sistemas totalitários, ambos fundamentados numa visão ateísta do homem e da sociedade.

2. No início deste novo século, que assinala inclusivamente o começo do terceiro milénio do Cristianismo, o mundo continua a olhar para a América com  esperança.  Todavia,  fá-lo  com uma forte consciência da crise dos valores que está a ser experimentada pela sociedade ocidental, cada vez mais insegura perante as decisões éticas, indispensáveis para o futuro caminho da humanidade.
Ultimamente, a atenção do mundo está centrada no processo de globalização que, na década passada, recebeu um impulso vigoroso e em Génova foi abordado por Vossa Exclência e por outros governantes das Nações industrializadas. Enquanto se sente feliz pelas oportunidades que este processo oferece para o desenvolvimento económico e a prosperidade material, a Igreja não pode deixar de expressar a sua profunda preocupação pelo facto de que o nosso mundo continua a viver dividido, não já pelos antigos blocos políticos e militares, mas por uma trágica linha de responsabilidade entre aqueles que podem ser beneficiados por estas oportunidades e aqueles que parecem ter sido excluídos das mesmas. Agora a revolução da liberdade, de que falei na sede da Organização das Nações Unidas em 1995, deve ser completada por uma revolução das oportunidades, em que todos os povos do mundo contribuam de maneira activa para a prosperidade económica e compartilhem os seus frutos. Isto exige a orientação daquelas nações cujas tradições religiosas e culturais deveriam levá-las a prestar a máxima atenção à dimensão moral das problemáticas em questão.

3. O respeito pela dignidade humana e a crença na dignidade igualitária de todos os membros da família humana exigem políticas destinadas a tornar todas as pessoas capazes de aceder aos meios necessários para melhorar as suas vidas, inclusivamente os instrumentos e as competências técnicas exigidos pelo desenvolvimento. O respeito da natureza por parte de todos, uma política de abertura aos imigrantes, o cancelamento ou a redução significativa da dívida das Nações mais pobres, a promoção da paz através do diálogo e da negociação, o primado do exercício da lei:  estas são as prioridades que os líderes das Nações desenvolvidas não podem ignorar. Um mundo global é essencialmente um mundo de solidariedade! Sob este ponto de vista, em virtude dos seus copiosos recursos, tradições culturais e valores religiosos, a América tem uma responsabilidade especial.

O respeito pela dignidade humana encontra uma das suas máximas expressões na liberdade religiosa. Este direito é o primeiro enunciado pela Carta dos Direitos da sua Nação, Senhor Presidente, e é significativo o facto de que a promoção da liberdade religiosa continua a constituir um objectivo importante da política norte-americana, no contexto da comunidade internacional. É de bom grado que exprimo a estima de toda a Igreja católica pelo compromisso da América neste sentido.

4. Outra área em que as opções políticas e morais têm as mais graves consequências para o futuro da civilização diz respeito ao mais fundamental dos direitos humanos, o direito à própria vida. A experiência já está a mostrar-nos que a trágica banalização das consciências é acompanhada pelo ataque contra a vida humana inocente no seio materno, levando à transigência e à aquiescência perante os outros males a isto relacionados, como a eutanásia, o infanticídio e, mais recentemente, as propostas para a criação, com a finalidade da investigação, de embriões humanos destinados a ser destruídos durante o processo. Uma sociedade livre e virtuosa, que a América demonstra ser, deve rejeitar práticas que desvalorizam e violam a vida humana em qualquer uma das suas fases, desde a concepção até à morte natural. Defendendo o direito à vida, através da lei e mediante uma vigorosa cultura da vida, a América pode indicar ao mundo o caminho de um porvir verdadeiramente humano, em que o homem continue a ser o senhor, e não o produto, da sua própria técnica.

Senhor Presidente, enquanto Vossa Excelência desempenha as tarefas do elevado cargo que o povo norte-americano lhe confiou, asseguro-lhe a lembrança nas minhas orações. Estou convicto de que, sob o seu governo, a sua Nação há-de continuar a beber da sua tradição e dos seus recursos para ajudar a construir um mundo em que cada membro da família humana possa florescer e viver de uma forma que seja digna da sua dignidade inata. Com estes sentimentos, invoco cordialmente sobre Vossa Excelência e o querido povo norte-americano as bênçãos divinas da sabedoria, da fortaleza e da paz.

 

© Copyright 2001 - Libreria Editrice Vaticana

 

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