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DISCURSO DO SANTO PADRE AOS
PARTICIPANTES NO CONGRESSO DA CONFEDERAÇÃO DOS CÓNEGOS REGULARES DE
SANTO AGOSTINHO
Reverendo Abade Primaz
Estimados Cónegos Regulares de Santo Agostinho
1. Sinto-me feliz por vos receber a vós, por ocasião do
Congresso internacional da vossa Confederação, e é do íntimo do coração
que dou as boas-vindas a cada um de vós. Saúdo o estimado Abade Primaz e
agradeço-lhe ter-se feito intérprete dos sentimentos de todos. Cumprimento
quantos participaram neste vosso encontro, que acaba de chegar ao fim, cujo tema
foi: Participação dos leigos no nosso carisma.
Trata-se de uma importante ocasião que se vos oferece para
reflectir sobre a antiga forma de vida religiosa, que encontra as suas raízes
na fórmula tradicional: "Contemplare, et contemplata aliis
tradere". A veneranda tradição agostiniana une o espírito
contemplativo à actividade apostólica e este estilo de vida ainda hoje
caracteriza as vossas comunidades presentes em cada continente.
Assim, sois os continuadores de uma espiritualidade capaz de
falar à mente e ao coração dos homens de hoje, que estão em busca de modelos
espirituais em que se inspirar de maneira válida. Enquanto me congratulo
convosco pela vossa vitalidade, é com alegria que vos exorto a perseverar no
compromisso de oferecer a quantos encontrais no vosso apostolado o perene anúncio
evangélico, traduzido no testemunho quotidiano de fidelidade
ao carisma que vos é próprio.
2. Na história da Igreja a vossa Ordem benemérita, que se
inspira no grande Pastor e Doutor Santo Agostinho, desempenhou um papel
significativo. Na medida em que se afirmava o celibato do clero, a vida conjunta
dos Cónegos Regulares em redor dos Bispos permitiu criar as melhores condições
para uma dedicação total à causa do Reino de Deus. A rápida expansão desta
prática entre o clero, do Noroeste da África à Espanha, da Itália à França
e a todo o Norte da Europa, dá testemunho da sua validade.
Trata-se de uma típica forma de vida consagrada, caracterizada
pela comunhão fraterna, pelo apostolado e por um intenso sentimento litúrgico.
Estes três elementos conservam intacta a sua validade, embora devam ser
adequados com sabedoria às exigências dos tempos, que mudam rapidamente. A
este respeito, é de grande ajuda a sua Regra que, embora esteja ligada à
espiritualidade das comunidades canónicas primitivas, permanece sempre actual
porque apresenta o carisma comunitário vinculado aos princípios evangélicos
imorredouros, como a caridade, a unidade e a liberdade.
3. Na vossa Regra, que concentra o coração, a mente, o espírito,
a personalidade, a maturidade humana e religiosa de Santo Agostinho, tudo está
centrado em Cristo, tudo se movimento em redor de Cristo, sublime Mestre
interior. Tudo exorta à descoberta de uma ascese que se caracteriza como obediência
e fidelidade ao Espírito.
Daqui brota a particular importância que Santo Agostinho
atribui ao valor da contemplação e à sua íntima união à vida comunitária.
A contemplação, que brota de uma orientação radical para Cristo, consiste em
manter fixo o olhar n'Ele para se deixar penetrar e transformar pelo seu Espírito.
Isto exige um esforço incessante para aprofundar o Evangelho e o pôr em prática,
vivendo em comunidade uma autêntica caridade fraterna, sincera e generosa,
fruto e ao mesmo tempo instrumento para progredir no itinerário interior
contemplativo. Desta forma a caridade fraterna, que tem origem no contacto íntimo
com o Senhor, torna-se dom e graça a compartilhar com os irmãos.
Eis a contribuição que a Igreja espera de vós. Estou convicto
de que, vivendo plenamente o vosso carisma, podereis ajudá-la a alcançar as
metas missionárias para as quais está orientada, imprimindo, naquilo que cabe
à vossa competência, um válido impulso à nova evangelização.
4. O próprio tema do Congresso, que diz respeito à participação
dos leigos no carisma da Ordem, sublinha um aspecto importante da vossa
contribuição para a acção evangelizadora da Comunidade eclesial. Na medida
em que ela procura valorizar o sacerdócio comum de todos os baptizados e
convida os fiéis leigos a serem missionários no complexo mundo moderno, a
vossa proposta de vida representa já um modelo a seguir. Com efeito,
apresentais uma experiência de comunidade em que os leigos assumem o seu papel
eclesial específico com participação responsável, fortalecidos pela graça
que provém de uma espiritualidade litúrgica aprofundada.
Tudo isto cria as condições para um serviço eficaz em prol da
evangelização, fazendo reviver o clima da primeira comunidade cristã, onde
todos "eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção
do pão e às orações" (Act 2, 42).
Caríssimos Irmãos! Enquanto damos os primeiros passos no novo
milénio, tendo diante de nós múltiplos desafios sociais e religiosos,
testemunhai com coragem a vossa fidelidade à missão que o Senhor vos confia,
seguindo o exemplo de Santo Agostinho, Pastor corajoso e repleto de zelo.
Como ele, confiai-vos à acção do Espírito e não tenhais
medo de vos abrir com optimismo evangélico às necessidades do homem:
"Estai sempre prontos a responder... a todo aquele que vos perguntar a razão
da vossa esperança" (1 Pd 3, 15).
A Virgem Santíssima, por vós venerada com especial impulso
filial, vos acompanhe e faça frutificar o vosso ministério quotidiano.
Sirva-vos de ajuda também a minha Bênção que, de coração, vos concedo a vós,
aos vossos Irmãos e a quantos têm a vossa espiritualidade agostiniana como
ponto de referência.
Castelgandolfo, 6 de Setembro de 2001.
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