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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO PROMOVIDO
PELA C.E.I. PARA OS OPERADORES
NOS CAMPOS DA COMUNICAÇÃO E DA CULTURA

 

 

 

1. Saúdo com afecto o Senhor Cardeal Camillo Ruini, Presidente da Conferência Episcopal Italiana, enquanto lhe agradeço as palavras que me dirigiu, interpretando os sentimentos de todos os presentes. Apresento as minhas mais cordiais boas-vindas aos outros Cardeais, aos Arcebispos e Bispos, ao Ministro das Comunicações, Sua Ex.cia o Senhor Deputado Maurizio Gasparri, que participam neste encontro com os operadores nos campos da cultura e da comunicação, vindos de todas as regiões italianas.

Vós reflectistes sobre o tema "Comunicação e cultura:  novos percursos para a evangelização do terceiro milénio". Trata-se de uma perspectiva de importância fundamental, que merece grande atenção da parte de toda a comunidade cristã.

Para vós, que trabalhais nos campos da cultura e da comunicação, a Igreja está a olhar com confiança e com expectativa porque, como protagonistas das mudanças em acto nestes âmbitos, num  horizonte  de  crescente  globalização, sois chamados a ler e a interpretar o tempo presente, e a identificar os caminhos  para  uma  comunicação  do Evangelho em conformidade com as linguagens e a sensibilidade do homem contemporâneo.

2. Estamos conscientes de que as rápidas transformações tecnológicas estão a determinar, sobretudo no campo da comunicação social, uma nova condição para a transmissão do saber, para a convivência entre os povos, para a formação dos estilos de vida e das mentalidades. A comunicação gera cultura, enquanto a cultura se transmite através da comunicação.

Todavia, que cultura pode ser gerada por uma comunicação que não tem no seu centro a dignidade da pessoa, a capacidade de ajudar a responder às grandes interrogações da vida humana, o compromisso a servir com honestidade o bem comum, a atenção aos problemas da convivência na justiça e na paz? E neste campo são necessários trabalhadores que, impregnados do sentido da fé, saibam  tornar-se  intérpretes  das  instâncias culturais contemporâneas, comprometendo-se a viver esta época da comunicação não como um tempo de alienação e de confusão, mas como um período precioso para a investigação da verdade e para o desenvolvimento da comunhão entre as pessoas e entre os povos.

3. Diante deste "novo areópago", formado em grande medida pelos meios de comunicação, devemos estar cada vez mais conscientes de que "a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência" (Redemptoris missio, 37). Poderíamos sentir-nos inadequados e impreparados para isto; todavia, não devemos desencorajar-nos. Sabemos que não estamos sozinhos, porque somos ajudados por uma força irrefreável, que deriva do encontro com o Senhor. Caríssimos operadores nos campos da comunicação e da cultura, se assumistes este compromisso é porque também vós, como os discípulos de Emaús, reconhecestes o Senhor ressuscitado no momento de partir o pão, e sentistes o vosso coração arder de alegria quando O escutastes. Esta é a fonte da novidade cultural mais autêntica.  Este  é  o  estímulo  mais  vigoroso para um compromisso coerente no campo da comunicação.

Não devemos cansar-nos de fixar o nosso olhar em Jesus de Nazaré, o Verbo que se fez carne, que realizou a comunicação mais importante para a história da humanidade, permitindo-nos ver, através dele, o rosto do Pai celestial (cf. Jo 14, 9) e dando-nos o Espírito de verdade (cf. Jo 16, 13), que nos ensina todas as coisas. Coloquemo-nos, uma vez mais, à escuta do ensinamento de Jesus Cristo, a fim de que a multiplicação das antenas nos telhados, como instrumentos emblemáticos da comunicação contemporânea, não se torne paradoxalmente o sinal da incapacidade de ver e de escutar, mas seja o sinal de uma comunicação que se difunde ao serviço do homem e do progresso integral de toda a humanidade.

4. Nesta direcção, a Igreja que está na Itália empreendeu um corajoso caminho. Já o Congresso eclesial de Palermo assinalou o começo de uma intensa acção pastoral. Ali, tive a oportunidade de vos encorajar a fazer deste período um "tempo de missão, e não de conservação". Foi sobretudo ali que nasceu a proposta de "um projecto cultural de orientação cristã", como contribuição para a elaboração de uma visão da vida cristãmente inspirada. As próprias "orientações  pastorais",  propostas  pelos Prelados italianos para esta década, são  caracterizadas  por  esta  escolha, que leva a um compromisso das comunidades cristãs e dos crentes individualmente, em ordem a ajudá-los na compreensão  do  tempo  presente,  na  procura de estilos de vida plausíveis e numa presença cristã mais eficaz no seio da sociedade.

A partir desta opção fundamental, foram tomadas muitas iniciativas louváveis no âmbito das comunicações. De grande relevo é a contribuição para a leitura original dos factos e para a reflexão cultural oferecida pelo jornal quotidiano nacional Avvenire, comprometido numa importante e inovativa operação de relançamento. Não menos significativas são as iniciativas de apoio aos numerosos semanários católicos italianos. Novas possibilidades se apresentaram no campo das transmissões radiotelevisivas, com a televisão satelitar denominada Sat2000 e o circuito radiofónico, que reúne numerosas rádios locais.

Não podemos deixar de ver neste fermento pastoral e cultural um fruto concreto e significativo do Decreto conciliar Inter mirifica. A partir deste Decreto teve início uma fase de profunda renovação e as suas indicações ainda hoje são válidas.

5. O testemunho dos crentes encontra no mundo dos meios de comunicação e da cultura um vastíssimo campo de expressão. Também nestes sectores devem ser reconhecidas as vocações específicas e os dons particulares, que certamente o Senhor não deixa faltar à sua Igreja. Sobretudo aos fiéis leigos, é pedido que dêem prova de profissionalidade e de autêntica consciência cristã.

Aqueles que trabalham nos campos da comunicação e da cultura, crentes e não-crentes, devem ter uma elevada consciência das responsabilidades que lhes são próprias, sobretudo diante dos indivíduos mais indefesos, que não raro são expostos, desprovidos de qualquer salvaguarda, a programas cheios de violência e de visões deturpadas do homem, da família e da vida em geral. Em particular, as autoridades públicas e as associações para a salvaguarda dos espectadores são chamadas a trabalhar, em conformidade com as suas próprias competências e responsabilidades, a fim de que os meios de comunicação conservem elevada a sua finalidade primeira, de serviço às pessoas e à sociedade em geral. A ausência de controlo e de vigilância não é uma garantia de liberdade, como muitos querem fazer acreditar, e aliás termina por favorecer uma utilização indiscriminada de instrumentos extremamente poderosos que, se são mal usados, produzem efeitos devastadores nas consciências das pessoas e na vida social. Num sistema de comunicações cada vez mais complexo e de difusão planetária, são necessárias inclusivamente regras clarividentes e justas, para garantir o pluralismo, a liberdade, a participação e o respeito pelos usuários.

6. Caros operadores nos campos da comunicação e da cultura, tendes diante de vós um grande desafio:  olhai com confiança e esperança para o futuro, dedicando as vossas melhores energias e confiando na ajuda do Senhor! Acompanho-vos a todos com as minhas orações, bem sabendo, também em virtude da minha experiência pessoal, como a questão cultural é central para a evangelização e quanto os meios de comunicação podem contribuir para uma profunda renovação  cultural,  iluminada  pelo Evangelho.

Maria, que acolheu o Verbo da vida e recebeu com os Apóstolos o dom do Espírito na efusão do Pentecostes, vos acompanhe e vos ajude, a fim de poderdes anunciar e testemunhar sempre o Evangelho com a vossa vida e o vosso compromisso nos campos das comunicações e da cultura.
Concedo-vos a todos a minha Bênção apostólica!

 

 

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