Senhores Cardeais
Venerados Irmãos no Episcopado
Caros participantes neste encontro
1. É com prazer que vos recebo no dia de hoje, por ocasião da IV Assembleia dos
Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e a Vida da Europa. Ela
realiza-se num momento extremamente importante, dado que se estão a debater
temas de grande relevância para o futuro da família dos povos europeus.
Saúdo-vos a todos cordialmente. De modo especial, saúdo o Senhor Cardeal Alfonso
López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, e
agradeço-lhes as palavras que me dirigiu em vosso nome. Estendo o meu pensamento
agradecido ao Secretário e aos colaboradores da Congregação que, com solicitude
constante, trabalha em favor da família. Saúdo cada um de vós que estais aqui
presentes e quantos, nas respectivas nações de proveniência, colaboram convosco
neste campo pastoral de interesse prioritário para a Igreja e para toda a
humanidade.
O tema que escolhestes, "Desafios e possibilidades no início do terceiro milénio",
é mais significativo do que nunca e realça muito bem o propósito que vos anima
na realização de um balanço sobre a situação da família na Europa, que está a
atravessar momentos de dificuldade.
Porém, a família dispõe também de ricas potencialidades, uma vez que
constitui uma instituição solidamente enraizada na natureza do ser humano. Além
disso, ela experimenta as energias que o Espírito lhe incute e que
não lhe faltarão no cumprimento da sua sagrada missão de transmitir a vida
e difundir o amor familiar ao longo das gerações.
2. Na realidade, hoje a própria identidade da família está a ser submetida a
ameaças desumanizantes. A perda da dimensão "humana" na vida familiar leva a pôr
em discussão a raiz antropológica da família como comunhão de pessoas. Então,
começam a surgir, um pouco por toda a parte no mundo, alternativas falazes que
não reconhecem a família como um bem precioso e necessário para o tecido social.
Deste modo, por falta de responsabilidade e de compromisso em relação à família,
infelizmente, corre-se o risco de ter de pagar um elevado preço social, de forma
especial em desvantagem das gerações vindouras, vítimas de uma mentalidade
nociva e confusa, e de estilos de vida que não são dignos do homem.
3. Na Europa dos nossos dias, o Instituto familiar sofre de uma preocupante
fragilidade, que aumenta quando as pessoas não estão preparadas para assumir as
responsabilidades que lhes são próprias no interior da mesma, numa atitude de
completa entrega recíproca e de verdadeiro amor.
Ao mesmo tempo, é também necessário reconhecer que muitas famílias cristãs oferecem
um consolador testemunho eclesial e social: elas vivem esta doação mútua no
amor conjugal e familiar de maneira admirável, superando as dificuldades e
adversidades. É precisamente desta doação total que brota a felicidade do
casal, quando ele se mantém fiel ao amor esponsal até à morte e se abre com
confiança ao dom da vida.
4. Nas sociedades contemporâneas da Europa surgem tendências, que não apenas não
contribuem para defender esta instituição humana fundamental, que é precisamente
a família, mas que chegam a atacá-la, tornando mais frágil a sua coesão
interior. Difundem mentalidades favoráveis ao divórcio, à contracepção e ao
aborto, negando efectivamente o sentimento autêntico do amor e, em última
análise, atentando contra a vida do homem, deixando de reconhecer o pleno direito
do ser humano à vida.
Sem dúvida, são numerosos os ataques contra a família e a vida humana, mas
graças a Deus são também numerosas as famílias que, apesar das dificuldades,
permanecem fiéis à sua vocação humana e cristã. Elas reagem aos ataques de uma
determinada cultura contemporânea hedonista e materialista e estão a
organizar-se em ordem a oferecer, em conjunto, uma resposta repleta de esperança.
Hoje em dia, a pastoral familiar é uma tarefa prioritária e existem sinais de
recuperação e de um novo despertar, em defesa da família. Refiro-me aqui a
algumas intervenções legislativas, assim como a oportunos incentivos para
debelar o progresso do inverno demográfico, sentido sobretudo na Europa.
Aumentam os movimentos em favor da família e pela vida; consolida-se e
constitui-se uma nova consciência social. Sim, os recursos da família são
incontáveis!
5. Aqui, gostaria de renovar o meu convite aos responsáveis dos povos e aos
legisladores, para que assumam plenamente os seus compromissos em defesa da
família e favoreçam a cultura da vida. Neste ano, celebra-se o vigésimo
aniversário da publicação, por parte da Santa Sé, da Carta dos Direitos da
Família. Ela apresenta os "direitos inatos fundamentais daquela sociedade
natural e universal, que é a família". Trata-se de direitos "expressos na
consciência do ser humano e nos valores comuns de toda a humanidade", que "derivam,
em última análise, daquela lei que foi inscrita pelo Criador no coração de cada
um dos seres humanos" (cf. Introdução). Formulo votos a fim de que este
importante documento continue a ser uma ajuda e orientação válidas para quantos,
a vários níveis, desempenham tarefas e responsabilidades sociais e políticas.
Maria, Rainha da Família, inspire e ajude os vossos esforços nas Comissões "Família
e Vida" das vossas respectivas Conferências Episcopais, para que as famílias
cristãs da Europa sejam cada vez mais "igrejas domésticas" e santuários da vida.
Com estes bons votos, corroborados pela oração, invoco a constante assistência
divina sobre as vossas actividades e, de bom grado, concedo-vos a todos a minha
Bênção.