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 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 AO SENHOR TÉRENCE NSANZE
NOVO EMBAIXADOR DO BURUNDI 
JUNTO DA SANTA SÉ*

15 de Maio de 2003  

Senhor Embaixador

1. Seja bem-vindo ao Vaticano, onde tenho o prazer de receber Vossa Excelência, por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Burundi junto da Santa Sé.

Agradeço-lhe as palavras gentis que acaba de me dirigir. A sua acreditação junto da Santa Sé realiza-se no momento em que o seu país, na aplicação dos Acordos de Arusha, vive uma nova etapa no seu caminho para a reconciliação e o restabelecimento da paz. Ficar-lhe-ia grato por se dignar transmitir a quantos têm a responsabilidade do destino da nação, bem como a todos os seus habitantes, os fervorosos votos que formulo para as Autoridades e para todos os Burundeses, a fim de que, em todas as classes da sociedade, manifestem sempre mais claramente o seu compromisso efectivo no processo em curso. Oxalá todos os habitantes do país trabalhem corajosamente para alcançar uma paz duradoura, fundada na justiça e no perdão, a fim de poderem viver em segurança na sua terra, património comum de todos os burundeses, na qual todos estão chamados a reconhecerem-se como irmãos!

2. Vossa Excelência acaba de realçar que a necessidade de alcançar um cessar-fogo definitivo e permanente é uma exigência necessária para a paz no seu país. O ódio e a violência causaram demasiados sofrimentos e ainda alimentam demasiados rancores. Os acordos feitos entre o governo e a maior parte dos grupos armados dão testemunho do progresso que pode ser realizado no momento em que foram escolhidos os caminhos de um diálogo construtivo e da reconciliação.

Eles inspiraram também confiança na Comunidade internacional, que começou a apoiar activamente o proceso em curso, e suscitaram uma grande esperança entre o povo burundês, martirizado por anos de conflito. Por conseguinte, é importante, hoje, não desiludir esta esperança mas fortalecê-la. Para esta finalidade, é dever primário dos responsáveis políticos mostrar o seu desejo sincero de fazer respeitar este acordo para o cessar-fogo e de o pôr em prática. Esta tarefa não pode realizar-se sem uma justa concepção da prática do poder, caracterizada em particular pelo serviço abnegado à comunidade nacional e ao bem comum, pela honestidade nas responsabilidades que que lhe estão confiadas, pela preocupação de proteger a população civil e fazer respeitar os seus direitos, e também de fazer com que todos os burundeses se interessem pela causa nacional. Estes valores, que têm a prioridade em qualquer programa político, constituem uma exigência ética que é o meio melhor para garantir a paz nacional e a paz entre os Estados, salvaguardando-os das lutas étnicas, e do arbítrio e da corrupção, como recordei ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé em 13 de Janeiro passado (cf. n. 5).

3. A consolidação da unidade nacional tem necessidade de que todos os componentes da nação estejam associados no processo em curso com vista à criação das instituições estáveis, capazes antes de mais de promover e garantir a concórdia social. Para isto, a exigência de diálogo com todos os grupos em causa deve prosseguir, para não entrar numa lógica de exclusão, que exacerba os antagonismos e que dá origem à violência. Nesta perspectiva, parece ser necessário também realizar as medidas adequadas, em sintonia com os acordos, para que todos os habitantes do país, seja qual for a sua pertença política, étnica ou religiosa, beneficiem da subsistência necessária, o que levará a respeitar o bem do próximo, sobretudo das populações civis.

4. O Senhor Embaixador recordou o património de valores humanos que confirmam a origem cultural e espiritual que o seu país possui. Estes valores constituem uma herança preciosa, graças à qual o Burundi, tirando de modo construtivo lições do passado, pode trabalhar para se comprometer de maneira renovada em viver juntos, numa sociedade cada vez mais reconciliada e solidária, atenta a traçar o sulco de um futuro de paz e de esperança para as novas gerações. A Igreja católica está presente no Burundi desde 1898. Ela continua hoje a comprometer-se incansavelmente para iluminar os corações e as consciências acerca da necessidade de trabalhar pela paz e pela reconciliação, e para pôr toda a riqueza da sua experiência ao serviço do desenvolvimento integral das pessoas e de toda a sociedade. Devido à sua presença nos âmbitos da educação, da saúde, da acção social e caritativa, ela deseja contribuir para a edificação da sociedade burundesa, permitindo a participação de todos os filhos do país no progresso humano e espiritual de todos, e fazendo com que sejam cada vez mais artífices do seu próprio desenvolvimento. A sua experiência confirma que o progresso de um país requer uma formação continuamente aprofundada e uma educação humana, moral e espiritual.

5. Excelência, permita-me saudar calorosamente, por seu intermédio, a comunidade católica burundesa e os seus Bispos. Convido-os a todos a nunca perderem a coragem diante da imensidade da tarefa que deve ser realizada. Neste tempo pascal, eles sabem que na cruz de Cristo foram pregadas todas as obras da morte que são o medo do próximo, o egoísmo, a violência e o ódio. Encorajo-os a permanecer sentinelas da esperança e protagonistas da reconciliação, atentos a levar o Evangelho da Vida onde quer que se movam os "pilares da paz" que são a verdade, a justiça, o amor e a liberdade (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2003, n. 4).

6. No momento em que começa a sua missão junto da Sé Apostólica, apresento-lhe os meus melhores votos pela sua feliz realização. Tenha a certeza de que encontrará nos meus colaboradores o acolhimento atento e compreensivo de que poderá ter necessidade.
Sobre Vossa Excelência, as pessoas que o acompanham, o povo do Burundi e quantos presidem ao seu destino, invoco de todo o coração a abundância das Bênçãos divinas.


*L'Osservatore Romano n. 23 pp. 2, 3.

 

© Copyright 2003 - Libreria Editrice Vaticana 

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