Excelência
É-me grato dar-lhe as boas-vindas ao Vaticano, no momento
em que Vossa Excelência apresenta as Cartas Credenciais que a designam nova
Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da República Islâmica do
Paquistão junto da Santa Sé. Agradeço-lhe as cordiais saudações que me
expressou em nome do Presidente da República, do governo e do povo do Paquistão.
A minha grande esperança é de que a amizade já existente entre o seu País e
a Santa Sé se aprofunde ainda mais e se caracterize por outros sinais de
confiança e de respeito recíprocos. Peço-lhe que transmita ao Presidente, Sua
Excelência o Senhor Musharaf, bem como aos cidadãos da sua Nação, a certeza
das minhas preces pela paz e pelo bem-estar de todo o País.
Agradeço-lhe as suas referências em reconhecimento dos
esforços incansáveis, realizados pela Igreja, em ordem a promover a paz e a
impedir os conflitos no nosso agitado mundo de hoje. Sem dúvida, a Santa Sé
compartilha a aspiração que o Paquistão alimenta, com vista a lançar os sólidos
fundamentos da paz sobre os princípios morais que encontram a sua fonte na
dignidade fundamental da pessoa humana, que é um dom de Deus. Com efeito, a
actividade levada a cabo pela Santa Sé no seio da comunidade internacional
deriva tanto desta visão específica da pessoa humana, como da convicção de
que, quando ela se debilita ou é abandonada, faz vacilar o próprio fundamento
da sociedade humana. Trata-se de uma perspectiva que exige o desenvolvimento da
liberdade alcançada mediante a garantia dos direitos humanos fundamentais. E os
que agora menciono não são os últimos destes direitos: o acesso
incondicional ao mercado do trabalho, a plena participação na vida civil
democrática e a liberdade da prática religiosa. Cada um deles confirma a
igualdade de todos os cidadãos.
As recentes guerras no Afeganistão e no Iraque chamaram,
como jamais aconteceu, a atenção dos meios de comunicação internacionais
para o Paquistão. Tendo como pano de fundo estas tragédias humanas, surgiu uma
oportunidade na realidade, um dever para a sua Nação, que consiste em
contribuir em grande medida para a paz, a que todo o género humano aspira. Os
recentes esforços realizados pelo governo no seu País, em ordem a desenraizar
o mal perpetuado por certos grupos de fundamentalistas, orientados para o
terrorismo, foram justamente reconhecidos pelo mundo inteiro. De maneira
semelhante, os actuais gestos e propostas corajosos feitos por parte do Paquistão,
que estão a dar nova vida ao diálogo em favor da paz com a Índia, trouxeram
uma renovada esperança ao processo de aproximação mútua e à redução das
enormes quantias de dinheiro gastas para a manutenção de uma presença militar
de alto nível na região da Cachemira. Estas iniciativas trazem um sentido de
alívio não apenas ao seu próprio povo, mas também à comunidade
internacional no seu conjunto. Estas medidas são consideradas como passos
positivos rumo à construção de uma civilização de amor, em que todos os
povos possam sentir-se seguros e viver em paz.
Além da participação responsável e desejosa de uma nação
nos acordos e nas negociações destinados a promover melhores relações
internacionais, o desenvolvimento autêntico exige também a aderência ao plano
de um verdadeiro progresso nacional. Este programa respeitará sempre os
direitos e as legítimas aspirações do povo, inclusivamente no que se refere
aos grupos minoritários. E exige também um governo transparente e um sistema
judicial imparcial. Sem estes fundamentos da sociedade civilizada, a esperança
do progresso, a que cada ser humano aspira, permancerá ilusória. Foi por este
motivo que, em numerosas circunstâncias, afirmei que a corrupção, tanto por
parte dos políticos, como dos oficiais judiciários ou dos administradores e
dos burocratas (cf. Ecclesia in Asia, 8), constitui um flagelo e uma
afronta contra a dignidade inviolável de cada pessoa humana e impede o
desenvolvimento social, económico e cultural de um país.
Excelência, é com prazer que reconheço a considerável
reforma política que, recentemente, foi realizada no Paquistão, com vista a
aperfeiçoar a vida civil da Nação. A abolição do sistema de eleitorados
separados e da preservação da atribuição de cadeiras reservadas contribuiu
em grande medida para restabelecer a confiança de todos os paquistaneses e não
apenas dos cidadãos das minorias étnicas e religiosas nos processos eleitorais
provinciais e nacionais. Esta tomada de posição foi elogiada publicamente,
entre outros, pelos membros da Conferência Episcopal do seu País. Contudo,
deve observar-se ainda que as injustiças que continuam a ser sentidas, de
maneira particular pela minoria cristã que vive na sua Nação, constitui uma
diminuição do bem-estar geral da Nação. As graves dificuldades que as
chamadas Leis da Blasfémia causam, e os episódios de violência e de
vandalismo perpetrados contra os cristãos e as suas propriedades estão a ser
oportunamente documentados. Além disso, há também as questões insolúveis da
desigualdade, no que se refere ao acesso ao mundo do trabalho e no que diz
respeito ao tratamento dos grupos minoritários nas instituições públicas,
quer eles sejam alunos nas escolas ou cidadãos que se devem apresentar diante
de um tribunal judicial. A garantia constitucional dos direitos civis e
religiosos deve reflectir-se nas políticas governamentais relativas ao mundo do
trabalho e dos serviços públicos em geral, tornando-se um exemplo a ser
imitado pelos outros sectores da vida pública. Sem a prática concreta do
reconhecimento dos direitos humanos, o crescimento de qualquer sociedade está
destinado a ficar paralisado.
No seu serviço em prol da família humana, a Igreja católica
está preparada para atingir todos os membros da sociedade paquistanesa, sem
qualquer distinção, procurando edificar juntamente com eles uma civilização
de amor fundamentada nos valores da paz, da justiça, da solidariedade e da
liberdade, comuns a todas as pessoas. Com uma maior participação dos missionários
na vida da Igreja, as suas escolas e os seus centros de assistência médica
poderiam contribuir de forma ainda mais vasta para os programas de
desenvolvimento humano do País. Estou convencido de que a Senhora Embaixadora
pode contar com a Igreja para continuar a trabalhar pelo progresso autêntico da
sociedade paquistanesa, de maneira especial através da sua assistência aos
pobres e do alívio às pessoas que sofrem.
Vossa Excelência começa a sua missão num momento da história
em que a comunidade internacional está a olhar para o Paquistão com grandes
expectativas e altas esperanças de progresso, em ordem a um desenvolvimento pacífico,
tanto no campo nacional como a nível internacional. Asseguro-lhe o apoio da
Santa Sé em tudo aquilo que serve para promover o bem comum da humanidade. Os
diversos Departamentos da Cúria Romana estão prontos para a ajudar no
cumprimento dos seus deveres, e estou certo de que o seu serviço revigorará os
laços de entendimento e de cooperação entre o Paquistão e a Santa Sé. Sobre
a Senhora Embaixadora, a sua família e os seus compatriotas, invoco
cordialmente as abundantes Bênçãos de Deus Omnipotente.
*L'Osservatore
Romano n. 24 p.3
© Copyright 2003 - Libreria Editrice Vaticana