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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
Excelência É-me grato dar-lhe as
boas-vindas ao Vaticano, no momento em que Vossa Excelência apresenta as Cartas
Credenciais com que é nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da
República de Trindade e Tobago junto da Santa Sé. Embora a minha visita ao seu
País tenha sido realizada há diversos anos, recordo-me bem do afecto e da
hospitalidade que então me foram reservados. Peço-lhe a amabilidade de
expressar os meus melhores votos a Sua Excelência o Senhor Presidente Richards,
ao Primeiro-Ministro, ao governo e a toda a população do seu querido País. Peço-lhe
ainda que lhes transmita a minha gratidão pelas suas saudações,
assegurando-lhes as minhas preces pela paz e a prosperidade da Nação. O compromisso
constante da Santa Sé na promoção da dignidade da pessoa humana encontra-se
no centro de toda a sua actividade diplomática. Sem o reconhecimento e a
salvaguarda fundamentais do valor incomparável da pessoa humana, serão vãos
os esforços em ordem a alcançar uma coexistência pacífica entre as pessoas
de diferentes grupos étnicos e de diversas tradições religiosas. A este propósito,
é com prazer que tomo conhecimento do facto de que o seu País valoriza a
urgente necessidade de toda a família humana dos indivíduos aos países, das
organizações regionais aos acordos internacionais dar uma expressão concreta
àquilo que o meu Predecessor, o Beato Papa João XXIII, identificava como os
quatro pilares da paz: verdade, justiça, amor e liberdade. A eficácia
e, efectivamente, a necessidade destes pilares para a paz derivam de maneira
directa do facto que são "quatro exigências específicas do espírito
humano" (Mensagem
para o Dia Mundial da Paz de 2003, n. 3). Desta forma, a construção da
paz no nosso mundo contemporâneo encontra o seu fundamento seguro no respeito
pela dignidade inviolável de cada pessoa. Numa sociedade
multicultural e plurirreligiosa como a do seu País, Senhor Embaixador, o
imperativo do reconhecimento e da salvaguarda da dignidade e da distinção intrínsecas
de cada ser humano é fortemente sentido. Além disso, se a procura da conquista
da unidade nacional através da diversidade e da harmonia social mediante a
tolerância, estiver bem fundamentada no desejo de defender os valores
enraizados na própria natureza da pessoa humana, torna-se não apenas uma questão
de aceitação passiva, mas um instrumento de enriquecimento cultural concreto
para todos. Com efeito, quando as diferenças culturais e religiosas são
valorizadas como dádivas, revelam a mão de Deus, que cria cada homem e cada
mulher à sua imagem e é o Único que pode conceder a plenitude da unidade à
família humana. O desenvolvimento económico
autêntico, que sempre contém um aspecto moral, é também de importância
crucial para o bem-estar e o progresso pacífico de uma nação. É aqui que se
satisfaz a exigência da justiça (cf. Sollicitudo
rei socialis, 10). O direito a um trabalho digno e a um estilo de vida
aceitável, a garantia de uma distribuição equitativa dos bens e das riquezas
em geral, assim como o uso responsável dos recursos naturais, tudo isto depende
de um conceito de desenvolvimento que não se limite unicamente a satisfazer as
necessidades materiais. Pelo contrário, este conceito deve realçar também a
dignidade da pessoa humana que é o próprio sujeito de todo o desenvolvimento
e, por conseguinte, promover o bem comum de toda a humanidade. Embora esta
finalidade certamente exija o apoio de toda a comunidade
internacional, é também verdade que muito se
pode realizar a nível do desenvolvimento regional. Isto requer que se ponha de
lado o nacionalismo excessivo, de tal maneira que o profundo valor da
solidariedade comunitária possa encontrar a sua expressão
nos acordos locais que visam a cooperação regional nos sectores económico e
social. Como o Senhor
Embaixador observou, embora os cidadãos de Trindade e Tobago, como numerosos
outros povos no mundo inteiro, permaneçam confiantes na esperança do futuro,
contudo estão a sofrer em virtude de alguns graves problemas sociais. Os
ataques contra a vida familiar que, tragicamente, parecem constituir um sinal
dos nossos tempos, estão a adquirir muitas formas. Uma das mais perniciosas é,
sem dúvida, o tráfico e o uso das drogas, que representam uma grave ameaça
contra o tecido social. Eles alimentam o crime e a violência, contribuem para a
ruptura da vida familiar e para a destruição física e emotiva de muitos indivíduos
e comunidades, de maneira especial entre os jovens (cf. Ecclesia
in America, 24). A consequente degradação da pessoa vai contra a
natureza da vida como dom e debilita o significado da plenitude de vida, que nos
foi revelada por Jesus Cristo. Por estes motivos, em numerosas circunstâncias
desejei realçar o facto de que "nos encontramos, aqui, diante de um dos
desafios mais urgentes que muitas nações no mundo devem enfrentar" (Ibidem). Por sua vez,
proclamando o Evangelho da vida recebido do seu Senhor (cf. Evangelium
vitae, 2), a Igreja católica deseja ardentemente promover no meio de
todos os povos, e de maneira especial entre os jovens, a cultura da verdade e do
amor, que leva à liberdade e à felicidade autênticas. Com vista a esta
finalidade, tanto as instituições civis como as religiosas devem trabalhar em
conjunto, em ordem a assegurar que a sagrada instituição do matrimónio, com a
consequente vida familiar estável, seja profundamente fomentada e
salvaguardada. Qualquer esperança de renovação da sociedade, que deixar de
aderir ao plano de Deus para a vida matrimonial e familiar, está destinada a
fracassar (cf. Familiaris
consortio, 3), uma vez que a dignidade de cada pessoa, concedida por
Deus, se realiza e é experimentada em primeiro lugar no seio da vida familiar.
Contudo, quando esta dignidade é confirmada mediante princípios de igualdade e
de respeito pelo bem comum, e salvaguardada através do exercício da lei e da
ordem, bem como de uma forma de governo honesta, a sociedade não pode deixar de
prosperar. Deste modo, motivada pela caridade, a Igreja católica que está em
Trindade e Tobago continuará a defender a vida matrimonial e familiar,
salvaguardando-a como "o instrumento mais eficaz para a humanização e a
personalização da sociedade" (Familiaris
consortio, 43). É desta visão da vida, divinamente inspirada, que as
suas escolas, os seus organismos de assistência médica e as suas obras em
geral dão testemunho. Senhor Embaixador,
estou convicto de que a sua missão, que hoje tem início, ajudará a fortalecer
os vínculos de compreensão e de cooperação existentes entre Trindade e
Tobago e a Santa Sé. No momento em que Vossa Excelência assume as suas novas
responsabilidades, asseguro-lhe que os diversos Departamentos da Cúria Romana
estão prontos para o ajudar no cumprimento dos seus deveres. Sobre o Senhor
Embaixador e os seus compatriotas, invoco as abundantes bênçãos de Deus
Todo-Poderoso. *L'Osservatore Romano n. 22 pp. 2, 3.
© Copyright 2003 - Libreria Editrice Vaticana
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