The Holy See
back up
Search
riga

 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SENHOR VALENTÍN ABECIA BALDIVIESO
NOVO EMBAIXADOR DA BOLÍVIA JUNTO À SANTA SÉ*  

Segunda-feira, 8 de Setembro de 2003 

Senhor Embaixador

1. É com extremo prazer que o recebo nesta audiência na qual me apresenta as Cartas Credenciais que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Bolívia junto da Santa Sé e agradeço-lhe sinceramente as amáveis palavras que houve por bem dirigir-me neste solene acto com o qual começa a missão que o seu Governo lhe confiou.

Peço-lhe que transmita ao Senhor Presidente da República, Dr. Gonzalo Sánchez de Lozada, assim como a todos os homens e mulheres que vivem no grande território que constitui o seu solo pátrio, formado por uma riquíssima geografia de paisagens formosas, montanhas majestosas, terras baixas, vales, lagos e planaltos. Naquelas latitudes foi-se forjando a fisionomia dos bolivianos mediante o encontro entre as antigas culturas autóctones e as que foram chegando com o passar dos séculos, oferecendo hoje uma variada realidade cultural e étnica chamada a ser vivida partindo do respeito recíproco e da convivência integradora.

2. A Bolívia possui uma grande marca religiosa, que realça a fé do seu povo depois de mais de cinco séculos do começo da evangelização. Neste sentido, a Igreja católica, fiel ao seu compromisso de levar a mensagem da salvação a todos os povos, emprega também todo o seu empenho em favorecer o desenvolvimento integral do ser humano e a defesa da sua dignidade, colaborando na consolidação dos valores e bases fundamentais para que a sociedade possa gozar de estabilidade e harmonia.

As diversas comunidades eclesiais, movidas de igual modo pelo seu desejo de manter vivos os conteúdos da mensagem evangélica, continuam a prestar a sua valiosa colaboração em âmbitos muito importantes, como o ensino, a assistência aos mais desfavorecidos, os serviços de saúde, assim como a promoção da pessoa como cidadão e filho de Deus. Por isso, os Pastores da Bolívia, em comunhão com o Sucessor de Pedro e como ponto de referência para todos, não deixam de oferecer as suas palavras, sábias e prudentes, que brotam de um conhecimento profundo da realidade humana boliviana lida à luz da Boa Nova.

A este respeito, o Episcopado boliviano nos momentos difíceis que o País atravessou, devido à sua delicada e conflituosa situação social, ofereceu a sua colaboração para fomentar iniciativas pacificadoras que favoreceram o entendimento e a reconciliação. Este modo de trabalhar, como já indiquei aos Bispos durante a sua última visita ad Limina, "é apenas uma forma temporal de exercer uma tarefa mais ampla, que integra a acção evangelizadora e leva à promoção da justiça e da solidariedade fraterna entre todos os cidadãos" (Discurso, 13 de Abril de 2002, 8). A missão de ordem religiosa, própria da Igreja, não impede que ela se preste para fomentar um diálogo nacional entre os responsáveis da vida social, a fim de que todos possam cooperar activamente para a superação das crises que se apresentarem.

Por outro lado, e como Sua Excelência realçou, este diálogo deve excluir qualquer forma de violência nas suas várias expressões e ajudar a construir um futuro mais humano com a colaboração de todos, evitando o empobrecimento da sociedade. A este respeito, é oportuno recordar que as melhorias sociais não se realizam, aplicando só as medidas técnicas necessárias, mas promovendo também reformas com uma base humana e moral que tenham presente uma consideração ética da pessoa, da família e da sociedade.

Por isso, a proposta constante dos valores morais fundamentais, como a honestidade, a responsabilidade pelo bem comum, a solidariedade, o espírito de sacrifício e a cultura do trabalho, pode garantir um melhor desenvolvimento para todos os membros da comunidade nacional, visto que a violência, o egoísmo pessoal e colectivo e a corrupção a qualquer nível nunca deram origem ao progresso nem ao bem-estar.

3. A situação que a Bolívia atravessa não deve ser causa de divisão nem deve fomentar ódio ou ressentimento entre quantos estão chamados a ser os construtores do País. Sabemos bem que o futuro de uma Nação deve basear-se na paz social, que é fruto da justiça (cf. St 3, 18), edificando um tipo de sociedade que, começando pelos responsáveis da vida política, parlamentar, administrativa e judicial, favoreça a concórdia, a harmonia e o respeito da pessoa, bem como a defesa dos seus direitos fundamentais.

Os bolivianos, com as ricas qualidades que os distinguem, devem ser os principais protagonistas e artífices do progresso do País, cooperando numa estabilidade política que permita que todos participem na vida pública. Os cidadãos bolivianos caracterizam-se pela sua coragem para dominar uma natureza áspera e rígida, são fortes diante das dificuldades, animados por um profundo humanismo e pelo sentido da solidariedade. Por isso, desejo animar-vos a não perder a coragem para conseguir melhores metas de progresso. Cada um, segundo as suas qualidades e possibilidades, está chamado a dar o seu contribuito para o bem da Pátria. A respeito disto, apraz-me saber que é firme propósito das Autoridades instaurar uma ordem social mais justa e participativa. Por isso, faço os meus melhores votos para que a acção do Governo consiga superar a grave e prolongada crise financeira, que afecta principalmente as camadas mais débeis da sociedade.

Para construir uma sociedade mais justa e fraterna, os ensinamentos morais da Igreja oferecem certos valores e orientações que, se forem tidos em consideração por quantos trabalham ao serviço da Nação, são úteis para enfrentar adequadamente as necessidades e aspirações dos bolivianos.
O doloroso e difundido problema da pobreza, com graves consequências no âmbito da educação, da saúde e da habitação, é um desafio premente para os governantes e para os responsáveis da vida pública face ao futuro da Nação. Isto exige uma séria tomada de consciência para enfrentar decididamente a actual situação a todos os níveis, cooperando assim para um verdadeiro compromisso pelo bem comum.

Como noutras partes, os pobres carecem de bens primários e não encontram os meios indispensáveis que permitam a sua promoção e desenvolvimento integral. Penso nos camponeses, nos mineiros, nos habitantes dos bairros marginais das cidades, em quantos são vítimas de um materialismo que exclui o homem e que se move apenas por interesses de enriquecimento ou de poder.

Perante isto, a Igreja, com o contributo da sua doutrina social, procura estimular e favorecer iniciativas convenientes orientadas para superar situações de marginalização que atingem tantos irmãos necessitados, para eliminar as causas da pobreza, realizando desta forma a sua missão, porque a preocupação pela vida social faz parte da acção evangelizadora (cf. Sollicitudo rei socialis, 41).

4. Senhor Embaixador, antes de concluir este encontro desejo exprimir-lhe os meus melhores votos para que a missão que hoje começa seja fecunda de frutos e bons êxitos. Peço-lhe novamente que se faça intérprete dos meus sentimentos e esperanças junto do Senhor Presidente da República e demais Autoridades do seu País, ao mesmo tempo que invoco a bênção de Deus e a protecção de Nossa Senhora de Copacabana sobre Vossa Excelência, sobre a sua distinta família e colaboradores, e sobre todos os amadíssimos filhos e filhas da nobre Nação boliviana, que recordo sempre com profundo apreço.


*L'Osservatore Romano n. 37 p. 5.

 

 © Copyright 2003 - Libreria Editrice Vaticana

 

top