Senhor Embaixador
1. Sinto-me feliz em receber Vossa Excelência no Vaticano por
ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador
extraordinário e plenipotenciário da República do Líbano junto da Santa Sé.
Agradeço-lhe as palavras gentis que houve por bem dirigir-me e
ficar-lhe-ia grato se se dignar transmitir a Sua Excelência o General Emílio
Lahoud, Presidente da República libanesa, os meus agradecimentos pelos votos
cordiais que me transmitiu por seu intermédio. Através da sua pessoa, desejo
saudar com afecto todo o povo libanês, recordando-me com emoção o seu
acolhimento caloroso por ocasião da minha viagem no seu país.
2. Senhor Embaixador, Vossa Excelência recordou as incertezas da
actual situação internacional, marcada por uma instabilidade profunda das
relações entre as Nações sob a pressão dos acontecimentos que se verificaram no
Iraque, mas também e sobretudo devido à recrudescência injustificável e
preocupante do terrorismo internacional. Face a esta situação precária, a Santa
Sé não deixa de se comprometer em favor de um regresso à estabilidade e à ordem
internacional, graças ao reconhecimento do papel regulador das Organizações
internacionais, sobretudo a Organização das Nações Unidas, e ao fortalecimento
dos seus meios de decisão e de acção, a fim de diminuir os focos de tensão e de
garantir a paz.
A terra do Líbano, que foi tão provada pelos sofrimentos de uma
longa e terrível guerra, procura restabelecer de novo a sua tradição exemplar de
diálogo e de equilíbrio entre os diversos componentes culturais e religiosos que
constituem desde sempre a nação libanesa. Os habitantes retomaram as suas
actividades a fim de reconstruir o seu país e de restabelecer condições
económicas e sociais que consintam a renovação do Líbano e que façam florescer
as variadas riquezas da cultura libanesa. É desejável que o vosso país
reencontre condições estáveis, que favoreçam um desenvolvimento económico e
social duradouro, proveitoso para todos, sobretudo para os mais desfavorecidos.
Evitar-se-á também deixar que se proliferem situações de injustiça ou de
dificuldades económicas, e sentimentos de frustração que podem enfraquecer o
tecido social, desencorajando certas camadas da população de permanecer no país
e favorecendo a emigração, que empobrece a nação, privando-a dos seus recursos
mais preciosos, que são os homens. Faço votos para que todos os libaneses se
esforcem corajosamente por participar na vida económica, social e política da
sua terra e por garantir um futuro de paz e de progresso aos seus filhos, o que
exige também, como já tive ocasião de realçar, "que o país adquira a sua
independência total, uma soberania completa e uma liberdade sem ambiguidades"
(Uma renovada esperança para o Líbano, n. 121). Que os seus concidadãos não
tenham receio de se comprometerem activamente ao serviço do bem comum, a fim de
promover uma prática sadia dos costumes políticos e de garantir o bom
funcionamento da democracia, para a salvaguarda e a consolidação da identidade
do Líbano, cuja vocação é ser "luz para os povos da região e sinal da paz que
vem de Deus" (ibid., n. 125).
Desejo que as diferentes comunidades humanas e religiosas que
formam o Líbano gozem sempre dos mesmos direitos e do mesmo respeito condição
primordial do caminho democrático e da liberdade das pessoas e que participem,
por seu lado, nesta obra comum, convidando incessantemente ao respeito e ao
diálogo recíprocos, expressando-se no seio de uma sociedade civil para recordar
a todos os princípios que devem orientar o caminho comum, participando
principalmente na educação da juventude, a fim de despertar cada vez mais o amor
pela justiça e pela paz, e o respeito da dignidade de cada homem.
Como Vossa Excelência, Senhor Embaixador, realçou com vigor, a
posição geográfica do Líbano situa-o no centro do Médio Oriente e do terrível
conflito que continua a dilacerá-lo, começando pelo confronto permanente dos
povos Israelita e Palestino que dura há mais de cinquenta anos, e o seu país,
que deve enfrentar uma afluência de pessoas ao seu território, evidentemente
sente-se parte em causa deste drama. Como recordei em várias ocasiões, a
comunidade internacional não deve evitar as suas responsabilidades sob o
pretexto de outras urgências, mas deve assumi-las corajosamente, convidando
todas as partes em causa, e em primeiro lugar os Israelitas e os Palestinos, a
restabelecer imediatamente o diálogo, para pôr fim ao ciclo infernal das
violências recíprocas. Eis o preâmbulo necessário para um regulamento global do
conflito que deverá associar o conjunto dos países da região. Desejo recordar de
igual modo que nunca se poderá restabelecer uma paz duradoura nesta região do
mundo sem a coragem política, sem a firme determinação a reconhecer os direitos
de cada um, inclusive os do adversário, para se pôr com ele no caminho da paz no
respeito da justiça, nem sem a aceitação do recurso ao perdão recíproco, para
curar as terríveis feridas infligidas pelas violências recíprocas durante
longuíssimos anos e por tantas vidas arruinadas. Possam todos os responsáveis
políticos ouvir este apelo, a fim de trabalhar activamente para não adiar a
instauração tão desejada da paz!
4. Permita-me Senhor Embaixador, alcançar agora, por seu
intermédio, os Patriarcas, os Bispos e todos os fiéis das comunidades católicas
do Líbano. Sei quanto estão afeiçoados ao seu país e a parte activa que assumem,
em nome da sua fé, para o seu desenvolvimento material e espiritual. Encorajo-os
a trabalhar juntos, católicos de diferentes ritos, ao serviço da comunhão, e a
prosseguir o caminho da unidade com os irmãos de outras confissões. Que eles se
dediquem, de modo específico, ao diálogo inter-religioso com os muçulmanos,
sobretudo no campo da educação dos jovens através das instituições
universitárias e escolares, bem como no diálogo da vida desta forma, eles serão
verdadeiros artífices da paz, contribuindo para edificar um Líbano novo, capaz
de vencer as incompreensões e de promover o bem comum, ao serviço de todos os
seus filhos!
5. No final do nosso encontro, Senhor Embaixador, sinto-me feliz
por lhe dirigir os meus calorosos votos pela feliz realização da nobre tarefa
que inicia hoje junto da Santa Sé. Saiba que encontrará sempre um bom
acolhimento junto dos meus colaboradores dos diferentes serviços da Cúria
Romana.
Sobre Vossa Excelência, os seus colaboradores da Embaixada, os
seus familiares, os responsáveis da Nação e sobre todo o povo libanês, invoco de
coração a abundância das Bênçãos divinas.
*L'Osservatore Romano 2004 n. 15 p. 2.
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