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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
AO PRESIDENTE DO PONTIFÍCIO COMITÉ
 DAS CIÊNCIAS HISTÓRICAS

17 de Abril de 2004

 

 

Ao Rev.mo Monsenhor WALTER BRANDMÜLLER
Presidente do Pontifício Comité das Ciências Históricas

1. A Igreja de Cristo tem para com o homem uma responsabilidade que, de certa forma, alcança todas as dimensões da sua existência. Por esta razão, sentiu-se sempre empenhada na promoção do desenvolvimento da cultura humana, favorecendo a busca da verdade, do bom e do belo, a fim de que o homem possa corresponder cada vez mais à ideia criadora de Deus.

Para este fim, é importante também o cultivo de um sério conhecimento histórico dos vários campos em que se articula a vida do indivíduo e da comunidade. Nada existe de mais inconsistente do que homens ou grupos sem história. A ignorância do próprio passado conduz fatalmente à crise e à perda de identidade dos indivíduos e da comunidade.

2. Depois, o estudioso crente sabe que possui nas Escrituras Sagradas da Antiga e da Nova Aliança, uma ulterior chave de leitura para um conhecimento adequado do homem e do mundo. De facto, é na mensagem bíblica que se conhece a vicissitude humana nos seus aspectos mais escondidos:  a criação, a tragédia do pecado, a redenção. Define-se assim o verdadeiro horizonte interpretativo dentro do qual podem ser incluídos eventos, processos e figuras da história no seu significado mais oculto.

Neste contexto, devem ser indicadas também as possibilidades de que um quadro histórico renovado pode manifestar uma convivência harmoniosa dos povos, sustentada por uma compreensão recíproca e por um mútuo intercâmbio de aquisições culturais. É conferido um papel insubstituível ao abatimento das barreiras existentes entre os povos a uma pesquisa histórica livre de preconceitos e vinculada unicamente à documentação científica. De facto, com muita frequência no curso dos séculos, foram levantados grandes impedimentos devido à parcialidade da historiografia e ao ressentimento recíproco. Como consequência disto, ainda hoje persistem incompreensões que são obstáculo para a paz e a fraternidade entre os homens e os povos.

A aspiração mais recente de superar os confins da historiografia nacional para uma visão alargada a contextos geográficos e culturais mais amplos poderia também revelar-se de grande proveito, pois garantiria um olhar comparativo sobre os eventos, permitindo uma sua avaliação mais equilibrada.

3. A revelação de Deus aos homens realizou-se no espaço e no tempo. O seu momento culminante, o fazer-se homem do Verbo divino, o seu nascimento da Virgem Maria na cidade de David no tempo do Rei Herodes, o Grande, foi um acontecimento histórico:  Deus entrou na história humana. Por este motivo, contamos os anos da nossa história a partir do nascimento de Cristo.

Também a fundação da Igreja, através da qual Ele quis transmitir, depois da sua ressurreição e ascensão, o fruto da redenção à humanidade é um facto histórico. A própria Igreja é um fenómeno histórico e, portanto, um objecto eminente da ciência histórica. Muitos estudiosos alguns dos quais nem pertencem à Igreja católica dedicaram-lhe o próprio interesse, dando um contributo importante à elaboração das suas vicissitudes terrenas.

4. A finalidade essencial da Igreja consiste, além da glorificação do Deus trinitário, em transmitir os bens salvíficos confiados por Jesus Cristo aos Apóstolos o seu Evangelho e os seus sacramentos a cada geração da humanidade carente de verdade e de salvação. Este receber do Senhor e transmitir aos homens a salvação é precisamente o modo  em  que  a  Igreja  se  realiza  e se  cumpre  a  si  mesma  no  curso  da história.

Visto que este processo de transmissão, quando se desenvolve através dos órgãos legítimos, é guiado pelo Espírito Santo de acordo com a promessa de Jesus Cristo, adquire ele mesmo um significado teológico, sobrenatural. Portanto, quanto se verificou no curso da história a nível de desenvolvimento da doutrina, da vida sacramental e do ordenamento da Igreja, em sintonia com a tradição apostólica, deve ser considerado como sua evolução orgânica. Por isso, a história da Igreja manifesta-se como o lugar oportuno do qual haurir para conhecer melhor a própria verdade da fé.

5. Por seu lado, a Santa Sé encorajou sempre as ciências históricas através das suas instituições científicas, como testemunha, entre outras, a fundação deste Pontifício Comité das Ciências Históricas, feita há cinquenta anos pelo Papa Pio XII.

Com efeito, a Igreja está muito interessada no conhecimento cada vez mais aprofundado da própria história. Para esta finalidade, hoje é necessário como nunca um ensino cuidadoso das disciplinas histórico-eclesiásticas, sobretudo para os candidatos ao sacerdócio, como aconselhava o decreto Optatam totius do Concílio Vaticano II (cf. n. 16). Contudo, para se aplicar com bom êxito ao estudo da tradição eclesiástica, são absolutamente indispensáveis sólidos conhecimentos das línguas latina e grega, sem as quais o acesso às fontes da tradição eclesiástica permanece fechado. Somente com o auxílio delas hoje é possível também redescobrir a riqueza da experiência de vida e de fé que a Igreja, sob a guia do Espírito Santo, foi acumulando ao longo dos dois mil anos transcorridos.

6. A história ensina que todas as vezes que, no passado, se adquiriu um novo conhecimento das fontes, foram lançadas as bases para um novo florescimento da vida eclesial. Se "historia magistra vitae", como afirma a antiga expressão latina, a história da Igreja pode muito bem ser chamada "magistra vitae christianae".

Portanto, desejo que o presente Congresso imprima uma nova motivação para os estudos históricos. Isto garantirá às novas gerações um conhecimento cada vez mais profundo do mistério da salvação que actua no tempo, e suscitará num número cada vez maior de fiéis o desejo de ir beber em abundância nas fontes da graça de Cristo.

Com estes votos, envio a Vossa Excelência Reverendíssima, aos Relatores e aos participantes no Congresso a minha afectuosa Bênção.

Vaticano, 16 de Abril de 2004.

 

 

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