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 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SENHOR KOUAMÉ BENJAMIM KONAN
NOVO EMBAIXADOR DA COSTA DO MARFIM
JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS*

Sábado, 10 de Janeiro de 2004

 


Senhor Embaixador

1. É com grande prazer que recebo Vossa Excelência por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário da República da Costa do Marfim junto da Santa Sé. Exprimo-lhe a minha gratidão pelas saudações cordiais que Vossa Excelência acaba de me transmitir da parte do Presidente da República da Costa do Marfim, do governo e suas. Ficar-lhe-ia grato por se dignar transmitir a Sua Excelência o Senhor Laurent Gbagbo os votos que formulo para a sua pessoa e para o cumprimento do seu nobre cargo ao serviço da Nação. Por seu intermédio, desejo saudar todo o povo marfinense. A recordação do acolhimento muito caloroso que ele me reservou por ocasião das minhas três visitas ao seu nobre país permanece na minha memória e no meu coração. Peço a Deus que o guie e o ampare nos seus esforços para progredir pelos caminhos de uma paz duradoura, a fim de que a tranquilidade readquirida permita que todos beneficiem de uma existência digna e pacífica.

2. Vossa Excelência, Senhor Embaixador, acaba de recordar a vontade dos Responsáveis da Costa do Marfim de não poupar esforço algum para alcançar a reconciliação nacional efectiva entre todos os seus habitantes, em vista de um regulamento pacífico da grave crise que o seu país atravessa desde o mês de Setembro de 2002. Os meus votos fervorosos são para que o processo de reconciliação nacional seja prosseguido e intensificado, e que o diálogo das armas ceda o lugar às armas do diálogo.

A vontade de levar a termo o desarmamento das diversas partes envolvidas no conflito é uma etapa importante no caminho da paz, pois manifesta a nobre aspiração de dizer sim à concórdia e não à violência, para fazer progredir juntos, pelos caminhos da concórdia e da unidade nacional, os diferentes componentes do País. Não duvido de que este desarmamento incluirá todas as armas detidas pela população, contribuindo assim para a estabilidade interior do país. A perspectiva da livre circulação das pessoas e dos bens deveria permitir também que as Autoridades dêem de novo confiança às populações e lhes proporcionem a possibilidade de prover às suas necessidades fundamentais. Para favorecer o restabelecimento de condições de vida normais, seria conveniente que as instituições e as diferentes administrações, instrumentos indispensáveis para o bom funcionamento da vida pública e das relações entre as Autoridades e os cidadãos, sejam imediatamente restabelecidas, porque todos nós sabemos que estas infra-estruturas, dotadas de pessoal que trabalha para o bem de todos, são fundamentais para o dinamismo do país. De igual modo, compete aos Responsáveis políticos fazer com que as escolas, elos essenciais para a educação das jovens gerações no sentido generoso do esforço, da aprendizagem da vida em sociedade e da recepção dos valores fundamentais para viver em comunidade, estejam em condições de dispensar aos alunos o ensino ao qual eles têm direito. Um melhor funcionamento das instituições organizativas da sociedade fará aumentar em todos o desejo imperioso de enfrentar o desafio da reconciliação, da fraternidade e do desenvolvimento da Nação. Neste espírito, o diálogo e o respeito restabelecidos entre todos os marfinenses, mediante a concórdia e a negociação, serão uma ocasião renovada para realizar cada vez mais os nobres ideais de liberdade, de solidariedade, de hospitalidade e de tolerância religiosa que Vossa Excelência acaba de se referir.

3. A consolidação das relações de confiança entre as comunidades humanas e religiosas que constituem o seu país é ao mesmo tempo um desafio e uma condição necessária para fazer desaparecer o receio do próximo e para reencontrar o prazer de viver em comunidade. Faço apelo aos responsáveis religiosos e aos membros de todas as comunidades para que se comprometam com todas as energias nesta tarefa fundamental para a estabilidade, o desenvolvimento e esplendor do País. De igual modo, a confiança recíproca, que deveria inspirar sempre e impregnar a vida social, política e económica de um país em todos os seus níveis, enraiza-se na promoção dos valores morais universais, tais como o respeito dos direitos humanos e o sentido da dignidade de cada pessoa. Esta confiança não se pode concretizar plenamente se não estiver fundada permanentemente no amor. Como tive a ocasião de recordar recentemente, "o amor é a forma mais alta e mais nobre de relação dos seres humanos inclusive entre si. Consequentemente o amor deverá animar todos os sectores da vida humana, estendendo-se também à ordem internacional. Só uma humanidade onde reine a "civilização do amor" poderá gozar de uma paz autêntica e duradoura" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2004, n. 10). Possam os esforços empreendidos por cada um, a todos os níveis da sociedade, para consolidar os vínculos da confiança e para se educarem reciprocamente, de maneira respeitadora, responsável e desinteressada, e para a resolução pacífica dos conflitos, desenvolver cada vez mais nos marfinenses a nobre consciência do contributo que o seu país está chamado a dar para a promoção do bem precioso da paz no vosso continente e em todo o mundo, em vista da edificação de uma verdadeira família das nações!

4. Vossa Excelência insiste sobre o papel da Igreja católica na Costa do Marfim e sobre as acções que ela desempenha para participar de maneira específica, mediante a voz dos seus Pastores e mediante as iniciativas dos seus membros, na resolução pacífica do conflito do seu país. Isto é para mim motivo de alegria. Através da sua pessoa, Senhor Embaixador, desejo saudar com afecto todos os membros da comunidade católica marfinense, que vivem no país ou na diáspora. Estando unidos aos seus Pastores, comportem-se cada vez mais como verdadeiras testemunhas do Evangelho, fermentos de unidade e de reconciliação, vivendo e propondo claramente os valores que a mensagem cristã transmite! Amparados pela protecção materna da Virgem Maria, Nossa Senhora da Paz, de Yamoussoukro, poderão trabalhar pacientemente, com todos os homens de boa vontade, para afastar os receios e os preconceitos que impedem que as pessoas construam uma sociedade renovada e solidária.

Vossa Excelência realça de igual modo a parte activa que a Igreja católica assume para garantir, em relação com as Organizações internacionais, o apoio material, médico, psicológico e espiritual das populações deslocadas e das vítimas traumatizadas pelo conflito. O amor de Cristo, que ela pretende testemunhar a toda a humanidade, convida-a a preocupar-se por todos os homens, privilegiando as pessoas mais débeis e as que sofrem. Rejeitando qualquer divisão, que põe em perigo o prosseguimento do bem comum, e querendo dar a conhecer a Boa Nova de Cristo, ela sabe que está chamada, mediante as suas obras de saúde, de acção social e caritativa, e também mediante a educação, a contribuir para o desenvolvimento integral das pessoas e dos povos, em conformidade com a sua vocação. Convido-a a perseverar neste esforço, sobretudo no apoio que ela pode dar às famílias; "saem, de facto, da família os cidadãos e na família encontram a primeira escola daquelas virtudes sociais, que são a alma da vida e do desenvolvimento da mesma sociedade" (Exortação Apostólica Familiaris consortio, 42).

5. No final do nosso encontro, no momento em que Vossa Excelência começa a sua missão, apresento-lhe os meus melhores votos para a nobre tarefa que o aguarda. Garanto-lhe que encontrará sempre um acolhimento atento e uma compreensão cordial junto dos meus colaboradores.

Invoco de todo o coração sobre Vossa Excelência, os seus colaboradores, a sua família, o povo marfinense e os seus Dirigentes, a abundância das Bênçãos divinas.


*L'Osservatore Romano n. 4 p. 2.

 

© Copyright 2004 - Libreria Editrice Vaticana


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