Excelência
É com prazer que lhe dou as boas-vindas no dia de hoje, no
momento em que apresenta as Cartas que a acreditam como Embaixadora
Extraordinária e Plenipotenciária da República Democrática Socialista do Sri
Lanka junto da Santa Sé. Estou-lhe grato por me transmitir as cordiais saudações
da parte da Presidente, Sua Ex.cia a Senhora Chandrika Bandaranaike Kumaratunga,
e peço que tenha a amabilidade de lhe retribuir, juntamente com a expressão dos
meus bons votos, a certeza das minhas orações a fim de que Deus
Todo-Poderoso abençoe todo o povo do Sri Lanka com um futuro de paz e de
prosperidade.
Vossa Excelência falou sobre a importância do restabelecimento
dos debates sobre a paz e da promoção do diálogo e das negociações, em vista de
alcançar uma resolução política para a contínua agitação civil no Sri Lanka. Com
efeito, o cessar-fogo actual representa uma oportunidade inestimável para ambas
as partes em conflito, a fim de concentrarem os seus esforços na edificação da
confiança e da paz duradouras, fundamentadas no respeito pelas diferenças e no
compromisso em prol da reconciliação, da justiça e da solidariedade. Formulo
votos para que o progresso realizado no processo de paz sirva também como
incentivo para a comunidade internacional oferecer o seu apoio e a sua
assistência, no momento em que o Sri Lanka está a enfrentar a tarefa desafiadora
de reconstrução e de busca de um desenvolvimento sólido que há-de beneficiar
todo o seu povo.
Neste contexto, aprecio profundamente a sua referência à longa
tradição cingalesa de tolerância religiosa e de diversidade, como um dom
precioso que deve ser salvaguardado e promovido. Em cooperação com todos os
homens e mulheres de boa vontade, os seguidores das várias religiões têm um
papel singular a desempenhar na promoção da reconciliação, da justiça e da paz,
em todos os sectores da sociedade em geral. Precisamente em virtude das suas
convicções comuns acerca da sacralidade da criação, da dignidade de cada um dos
indivíduos e da unidade de toda a família humana, eles são chamados a trabalhar
juntos para lançar os fundamentos espirituais de uma harmonia social genuína.
Renovo a esperança que expressei durante a minha Visita Pastoral ao Sri Lanka,
de que todos continuem "a percorrer este caminho que, sem dúvida, é o que mais
corresponde à sua história e ao génio do seu povo" (Discurso de despedida,
Colombo, 21 de Janeiro de 1995). Uma sociedade multiétnica e tão diferente
sob o ponto de vista religioso, como é a do Sri Lanka, certamente encontrará nas
suas ricas tradições culturais e espirituais a inspiração necessária para a
edificação da unidade dentro da diversidade, num espírito de solidariedade
que reconheça e valorize a contribuição oferecida por todos os seus membros.
Não obstante a comunidade católica no Sri Lanka represente uma
minoria, ela está plenamente comprometida em alcançar esta finalidade, enquanto
procura, através das suas escolas e das suas instituições de caridade, tornar-se
um instrumento de paz, ensinando a tolerância e o respeito, sobretudo aos
jovens, que constituem o futuro da nação. A Igreja deseja oferecer toda a
contribuição possível para o processo permanente de pacificação. Como cidadãos
cingaleses, os católicos justamente esperam que as suas liberdades religiosas e
civis sejam integralmente garantidas, inclusive o seu direito a propor aos
outros a verdade salvífica, que eles puderam conhecer e decidiram abraçar. A
liberdade religiosa, como expressão da dignidade inviolável da pessoa humana em
busca da verdade, é verdadeiramente o fundamento de todos os direitos do homem.
Esta liberdade que, como Vossa Excelência observou, inclui também o direito a
adoptar uma religião ou um credo da própria escolha, foi reconhecido há muito
tempo como um direito humano fundamental pela comunidade internacional, tendo
então sido inserido na constituição do seu país.
É precisamente em nome da liberdade religiosa que a Igreja
católica, no cumprimento da sua missão, deplora com determinação toda a
violência perpetrada contra os outros em nome da religião. De igual modo, ela
rejeita todas as formas de proselitismo, entendido como a tentativa de violar a
liberdade de consciência das outras pessoas, através da coerção moral ou
financeira. Tais actos representam uma ofensa contra a natureza autêntica da
religião, que deve ser "uma fonte inesgotável de respeito e de harmonia entre os
povos; com efeito, a religião é o principal antídoto à violência e ao conflito"
(Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, n. 14). Aproveito este
ensejo para reiterar a minha convicção de que o diálogo respeitador e a
cooperação permanente entre os líderes religiosos e as autoridades civis
continuam a constituir o caminho rumo a uma solução duradoura para os problemas
inquietadores levantados pelos actos de fanatismo e de agressão, associados a
determinados indivíduos ou grupos, garantindo ao mesmo tempo as exigências da
justiça e o exercício da liberdade religiosa.
Excelência, transmito-lhe os meus sinceros bons votos no momento
em que a Senhora Embaixadora assume as suas altas responsabilidades. Estou
persuadido de que o cumprimento dos seus deveres diplomáticos há-de contribuir
para fortalecer ainda mais as relações de amizade entre o Sri Lanka e a Santa
Sé. Sobre a Senhora Embaixadora e sobre todas as pessoas a cujo serviço Vossa
Excelência se põe, invoco cordialmente as copiosas bênçãos divinas da sabedoria,
do júbilo e da paz.
*L'Osservatore Romano 2004 n. 23 p. 6.
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