Senhor Embaixador
1. Apraz-me recebê-lo nesta ocasião, durante a qual me apresenta
as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da
República da Guatemala junto da Santa Sé. Ao apresentar-lhe as minhas cordiais
boas-vindas agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu, bem como a saudação
que me transmitiu da parte do Senhor Presidente, Dr. Oscar Berger Perdomo, a
qual retribuo pedindo-lhe que transmita os meus melhores votos de paz e
bem-estar para todo o povo guatemalteco.
2. O seu País, Senhor Embaixador, é conhecido como a terra da
eterna primavera. A Providência concedeu-me poder visitá-lo em três ocasiões
desde a minha eleição para Sucessor de São Pedro. Desta forma, pude entrar em
contacto com esse nobre povo, que tem uma ascendência milenária, no qual o
anúncio do Evangelho deu forma a manifestações profundas de fé tão enraizadas na
cultura guatemalteca. Recordo a beleza das suas paisagens, o carácter acolhedor
do seu povo e, particularmente, a fé profunda da comunidade eclesial que ali
vive. A vivência, alegre e devota, da fé em Jesus Cristo tem manifestações
muito solenes nos cultos da Semana Santa, repletos de amor ao Redentor dos
homens, morto e ressuscitado.
As minhas duas primeiras visitas a Guatemala tiveram lugar em
1983 e em 1996, quando ainda persistia um doloroso conflito armado interno, que
provocou tantas mortes.
A terceira visita, em Julho de 2002, quando já tinha sido
assinado o Acordo de paz, permitiu que me encontrasse com um povo alegre e
esperançoso devido aos resultados obtidos. Naquela ocasião canonizei o Irmão
Pedro de São José de Betancurt, numa celebração muito participada, que congregou
fiéis da Guatemala e de toda a América Central, os quais davam graças a Deus
pelo dom deste humilde Santo que, sendo proveniente das Canárias, elegeu esse
País para se santificar no caminho da caridade, da oração e da penitência, assim
como no serviço aos pobres e aos enfermos. A sua recordação permanece viva e
o seu carisma perdura na Ordem Bethlemita, a qual, inspirando-se nos seus
ensinamentos, deu abundantes frutos de santidade, como a Madre Encarnación Rosal,
primeira Beata guatemalteca.
3. Nas mensagens que deixei nas mencionadas visitas quis
expressar o meu afecto para com aquele querido povo guatemalteco, mas também as
minhas preocupações face aos problemas que ali se viviam. Apraz-me constatar que
a defesa da vida humana, desde a sua concepção até ao seu fim natural, é
constitucionalmente reconhecida na sua Nação, o que constitui um sinal de honra
para a Guatemala. Neste, como noutros âmbitos, quando a legislação civil assume
os princípios do direito natural caminha-se para a paz e para o progresso dos
povos.
4. Vossa Excelência, Senhor Embaixador, no seu discurso
referiu-se ao desejo do seu Governo de combater a corrupção em todas as suas
formas, para reduzir a desigualdade entre aqueles que tudo possuem e os que
carecem do necessário, assim como para reunir esforços para prosseguir a
construção de uma nação melhor. A transparência e a honradez na gestão pública
favorecem um clima de credibilidade e confiança dos cidadãos nas suas
autoridades e lançam as bases para um progresso conveniente e justo. Nesta
tarefa, os responsáveis públicos encontram na Igreja, com a simplicidade dos
seus recursos mas com a força das suas firmes convicções, a colaboração adequada
para a busca de soluções, reconhecendo os esforços para fazer crescer a
consciência e a responsabilidade dos cidadãos e fomentando a participação de
todos.
Infelizmente, apesar de ter terminado o conflito interno armado,
a Guatemala não pode ignorar a violência que afligiu muitas pessoas. Desejo
recordar que entra tantas vítimas não faltaram ministros da Igreja e servidores
do Evangelho, como D. Juan Gerardi, Bispo assassinado em 1998, cujo caso ainda
não foi completamente esclarecido, assim como o de vários sacerdotes e
catequistas. Não sejam poupados esforços para alcançar a paz social no País e a
reconciliação entre todos os cidadãos.
5. A pobreza constitui outro problema que incide na existência
de muitos dos seus cidadãos. O esforço por atender às necessidades dos mais
desfavorecidos deve ser considerado uma prioridade fundamental. Apraz-me que o
seu Governo considere isto como um objectivo ao qual dedicar esforços e
recursos. Entre os que sofrem essa chaga social muitos pertencem às populações
indígenas. Contudo, entre eles encontram-se os que tiveram o privilégio de
aceder a uma vida mais digna, com maiores oportunidades educativas e com mais
presença no cenário nacional, outros encontram-se imersos na pobreza e na
marginalização. As rápidas transformações da economia internacional e os
abaixamentos do preço dos produtos agrícolas levaram muitos deles a uma situação
difícil. A Igreja, mãe e mestra, fiel à sua missão, acompanha de perto as
numerosas famílias camponesas que vivem hoje as consequências desta crise. Este
é outro âmbito no qual a colaboração entre as diversas instituições públicas e a
comunidade eclesial encontra um terreno fértil para assistir e promover os
pobres.
Antes de terminar este encontro desejo dirigir também uma
palavra de proximidade e conforto à numerosa comunidade guatemalteca que vive
como emigrante noutros países, principalmente na América do Norte. A distância
da pátria é devida ao desejo de encontrar melhores condições de vida. Sem
dúvida, não devem esquecer que é um dever conservar e incrementar os ricos
valores culturais e religiosos que fazem parte da bagagem que levaram consigo
quando partiram, e com a sua situação actual devem sentir-se comprometidos a
contribuir com soluções para o País que os viu nascer e que hoje continua a
considerá-los seus filhos, não obstante a distância e o tempo.
6. Senhor Embaixador, desejo apresentar-lhe agora os meus
melhores votos pelo desempenho da sua missão junto da Sé Apostólica. Peço-lhe
que transmita ao Senhor Presidente da República a minha saudação e a todo o povo
guatemalteco a certeza da minha oração pelo seu desejado progresso integral.
Peço a Deus que o assista na missão que hoje começa e invoco todas as bênçãos
celestes sobre Vossa Excelência, sobre a sua distinta família, os seus
colaboradores, assim como sobre os governantes e os cidadãos da Guatemala.
*L'Osservatore Romano n. 37 p. 6.
© Copyright 2004 -
Libreria Editrice Vaticana