Caríssimos Irmãos no Episcopado
1. "Quam bonum et quam iucundum habitare fratres in
unum!" (Sl 133 [132], 1). A alegria do salmista, eco do júbilo
dos filhos de Israel, é hoje a nossa felicidade. O espectáculo de muitos
Bispos, reunidos de todas as partes do mundo, não se verificava desde os
tempos do Concílio Vaticano II. O nosso encontro hodierno faz-me remontar
com a mente aos anos de graça em que se sentiu com vigor, como frémito de um
novo Pentecostes, a presença do Espírito de Deus. É bonito que o grande
Jubileu nos tenha oferecido a ocasião propícia para nos encontrarmos em número
tão elevado. A comunhão fraterna, que nos une em virtude da colegialidade
episcopal, alimenta-nos também nestes sinais.
Agradeço-vos os sentimentos de comunhão que me expressastes
pelas palavras do caríssimo D. Giovanni Battista Re, que precisamente nestes
dias, após anos de serviço como meu estreito colaborador na Secretaria de
Estado, assumiu o delicado e importante cargo de Prefeito da Congregação
para os Bispos. Exprimo também a minha gratidão aos Cardeais Bernardin
Gantin e Lucas Moreira Neves pelo precioso trabalho por eles desempenhado com
diligência e sabedoria, na presidência da mencionda Congregação.
2. À primeira vista, o encontro de hoje poderia parecer supérfluo,
uma vez que cada um de vós se abriu amplamente à graça do Jubileu,
acompanhando os próprios fiéis a vários lugares jubilares da própria
Diocese e Nação. Contudo, sentimos a necessidade de uma celebração, por
assim dizer, totalmente nossa, destinada a aumentar o nosso compromisso
e, antes ainda, a jubilosa gratidão pela dádiva da plenitude do Sacerdócio.
Foi como se voltasse a ouvir o convite que certo dia o Mestre dirigiu aos
Doze, marcados pelo cansaço do afã apostólico: "Vamos sozinhos
para algum lugar deserto, para que descanseis um pouco" (Mc 6,
31). Sem dúvida, vir hoje a Roma não significa retirar-se para um lugar
deserto! Em contrapartida, junto da Sé do Sucessor de Pedro cada um de vós
pode sentir-se à vontade, como se estivesse na própria casa, e todos
juntos podemos viver uma hora de "repouso" espiritual,
congregando-nos em redor de Cristo.
Deixastes por um momento as vossas preocupações pastorais
para viver uma pausa de carga interior num encontro especial com quantos, como
vós, trazem a sarcina episcopalis. Ao mesmo tempo, com este gesto
sublinhastes o facto de vos sentirdes membros do único Povo de Deus, a
caminho com os outros fiéis rumo ao encontro definitivo com Cristo. Sim, também
os Bispos, bem como todos os cristãos, estão a caminho da Pátria e têm
necessidade do auxílio de Deus e da sua misericórdia. Neste espírito,
estais aqui para implorar comigo a graça especial do Jubileu.
Desta forma, podemos experimentar juntos toda a consolação
da verdade enunciada por Santo Agostinho: "Para vós, sou bispo;
convosco, sou cristão. O primeiro é o nome de um cargo assumido; o segundo,
de uma graça. Aquele é o nome de um perigo; este, de salvação" (Sermão
340, 1: PL 38, 1483). São palavras fortes!
3. "Dilexit Ecclesiam!" (Ef 5, 25).
Neste momento, no nosso coração de Pastores emergem as palavras de Paulo aos
Efésios: elas recordam-nos que o nosso Jubileu é antes de mais nada um
convite a medir-nos com o amor que palpita no coração de Cristo. Olhemos
para Ele, o Filho eterno de Deus que, na plenitude do tempo, Se fez homem no
seio de Maria. Fixemos o nosso olhar n'Ele, Salvador nosso e de todo o género
humano. Olhemos para Ele que, com a Encarnação, num certo sentido Se tornou
"consanguíneo" de cada homem. O raio do seu amor é tão vasto
quanto o mundo. Ninguém é excluído do seu olhar de amor.
Aberto ao mundo, o amor de Cristo é ao mesmo tempo um amor
de predilecção. Amor universal e amor de predilecção não se
contradizem, mas são dois círculos concêntricos. É em virtude do amor de
predilecção que Cristo gera a Igreja como seu corpo e sua esposa, fazendo
deles o sacramento da salvação para todos. Dilexit eam! Hoje
sentimo-nos de novo alcançados, juntamente com todo o povo de Deus, por este
olhar de amor.
Naquele dilexit Ecclesiam cada um de nós encontra o
modelo e a força do seu ministério, o fundamento e a raiz viva do mistério
que o habita. Caríssimos Irmãos no Episcopado, como pessoas sacramentalmente
configuradas com Cristo, Pastor e Esposo da Igreja, somos chamados a
"reviver" nos nossos pensamentos, sentimentos e opções o amor e a
abnegação total de Jesus Cristo pela sua Igreja. Em última análise, o amor
a Cristo e o amor à Igreja são um amor único e indivisível.
Imitando e compartilhando o dilexit Ecclesiam de Cristo, neste diligere
Ecclesiam encontram-se a graça e o compromisso desta nossa celebração
jubilar.
4. O Apóstolo indica de forma luminosa a finalidade suprema
do dilexit Ecclesiam: "Cristo amou a Igreja e entregou-Se
por ela... e santificou-a" (Ef 5, 25-26). Assim é também o nosso
múnus episcopal: ele está ao serviço da santidade da Igreja.
Cada uma das nossas actividades pastorais tem como
objectivo último a santificação dos fiéis, a começar pelos
sacerdotes, nossos directos colaboradores. Por conseguinte, deve ter em vista
suscitar neles o compromisso de responder ao chamamento do Senhor com
prontidão e generosidade. E não é acaso o nosso próprio testemunho de
santidade pessoal o apelo mais credível e mais persuasivo que os leigos e o
clero têm direito a esperar no seu caminho rumo à santidade? Proclamou-se o
Jubileu precisamente para "suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio
de santidade" (Tertio millennio adveniente, 42).
É necessário redescobrir aquilo que o Concílio Vaticano II
diz sobre a vocação universal à santidade. Não é por acaso que o
Concílio se dirige em primeiro lugar aos Bispos, recordando que devem
"desempenhar o seu ministério santamente e com entusiasmo, com humildade
e fortaleza; assim, encontrarão nele um magnífico meio da santificação própria"
(Lumen gentium, 41). Como se vê, é a imagem de uma santidade que
cresce ao lado do ministério, mas através do mesmo ministério.
Uma santidade que se desenvolve como caridade pastoral, encontrando o
seu paradigma em Cristo Bom Pastor e impelindo cada pastor a tornar-se o
"modelo da grei" (cf. 1 Pd 5, 3).
5. Esta caridade pastoral deve vivificar os tria munera em
que se articula o nosso ministério. Em primeiro lugar o munus docendi,
ou seja, o serviço do ensino. Quando relemos os Actos dos Apóstolos, ficamos
impressionados perante o fervor com que o primeiro núcleo apostólico semeava
a mãos-cheias, com a força do Espírito, a semente da Palavra. Devemos encontrar
de novo o entusiasmo pentecostal do anúncio. Em um mundo que, através
dos mass media, conhece uma espécie de inflação das palavras, o verbo do Apóstolo
só pode distinguir-se e progredir apresentando-se, com toda a luminosidade
evangélica, como palavra repleta de vida. Não tenhamos medo de
anunciar o Evangelho, "opportune et importune" (2 Tm
4, 2).
Sobretudo hoje, no meio de muitas vozes discordantes que criam
confusão e perplexidade na mente dos fiéis, o Bispo tem a grave
responsabilidade de esclarecer. O anúncio do Evangelho é o acto de
amor mais excelso em relação ao homem, à sua liberdade e à sua sede de
felicidade.
Através da Liturgia, fonte e ápice da vida eclesial (cf. Sacrosanctum
concilium, 10), esta mesma caridade torna-se sinal, celebração e acção
orante. Aqui, o dilexit Ecclesiam de Cristo faz-se memória viva e
presença eficaz. Nesta obra, mais que em qualquer outra, o papel do Bispo
delineia-se como munus sanctificandi, ministério de santificação,
graças à presença operosa d'Aquele que é o Santo por excelência.
Enfim, a caridade do Bispo deve brilhar no vasto âmbito da
orientação pastoral: no munus regendi. Exige-se muito de nós.
Em tudo devemos trabalhar "como bons pastores que conhecem as suas
ovelhas e por elas são conhecidos, como verdadeiros pais que se distinguem
pelo espírito de amor e solicitude por todos" (Christus Dominus, 16).
Trata-se de um serviço de caridade que não deve ignorar ninguém, mas há-de
presar atenção especial aos "últimos", mediante a "opção
preferencial pelos pobres" que, vivida segundo o exemplo de Jesus, é
expressão tanto de justiça como de caridade.
6. Dilectos Irmãos, o Jubileu é o tempo da "grande
indulgência". As graves responsabilidades que nos são confiadas e as não
poucas dificuldades que hoje o nosso ministério episcopal encontra tornam mais
acentuada e sofrida a consciência da nossa pequenez espiritual e, por
conseguinte, mais vigorosa e insistente a invocação ao amor indulgente do
Pai. Mas a misericórdia que nos advém do sacrifício de Cristo, o qual se
torna presente todos os dias na Eucaristia, infunde-nos uma esperança
extremamente sólida. Devemos anunciar e testificar esta esperança perante um
mundo que a extraviou ou deturpou. Trata-se de uma esperança fundamentada na
certeza de que Cristo está sempre presente e operante na sua Igreja e
na história da humanidade.
Às vezes pode parecer, como no episódio evangélico da
tempestade acalmada (cf. Mc 4, 35-41; Lc 8, 22-25), que Cristo
dorme e nos deixa à mercê das vagas agitadas. Porém, sabemos que Ele está
sempre pronto a intervir com o seu amor todo-poderoso e salvífivo. Ele
continua a dizer-nos: "Tende coragem; Eu venci o mundo" (Jo
16, 33).
Sustenta-nos em cada um das nossas fadigas a proximidade de
Maria, a Mãe que Cristo nos deu da Cruz, dizendo ao Apóstolo predilecto:
"Mulher, eis aí o teu filho" (Jo 19, 26). A Ela, Regina
Apostolorum, confiamos as nossas Igrejas e vidas, abrindo-nos com fé à
aventura e aos desafios do novo Milénio.