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JOÃO
PAULO II
DISCURSO
DO SANTO PADRE DURANTE A VISITA AO MEMORIAL "YAD VASHEM"
Jerusalém,de
Março de 2000
As palavras do antigo Salmo brotam do nosso coração:
"Estou como um objecto perdido.
Ouço as calúnias de muitos,
e o pavor me envolve!
Eles conspiram juntos contra mim
e tramam tirar-me a vida.
Quanto a mim, Javé,
eu confio em Ti, e digo:
"Tu és o meu Deus!"" (Sl 31, 13-15).
1. Neste lugar da memória, a mente, o coração e a alma
sentem uma extrema necessidade de silêncio. Silêncio para recordar. Silêncio
para procurar dar um sentido às recordações que retornam impetuosas. Silêncio
porque não há palavras bastante fortes para deplorar a terrível tragédia
do Shoah. Eu mesmo tenho recordações pessoais de tudo aquilo que
aconteceu quando os nazistas ocuparam a Polónia durante a Guerra. Recordo os
meus amigos e vizinhos judeus, alguns dos quais morreram, enquanto outros
sobreviveram.
Vim a Yad Vashem para prestar homenagem aos milhões de Judeus
que, privados de tudo, em particular da sua dignidade humana, foram mortos no
Holocausto. Passou mais de meio século, mas as recordações permanecem.
Aqui, como em Auschwitz e em muitos outros lugares na Europa,
somos afligidos pelo eco dos lamentos massacrantes de um grande número de
pessoas. Homens, mulheres e crianças gritam-nos dos abismos do horror que
conheceram. Como podemos deixar de prestar atenção ao seu clamor? Ninguém
pode esquecer ou ignorar quanto aconteceu. Ninguém pode diminuir a sua dimensão.
2. Queremos recordar. Mas queremos recordar para uma
finalidade, ou seja, para garantir que o mal jamais prevalecerá, como
aconteceu com milhões de vítimas inocentes do Nazismo.
Como pôde o homem provar um tal desprezo pelo homem? Porque chegou ao ponto
de desprezar a Deus. Só uma ideologia sem Deus podia programar e levar a
termo o extermínio de um inteiro povo.
A honra prestada pelo Estado de Israel no Yad Vashem aos
"exactamente gentios", por terem agido de modo heróico para salvar
judeus, às vezes até com a oferta da própria vida, é uma demonstração de
que nem sequer na hora mais sombria todas as luzes se apagaram. Por isto os
Salmos e a Bíblia inteira, embora conscientes da capacidade humana de fazer o
mal, proclamam que não será o mal que terá a última palavra. Do abismo do
sofrimento e da dor, o coração do crente clama: "Javé, eu
confio em Ti, e digo: "Tu és o meu Deus!"" (Sl
31, 14).
3. Judeus e cristãos compartilham um imenso património
espiritual, que deriva da auto-revelação de Deus. Os nossos ensinamentos
religiosos e as nossas experiências espirituais exigem que vençamos o mal
com o bem. Recordamos, mas não com algum desejo de vingança nem como um
incentivo ao ódio. Para nós, recordar significa orar pela paz e a justiça e
empenhar-nos pela sua causa. Só um mundo em paz, com justiça para todos,
poderá evitar que se repitam os erros e os terríveis crimes do passado.
Como Bispo de Roma e Sucessor do Apóstolo Pedro, garanto ao
povo judeu que a Igreja católica, motivada pela lei evangélica da verdade e
do amor e não por considerações políticas, sente-se profundamente
entristecida pelo ódio, pelos actos de perseguição e pelas manifestações
de anti-semitismo cometidas contra os judeus por cristãos em todos os tempos
e lugares. A Igreja rejeita qualquer forma de racismo como uma negação da
imagem do Criador inerente a todo o ser humano (cf. Gn 1, 26).
4. Neste lugar de solene memória, rezo com fervor para que a
nossa tristeza pela tragédia vivida pelo povo judeu no século XX, conduza a
uma nova relação entre cristãos e judeus. Construamos um futuro novo no
qual já não haja sentimento antijudeu entre os cristãos, nem sentimento
anticristão entre os judeus, mas sim o respeito recíproco requerido àqueles
que adoram o único Criador e Senhor e olham para Abraão como o nosso pai
comum na fé (cf. Nós recordamos: uma reflexão sobre o Shoah,
V; cf. L'Osserv. Rom., ed. port. de 21/3/98, pág. 8, V).
O mundo deve prestar atenção à advertência que provém das vítimas do
Holocausto e do testemunho dos sobreviventes. Aqui em Yad Vashem, a memória
continua viva e ardente na nossa alma. Ela faz-nos bradar:
"Ouço as calúnias de muitos, e o pavor me envolve!
Javé, eu confio em Ti, e digo: "Tu és o meu Deus!"" (Sl
31, 13-15).
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