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PAPA PAULO VI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 20 de Maio de 1970

 

A hora da coragem

Devemos repetir uma frase que pronunciámos no Consistório (reunião dos Cardeais) de anteontem, porque Nos parece que é importante, actual, e pode ser repetida também numa audiência geral como esta, porque se destina a todos. É a seguinte: a hora que soa no quadrante da história exige, efectivamente, de todos os filhos da Igreja, uma grande coragem e, de modo muito especial, a coragem da verdade, que o Senhor em pessoa recomendou aos seus discípulos, quando lhes disse: « Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não; ... » (Mt 5, 37).

Este dever, o de professar corajosamente a verdade, é tão importante, que o próprio Senhor o definiu como a finalidade da sua vinda a este mundo. Diante de Pilatos, durante o processo que precedeu a sua condenação à cruz, Jesus pronunciou estas graves palavras: « Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade » (Jo 18, 37). Jesus é a luz do mundo (cfr. Jo 8, 12), é a manifestação da verdade; e, para cumprir esta missão, que dá origem à nossa salvação, Jesus ofereceu a própria vida, mártir da verdade que, afinal, é Ele mesmo.

Deste facto surgem duas questões. A primeira é a que veio aos lábios do próprio Pilatos. Ele, talvez não ignaro, mas céptico em relação às discussões filosóficas da cultura greco-romana sobre a verdade, ele, magistrado competente para julgar não teorias especulativas, mas delitos e crimes, admira-se que este Rabi, que lhe tinha sido apresentado como réu de morte, por crime de lesa majestade, se declare mestre da verdade; imediatamente o interrompe e, talvez com certa ironia, pergunta: Quid est veritas? — o que é a verdade? (Jo 18, 38). Houve quem, engenhosamente, baseando-se nesta frase latina, construísse um estupendo anagrama como resposta: « Est vir qui adest — é o homem que está aqui ». Mas Pilatos não espera a resposta e procura concluir imediatamente o interrogatório, resolvendo a questão judiciária. Para nós e para todos, porém, a questão — o que é a verdade? — continua aberta.

É uma grande questão que abrange a consciência, os factos, a história, a ciência, a cultura, a filosofia, a teologia e a fé. A nós, porém, interessa-nos este último ponto: a verdade da fé, porque é sobre ela que se funda todo o edifício da Igreja, do cristianismo e, por isso, o da nossa salvação e, consequentemente, o do destino do homem e da civilização à qual está ligado. Hoje, mais do que nunca, esta verdade da fé apresenta-se como a base fundamental sobre a qual devemos construir a nossa vida. É a pedra angular (cfr. 1 Pdr 2, 6-7; Ef 2, 20; Mt 21, 42).

E que verificamos a este respeito? Verificamos um fenómeno de timidez e de medo; mais ainda, um fenómeno de incerteza, de ambiguidade e de cedimento. Foi bem identificado nesta frase: « Houve um tempo em que o respeito humano prejudicava tudo. Era uma grande preocupação para os Pastores. O cristão não ousava viver segundo a própria fé... Mas, agora, não se começa a ter medo de crer? Este é um mal mais grave, porque danifica os fundamentos... » (Cardeal Garrone, Que faut-il croire? Desclée, 1967).

Sentimos a obrigação, no final do ano da fé, de fazer, na festa de São Pedro de 1968, uma explícita profissão de fé, de recitar um Credo que, seguindo os autorizados ensinamentos da Igreja e da Tradição autêntica, remonta ao testemunho apostólico que, por sua vez, se funda em Jesus Cristo, Ele mesmo definido « testemunha fiel » (Apoc 1, 5).

Mas, hoje, a verdade está em crise. A verdade objectiva, que nos dá a posse cognoscitiva da realidade, é substituída pela verdade subjectiva: a experiência, a consciência, a livre opinião pessoal e, às vezes, até a crítica da nossa capacidade de conhecer e de pensar validamente. A verdade filosófica cede o passo ao agnosticismo, ao cepticismo e ao « esnobismo » da dúvida sistemática e negativa. Há quem estude e investigue quase mais para demolir do que para encontrar. Prefere-se o vazio. O Evangelho adverte-nos disto : « ...os homens amaram mais as trevas do que a luz... » (Jo 3, 19). E, com a crise da verdade filosófica (onde está a nossa sã racionalidade, a nossa filosofia perene?), a verdade religiosa desabou em muitos espíritos, que já não sabiam admitir as grandes e luminosas afirmações do conhecimento de Deus, da teologia natural e, muito menos, as da teologia da revelação. E, assim, os olhos enevoaram-se e depois ficaram cegos. E ousou-se trocar a própria cegueira com a morte de Deus.

A verdade cristã, portanto, sofre actualmente perturbações e crises pavorosas. Intolerante, em relação ao ensinamento do magistério instituído por Cristo, como tutela e lógico desenvolvimento da sua doutrina, que é a de Deus (cfr. Jo 7, 12; Lc 10, 16; Mc 16, 16), há quem procure uma fé cómoda, esvaziando a fé íntegra e verdadeira daquelas verdades que não parecem aceitáveis à mentalidade moderna, e escolhendo, por iniciativa própria, algumas verdades que são consideradas admissíveis (selected faith); há também quem procure uma nova fé, principalmente no que diz respeito à Igreja, tentando adaptá-la às ideias da sociologia moderna e da história profana (e assim repete o erro de outros tempos, modelando a estrutura canónica da Igreja, segundo as instituições históricas vigentes); há ainda quem deseje confiar numa fé puramente naturalista e filantrópica, numa fé utilitarista, ainda que baseada nos autênticos valores da mesma fé — os da caridade —, tornando-a culto do homem e transcurando o seu primeiro valor, o amor e o culto de Deus; há, por fim, quem, com uma certa desconfiança das exigências dogmáticas da fé e com o pretexto do pluralismo, que permite estudar as inexauríveis riquezas das verdades divinas e exprimi-las com diversidade de linguagem e de mentalidade, queira legitimar as expressões ambíguas e incertas da fé e limitar-se a procurá-la para não ter que a afirmar e pedir a opinião dos fiéis, perguntando-lhes em que realidades querem crer e atribuindo-lhes um indiscutível carisma de competência e de experiência, que expõe a verdade da fé ao perigo das mais estranhas e volúveis arbitrariedades.

Tudo isto verifica-se quando não se presta reverência ao magistério da Igreja, com que o Senhor quis proteger as verdades da fé (cfr. Hebr 13, 7; 9, 17).

Mas a nós, que, por divina misericórdia, possuímos este « scudum fidei — escudo da fé » (Ef  6, 16) ou, por outras palavras, uma verdade defendida, segura e capaz de suportar o choque das opiniões impetuosas do mundo moderno (cfr. Ef 4, 14), apresenta-se uma segunda questão, a da coragem. Devemos ter, como dissemos, a coragem da verdade. Não vamos agora analisar esta virtude moral e psicológica que chamamos coragem e que todos nós sabemos ser uma força da alma, que significa maturidade humana, vigor de espírito, audácia de vontade e, também, capacidade de amor e de sacrifício. Vamos fazer notar apenas, mais uma vez, que a educação cristã se nos apresenta como um campo de treino das energias espirituais, da nobreza humana, do domínio de si e da consciência dos próprios deveres.

E acrescentamos que esta coragem da verdade é exigida, principalmente, de quem é mestre e defensor da verdade, e se refere também a todos os cristãos baptizados e crismados. Não é um desporto agradável, mas uma profissão da fidelidade que devemos a Cristo e à sua Igreja e, hoje, é um grande serviço prestado ao mundo moderno que, talvez mais do que supomos, espera de cada um de nós este testemunho benéfico e confortador.

Para tanto vos ajude, com a graça do Senhor, a Nossa Bênção Apostólica.

 

 

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